A DISTORÇÃO DA INDIVIDUALIDADE REAL PELA IMAGEM IDEAL NO FILME PERFECT BLUE

A distorção da individualidade real pela imagem ideal no filme Perfect Blue Psicologia junguiana

Este artigo pretende analisar o filme Perfect Blue e, para isso, apresenta boa parte do enredo. Assim, para aqueles que querem ver o filme, seria interessante fazê-lo antes. Perfect Blue é um filme em animação estilo anime lançado em 1997 pelo diretor Satoshi Kon, que conta a história da transição da idol  Mima para sua carreira de atriz, com todos os conflitos que isto acarretou. Antes de analisar o próprio enredo do filme, é importante clarear o que realmente significa o conceito de idol no Japão. Idols são pequenos grupos, de meninos ou meninas, jovens profissionais, cantores e dançarinos em grupo ou solo que, além do aspecto musical, vendem sua própria imagem, pois é tradição neste meio eventos nos quais se pode conversar, às vezes em particular, apertar as mãos e outros tipos de contatos pessoais, sendo, por isso, a imagem de extrema importância.

 Hoje em dia, é bem mais comum grupos ou idols solos que apostam em uma postura mais “sexy”. Porém, ainda que sempre houvesse traços deste aspecto nesta indústria, na época do filme em questão, o foco mais comum era a inocência ou até mesmo a figura angelical. Assim, tanto as empresas quanto os próprios idols precisam realizar um grande esforço para manter esta imagem, inclusive porque se ocorrer algum boato sobre a vida afetiva ou sexual particular de algum deles sua carreira provavelmente estará arruinada. Devido a isso, o público desses grupos costuma ser obsessivo, e até possessivo. Há relatos, por exemplo, que alguns foram ameaçados de morte por terem maculado essa imagem, e outros sofreram atentados reais a suas vidas, além de casos em que foi preciso pedir desculpa publicamente por terem vidas pessoais. Vale lembrar que o público japonês muitas vezes se comporta assim também com atores, escritores, diretores e afins, entretanto com os idols o problema é maior.

O filme se inicia justamente abordando essa cultura patológica sobre os idols, focalizando, neste caso, grupos femininos. No último show que Mima faz com sua banda idol, conhecida como Cham!, ela declara que estava abandonando a carreira como idol para se tornar atriz. Esta notícia desperta, primeiramente, as vaias dos fãs, para em seguida praticamente implorarem para que ela reconsiderasse, sendo que nesta cena aparece um segurança gravando o show, parecendo, assim, ser também um desses fãs obsessivos. A partir dessa mudança de carreira, Mima começa a sofrer vários atentados, que vão desde o vandalismo, em que a parede do seu local de trabalho é pichada com mensagens para que ela continue como idol, até uma carta que explode ao ser aberta por um representante da empresa em que ela trabalha, provocando ferimentos graves que o levaram ao atendimento hospitalar emergencial. Entre essas várias ações, ela recebe uma carta de um fã que diz que sempre observou o “quarto de Mima”. Conversando sobre isto com sua empresária, que também foi uma idol no passado, Mima descobre que provavelmente trata-se de um site da internet. Então, com a ajuda da empresária, ela compra um computador para acessar esse site, que se revela como um diário sobre sua vida escrita por alguém que diz ser ela. O que realmente é perturbador nesta descoberta é que a pessoa que escreve o site tem dados muito específicos sobre suas ações e gostos.

Quando ela começa propriamente sua carreira como atriz, sua empresária e o representante da empresa discutem muito sobre a questão da sua imagem. A empresária ainda quer manter sua imagem como idol pura, mas o representante diz que para ser atriz ela precisa de uma imagem mais madura. Esta discussão se torna ainda mais intensa quando, no filme que estão gravando, Mima irá atuar como uma stripper que está sendo estuprada em pleno palco. Durante esta gravação, a protagonista atinge um estado no qual se confundem a atuação da atriz e ela mesma, pois em sua percepção a equipe e os instrumentos de gravação somem: no local onde supostamente a equipe estaria, aparece a porta da boate. Outro elemento importante nesta cena é que a empresária, que estava assistindo a gravação, se levanta chorando e sai correndo do setting de gravação.

