A ARTE DE SORRIR QUANDO A VIDA DIZ NÃO

A arte de sorrir quando a vida diz não Psicologia Junguiana

Quando eu era criança, amava escutar e brincar com o disco de vinil, na época, Plunct Plact Zuum. Entre todas as canções havia uma que me intrigava e que eu ainda não compreendia direito, “Brincar de Viver”, na voz de Maria Bethânia. Um pedacinho de uma estrofe dessa música que até hoje me acompanha é “A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Já faz bastante tempo que cresci e na fase em que estou compreendo melhor o que Guilherme Arantes, inspirado em Jon Lucien, quis dizer com a letra dessa música. Trazendo para o universo da teoria junguiana, acho que é possível fazer um paralelo com os conceitos de ego, Si-mesmo (Self) e a relação entre essas duas instâncias que compõem a dinâmica psíquica.

O ego, para Jung, é o núcleo subjetivo que organiza e centraliza os processos da consciência, que, por sua vez, é caracterizada pela capacidade de discernimento, escolha, categorização e memória, entre outras funções. Mas nós, ou melhor, a nossa psique, não pode ser reduzida apenas à consciência, pois na verdade, a psique em sua maior parte é composta de processos inconscientes. Os sistemas autônomos do nosso corpo, por exemplo, como a respiração, os batimentos cardíacos e a digestão ocorrem sem a nossa atenção ou controle conscientes, assim como o nosso sono e a produção de sonhos. O inconsciente pessoal, segundo Jung, se estende também a tudo que não sabemos, que já esquecemos, que não percebemos, que não nos é acessível, alcançando toda a história do mundo e todos os enigmas que envolvem a vida, o planeta, o universo, a natureza e o mistério a que damos o nome de “Deus”. Nesse nível[i] trata-se do inconsciente coletivo e as estruturas que os compõem, os arquétipos. Independentemente de termos ou não consciência do que nos acontece, o fato com o qual temos de lidar constantemente é que tudo nos influencia.

O Si-mesmo é uma expressão usada por Jung para descrever metaforicamente um centro da vida psíquica, incluindo consciente e inconsciente, é o equivalente a imagem de Deus (imago dei), o arquétipo central, ou, em outras palavras, a imagem simbólica de um centro ordenador e unificador ao qual o ego é submetido. Jung (2012a p. 371-373) explica que o Si-mesmo é de natureza numinosa, experimentado como um “estado central, um centro da personalidade, que é essencialmente distinto do eu”, e continua:

O si-mesmo que gostaria de realizar-se, estende-se para todos os lados, ultrapassando a personalidade do eu; de acordo com a natureza abrangente ele é ora mais claro, ora mais escuro do que esta e assim coloca o eu a tal ponto diante de problemas, dos quais ele bem gostaria de esquivar-se. Fracassa ou a coragem moral ou a compreensão ou as duas ao mesmo tempo, até que o destino finalmente acabe por decidir a sorte... Nisto se manifesta a força numinosa do si-mesmo... Por isso a vivência do si-mesmo significa uma derrota do eu. A enorme dificuldade dessa vivência consiste no fato de que o si-mesmo apenas pelo conceito se distingue do que desde sempre chamamos de “Deus”, não, porém na prática. (JUNG, 2012a, p. 373)

Jung complementa que o Si-mesmo vai além do eu, abrangendo o Si-mesmo das outras pessoas, os outros indivíduos como um todo, além do próprio eu (Cf. JUNG 2013b, p. 176), pois se trata de um arquétipo transpessoal.

Edinger reflete sobre a relação desses dois centros psíquicos, ego e Si-mesmo:

Como há dois centros autônomos do ser psíquico, o vínculo entre eles assume importância capital. A relação entre o ego e o Si-mesmo é altamente problemática e corresponde, de maneira bastante aproximada, à relação entre o homem e seu Criador, como é descrito na mítica religiosa.  (EDINGER 2020, p. 3).

A inflação do ego ocorre quando ele se identifica inconscientemente com o Si-mesmo, acreditando ser o todo poderoso, atribuindo a si próprio qualidades que não lhe pertencem, algo que os gregos na antiguidade chamavam de hybris, quando o ser humano agia, sem perceber, de forma desmedida, como se fosse uma divindade. Se observarmos isso de forma descuidada parecerá uma insanidade achar que alguém julga ter o atributo de um deus. Porém, por exemplo, quando na nossa imaturidade juvenil pensamos que estamos atendendo as exigências feitas pela sociedade para ter uma vida de sucesso, como no que diz respeito à profissão, amizades, família, amor, dinheiro, diversão, nossa consciência normalmente se confunde e pode vir a sentir que somos, sim, onipotentes. Na verdade, isso ocorre muitas vezes ao longo da vida, desde a infância, quando a criança experimenta a si própria como se fosse o centro do universo.

Falando assim, pode parecer que a inflação do ego é algo absurdo e inadequado, mas trata-se de uma condição necessária ao desenvolvimento da consciência, a fim de assegurar a autonomia do ego em relação ao inconsciente de onde ele surgiu. Portanto, a inflação também tem por objetivo, num sentido saudável da personalidade, desenvolver o ego e novos níveis de consciência (Cf. EDINGER, 2020, p. 43). O problema acontece quando o ego permanece inflado em demasia, o que pode gerar consequências prejudiciais ao indivíduo, assim como ocorre em algumas patologias que apresentam como sintoma a auto-referência, a qual, se vier associada com a paranoia, pode gerar o sentimento de perseguição, por exemplo. Um outro exemplo pode ser observado nos indivíduos com caráter narcisista, que segundo Kernberg (apud Schwartz-Salant, 1995 p.37) apresentam o sintoma de auto-referência nas suas relações com as pessoas, e uma aparente contradição por apresentarem um conceito inflado a respeito de si mesmos e ao mesmo tempo uma grande necessidade de receber elogios dos outros. No distúrbio narcisista, o ego se identifica com o Si-mesmo, que nesse caso não traz a energia numinosa do arquétipo e sim uma orientação para o poder, pois conforme explica Schwartz-Salant (1995, p.24) “o caráter narcisista está numa atitude defensiva com relação à numinosidade do Si-mesmo, pois o poder dessa numinosidade é muito superior ao seu e poderia derrotar com facilidade seu si-mesmo grandioso”.

Com as vivências em sociedade que temos desde criança, aos poucos, os indivíduos sem problemas psíquicos mais graves vão percebendo que o mundo não gira ao seu redor e ocorre um estado de des-identificação do ego em relação ao Si-mesmo, ao qual Edinger nomeou como uma experiência de “alienação” do ego. Um dos possíveis efeitos disso é uma experiência de desvinculação do Si-mesmo, ou seja, como se ele deixasse de existir e a pessoa perdesse o seu propósito, o sentido e o significado da vida, como naqueles momentos em que brigamos ou desacreditamos de Deus ou da imagem psíquica que temos dele, podendo nos sentir bobos e infantis por acreditar que existe um propósito maior na vida, que não fazemos ideia do que estamos fazendo aqui. Quando a vida diz não, o nosso ego se aliena, se separa, se afasta do centro total da psique e assim perde a estima por si mesmo, pela vida. Quando ocorre a alienação, vem também o desespero e, consequentemente, a violência que pode ser externa ou interna, podendo culminar em assassinato ou suicídio em casos extremos (Cf. EDINGER, 2020, p. 62). Lembro-me de uma vez no fundo do meu desespero, aos prantos, quando batia no volante e sozinha berrava com Deus, “vc me abandonou, vc acha que eu aguento?!, eu vou quebrar!”. Não quebrei, mas odiei Deus por muito tempo ou odiei a mim mesma pela minha impotência, infantilidade e visão limitada que levou anos de dor, repressão e finalmente reflexão, para se expandir e poder ser ressignificada, ao menos em parte.

Edinger (2020, p.21) apresenta uma formulação cíclica para entendermos a união e separação entre o ego e o Si-mesmo, considerando que “O processo de alternância entre a união ego-Si-mesmo parece ocorrer de forma contínua ao longo da vida do indivíduo, tanto na infância quanto na maturidade”. Quando estamos acostumados com a vida nos dizendo “sim”, atendendo nossas necessidades básicas e humanas, seja pela família que temos, ou dinheiro, beleza, fama, poder e tantos outros atributos valorizados por nós e pela sociedade, podemos nos esquecer que somos meros mortais subordinados a um poder muito maior, desconhecido, implacável e que não se submete aos desejos do ego de ninguém.

Conforme Jung (2015 p. 131) nos explica, o Si-mesmo também se caracteriza como uma forma de compensação do conflito entre o consciente e o inconsciente. O Si-mesmo é uma força movente que atua de forma dinâmica e compensatória em relação à atitude dominante do ego, a fim de criar condições para produzir uma nova consciência, mais ampliada e profunda.  Assim, no caso de uma inflação psíquica, o Si-mesmo pode vir a dizer não aos desejos do ego com a finalidade de estimular um novo nível de desenvolvimento do indivíduo, para que ele venha a perceber a sua pequenez diante do Si-mesmo. Por outro lado, em momentos de alienação do ego, a Vida pode vir a dizer sim, estimulando uma reconexão do ego com o Self. Jung, em uma entrevista[ii], responde o que é Deus para ele: “Deus é o nome pelo qual designo tudo que se atravessa no caminho de minha obstinação de forma violenta e atrevida, tudo que atrapalha minhas opiniões, meus planos e intenções subjetivos e muda o curso da minha vida para o bem ou para o mal”. (apud EDINGER, 2020, p. 125).

A religião cristã, tão presente no Ocidente, se esforça para lembrar as pessoas de que elas são apenas humanas e não Deus, e mais, de que Deus é dócil, amoroso, onisciente, e que Ele tem sempre razão e nós, mortais, é que eventualmente podemos não compreender seus desígnios, o que se traduz pela máxima: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Já fui muito mais cristã do que sou hoje, mas sei que essa cultura está impregnada nas minhas entranhas, seja pela educação religiosa que um dia tive, seja pelos complexos que se desenvolveram ao longo da vida, ou pelas imagens arquetípicas que se realizam em mim, de modo que toda essa herança me impele ao religare e ao religere.