O filme se torna muito mais confuso depois desta última cena descrita, que apresenta um ponto de ruptura em muitos sentidos: é a partir daí que as chances de Mima voltar a sua carreira como idol se tornam praticamente nulas, pois sua imagem está “manchada”. O diário escrito supostamente por Mima mostra, primeiramente, muitas publicações sobre como ela não quer fazer aquele tipo de cena; em seguida, simula que sua carreira como atriz nunca teria começado, como se ela continuasse sendo uma idol, inclusive a escritora do diário diz que Mima participou de todos os shows do grupo Cham! depois de sua saída. Para todos que viram o filme, não é necessário explicar o porquê “confuso”, pois esta própria desorientação é angustiante para alguns: há muitas quebras de cena em que a protagonista está fazendo qualquer coisa e no momento seguinte acorda em  sua cama; ou então está fazendo algo em casa e logo em seguida ela aparece distraída no setting de gravação; em momentos posteriores, ela claramente se confunde com a própria personagem que está representando; também imagina que está sendo perseguida pelo segurança da primeira cena. Além disto, ao olhar para janelas e espelhos, sua imagem aí refletida está estranhamente brilhante, usando suas antigas roupas de idol,  questionando quem ela realmente é, afirmando que ela nunca deveria ter deixado de ser uma idol, já que assim era mais feliz.

A partir do exposto, podemos supor que a própria noção de eu, ego, da protagonista está desfalecendo aos poucos, devido à enorme quantidade de pressão que existe sobre ela por causa da troca de carreira. Fica claro que os lapsos do filme são os seus próprios: ela se esquece de períodos inteiros de sua vida, começa a confundir realidade com a fantasia e, mais importante do que essa divisão em si, é que sua perturbação está focalizada na questão da identidade, pois ela já não sabe mais quem é e quais são suas próprias ações.  

Para a psicologia analítica, a identidade está relacionada aos conceitos de ego e de persona: o primeiro representando a noção de eu mesmo e o segundo, nossas máscaras e papeis sociais. A relação destes dois conceitos é muito complexa, pois a persona é uma ferramenta que o ego usa para a adaptação social. Desta forma, podemos dizer que a primeira surge do segundo a partir do que é valorizado ou não no contexto social. Em alguns casos mais graves, o ego pode se identificar apenas com uma persona, exercendo apenas este papel, renegando qualquer traço de individualidade; em outros, a persona pode se tornar tão proeminente que se torna um pseudo ego, tomando a psique e a fazendo viver sua imagem ideal, às custas da imagem real. (JUNG, 2011a, p. 48-49) No caso de Mima, podemos observar duas máscaras: sua antiga como idol e a nova como atriz. Porém, ela se vê identificada com estas duas máscaras ao mesmo tempo, de forma que sua identidade pessoal, sua individualidade, está condicionada a estas duas. Podemos supor que o conflito que ela vive no filme é causado por estar identificada com duas personas totalmente distintas, que não consegue conciliar consigo própria. Muitas vezes ela “desmaia” em momentos de grande estresse, como quando ela abre a porta de seu quarto e vê vários repórteres. O afastamento das “duas Mimas” e os lapsos se tornam claros em uma cena em que ela está olhando o site “quarto de Mima” e o usa como referência para saber o que ela fez ou não naquele dia, mesmo sabendo que não foi ela que escreveu.

Um elemento ainda mais tenso é que há dois homicídios estranhos próximo à metade do filme. O primeiro é do roteirista do filme que está sendo gravado dentro da estória, que morre dentro do elevador da companhia em que trabalha. A cena mostra que ao entrar no elevador havia um rádio tocando as músicas da banda Cham!, da época que Mima ainda fazia parte dela. Quando a porta novamente se abre, ele está totalmente perfurado, sendo focalizados os seus olhos. A segunda morte é do fotógrafo que tirou fotos sensuais de Mima para uma revista. A cena de sua morte mostra ele abrindo a porta para uma entregadora, que logo se revela como a própria Mima, estranhamente brilhante, que o imobiliza e o ataca várias vezes com um picador de gelo, também a arma do primeiro homicídio. O mais interessante dessas duas mortes é que os alvos são pessoas que “desvirtuaram” a imagem pura da protagonista, levando-a a fazer coisas obscenas publicamente. A primeira morte parece se relacionar com a imagem de Mima como idol, indicada pelo rádio tocando a música da banda da qual ela fazia parte, na cena do crime. Já a segunda parece ser a própria personagem. Isto nos autoriza a supor que se trate de uma vingança.

Em outra cena, fica claro que o segurança citado anteriormente tinha contato com a autora do “quarto da Mima”, que o convence que todos a estão forçando à carreira de atriz. Logo, a Mima atriz está em seu caminho e precisa ser morta. Neste ponto podemos perceber mais um tipo de perturbação, que também aparece como um traço cultural, como foi descrito no início do artigo. O segurança é obcecado pela imagem que Mima e a empresa em  que ela trabalha criaram dela como uma idol pura.  Assim, ele não consegue aceitar a nova realidade: ela é uma atriz, que pode, inclusive, posar nua para fotos de uma revista. Desta forma, ele foi facilmente convencido a tentar matar a Mima real, pois ela é um empecilho na manutenção de sua imagem ideal. Neste evento, fica claro que sua doença tem forte componente sexual, pois ao mesmo tempo tenta estuprá-la e matá-la. Felizmente, ela consegue se defender e, neste processo, ela mata seu agressor.

Por fim, temos um terceiro tipo de perturbação: a empresária encontra a protagonista depois deste último ataque e a acompanha até o local onde ocorreu que, estranhamente, estava totalmente limpo, o que faz a empresária questionar se aquilo realmente ocorreu e a levá-la, em seguida, para casa. De início, Mima não percebe nada de errado, mesmo que a iluminação e o formato geral do apartamento pareçam ser diferentes. Porém, ela logo observa detalhes: um pôster que ela tinha da banda que participava, que ela tirou logo que começa a carreira de atriz, e o aquário, que deveria estar praticamente vazio, pois a maioria dos peixes morreu durante o filme, estava cheio de peixes. Finalmente, ao olhar pela janela, Mima se dá conta que não era seu apartamento, mas sim o da empresária, montado de forma que fosse igual ao seu antes da troca de profissão. A empresária aparece vestida com as roupas que Mima usava quando era idol, declarando ser a “verdadeira Mima”. Elas tem uma conversa acalorada na qual é revelado que a empresária é a autora do site “quarto de Mima” e que induziu o segurança a segui-la e depois tentar matá-la. Esta cena se encerra quando a empresária começa a perseguir a protagonista pela cidade com um picador de gelo. Interessante notar que o reflexo da empresária ao longo desta cena aparece como a Mima estranhamente brilhante.

Neste terceiro tipo de perturbação, observamos a empresária querendo viver, através de Mima, sua própria carreira de idol, abandonada por não ter alcançado êxito. Seu contato com a realidade começa a degradar quando Mima interrompe seus planos, optando pela carreira de atriz. A partir deste momento, ela vive a fantasia de que agora ela é a verdadeira Mima. Para este plano funcionar, realiza muitas tarefas para que o quadro da protagonista se agrave, como a criação do site e a indução do segurança, para que então possa efetivamente tomar seu lugar. O ponto mais interessante deste filme é que ele nos convida a experimentar o agravamento da perturbação de cada personagem, seja nas quebras de cena, em que não é possível ter certeza do que é real, seja em ter uma obsessão com  a figura pública a qual você ama e que acredita que também te ama, ou viver como sendo essa própria figura, mesmo não sendo. Por isto, um tom forte de angústia permeia este filme. Somente no final, fica claro o quanto a perturbação de Mima foi estimulada pela empresária, pois sua carreira como atriz segue um bom caminho, já que as ameaças contra ela cessam, depois da internação da empresária.

Assim como no caso de Mima, as perturbações do segurança e da empresária orbitam o tema da identidade e imagem. Como dito anteriormente, este tema se relaciona ao conceito de ego, mas também ao de persona, porém o primeiro se aproxima da imagem real, relacionada à imagem criada de si próprio através das experiências corporais e julgamentos externos, e o segundo, à imagem ideal, que serve para a adaptação do mundo externo. Nos casos psicóticos, como a esquizofrenia, o ego está danificado, ou não teve sua formação adequada, devido a causas orgânicas que podem ser potencializadas pelo ambiente ou mau desenvolvimento. Devido a este estado antecipado, as pessoas que têm esta tendência possuem  baixa resistência a conteúdos inconscientes, que podem invadir a consciência. Neste momento, a consciência e, consequentemente, o ego se rompem, perdendo qualquer resquício de unidade. A partir do apresentado pelo filme, podemos supor que o segurança, mas principalmente a empresária, possuem este traço, logo a tensão psíquica criada entre a imagem criada, Mima como idol; e a imagem real, de que ela toma outro rumo em sua carreira, pode ter sido o ponto culminante nesta desintegração. Podemos supor que o caso da empresária é mais grave pois a diferenciação entre eu e outro está prejudicada, ela vê em Mima o ideal do que ela deveria ser quando jovem, que não consegue atingir devido à falta de talento.

Alex Fernandes Nunes - analista em formação pelo IJEP

Referências:

JUNG, C. G.  O eu e o inconsciente. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2011a. 

JUNG, C. G. A psicogênese das doenças mentais. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.

JUNG, C. G.  Aion: Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. 


Alex Fernandes Nunes - 09/06/2020