Os padres derivam a palavra religião de religare, que significa tornar a ligar, unidos e ligados a Deus (Cf. Jung 2012b p.140). Porém, o termo latino clássico que parece ter originado a palavra religião é religere. Conforme nos esclarece Jung (2012b, p.19), religere significa numinoso, um efeito dinâmico que se apodera e domina o sujeito, independente da sua vontade e produz uma modificação especial na consciência. Jung (2012c, p. 247) nos diz que “parece que a religio, isto é, a consideração cuidadosa do inconsciente pelo consciente, constitui um fator necessário para a aparição do aspecto paterno da divindade”. Assim, seja no sentido de religare ou religere, me sinto impelida a reconhecer o numinoso e me ligar de novo com a imagem de Deus em mim, com o Si-mesmo, com algo que é maior do que o meu ego pode compreender, algo ao qual minha consciência é obrigada a se submeter quando os desejos do ego e os impulsos do Self não coincidem e, mesmo com dor, alienação, tristeza e raiva posso intuir que a Vida tem razão. Edinger (2020, p.126) diz que para Jung “todas as vicissitudes da vida externa e interna tem um significado e constituem uma expressão de padrões e poderes de ordem transpessoal”, o Self.

No fim, precisamos nos ocupar com o nosso inconsciente, com o que não faz parte do ego, facilitando o processo de acomodar na consciência os desígnios do Si-mesmo, seja na forma de sonhos, sintomas ou imaginação ativa. Promover o diálogo entre consciência e inconsciente é se permitir escutar as mensagens do inconsciente, sem a pretensão de que a compreensão racional dará conta de lidar com tudo o que vem, de eliminar sintomas, de controlar sonhos ou de impedir que os complexos tomem o controle da nossa personalidade. Para que a consciência dialogue com o inconsciente é necessário ceder aos impulsos criativos do Si-mesmo, que representa a totalidade psíquica, e atua de forma compensatória à consciência para promover uma maior amplitude de entendimento sobre os eventos da vida. Fluir com o Si-mesmo e com o que vem dele é trabalhar para que o ego se renda ao mistério incognoscível, é trilhar o dificílimo caminho do processo de individuação, de tornar-se quem se é e não quem se idealiza, de suportar a tensão dos opostos e a impotência do ego diante daquilo que ele não pode controlar. Os movimentos do Si-mesmo chegam à consciência através de ondas, metaforicamente falando, e vão produzindo efeitos sobre o ego, promovendo uma ampliação da consciência que vai ganhando perspectivas mais amplas, remodelando a vida psíquica e social. Nem sempre são efeitos agradáveis, ondas mansas ou ecos sussurrantes, muitas vezes os movimentos do Si-mesmo vêm com a força de furacões, dores alucinantes, frustrações sem tamanho, talvez proporcionais ao sentimento de onipotência do ego, de forma que este possa ressignificar seus conceitos, valores, desejos e unilateralidades. Se nos relacionarmos com o Si-mesmo como se fosse um professor cuja finalidade é abrir nossos olhos para as múltiplas possibilidades da vida e do viver, podemos tentar ter um pouco mais de calma e quem sabe aprender a sorrir quando a vida diz não, procurando entender o que está por trás do tão apavorante e revoltante “não”. Nas palavras de Jung, “se assumir de livre e espontânea vontade a inteireza, não será obrigado a sentir na carne que ela se realiza dentro dele contra sua vontade, ou seja, de forma negativa” (JUNG, 2013a, 89). Aprendamos a modelar nosso ego ao ponto dele ser bastante flexível para gentilmente se render aos caminhos traçados pelo Si-mesmo que trabalha para a individuação do ser total.

 

TARSILA DE NÍCHILE – analista junguiana em formação pelo IJEP tarsilanichile@gmail.com

 

Referências:

EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo Uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. 2ª.ed. São Paulo: Pensamento Cultrix, 2020.

BETHÂNIA, Maria. Brincar de Viver. Compositores: Guilherme Arantes e Jon Lucien. Disco: Plunct, Plact Zuum. Gravadora: Som Livre, 1983

JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis Rex e Regina Adão e Eva A Conjunção. 3ª. Ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.

______Psicologia e Religião Psicologia e religião ocidental e oriental. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.

______Mysterium Coniunctionis Epílogo Aurora Consurgens. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2012c.

______Aion Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10ª. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.

______ A Natureza da Psique A dinâmica do inconsciente. 10ª. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.

______O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

SCHWARTZ-SALANT, Nathan. Narcisismo e Transformação do Caráter A psicologia das desordens do caráter narcisita. 10ª.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

 

[i] Esses dois níveis inconscientes, pessoal e coletivo, encontram-se inter-relacionados. A distinção serve apenas para fins didáticos, pois trata-se de conceitos usados de modo aproximado por Jung para teorizar e designar experiências associadas ao inconsciente, tanto em nível pessoal como coletivo.

[ii] Entrevista publicada em Good Housekeeping Magazine, dezembro de 1961.


TARSILA DE NÍCHILE - 18/12/2020