A ESCRITA EXPRESSIVA COM CORREÇÃO DO CURSO DE VIDA

A escrita expressiva com correção do curso de vida Arteterapia

A escrita expressiva com correção do curso de vida.

Não há nada mais importante para se entender apropriadamente do que a própria experiência pessoal.  - Jordan Peterson

Quando você foi alfabetizado, a primeira lição foi distinguir as letras dos números. Posteriormente aprendeu a juntar letras e vogais em busca do som correto. Até o dia que como num passe de mágica, você começou a ler e escrever. Aprendeu as regras gramaticais e a redigir com diferentes estilos de escrita. Mas, as escritas mais profundas não necessariamente seguem um estilo.

Livros com profundo conhecimento foram escritos sob outra óptica. O pequeno príncipe do francês Saint-Exupéry lido em mais de 280 idiomas ao redor do mundo, foi baseado na experiência do autor com o acidente que sofreu no deserto do Saara no século passado. Independente do como escrever e/ou do porque, escrever é registrar.

A escrita pode ser considerada a [i]segunda forma de registro do homem. O verbo latino gerere significa portar sobre si. Palavras como gerir, gerência e gesto tem origem neste mesmo verbo. Por sua vez, gestos significa movimento, atitude, gesticulação. A palavra registrar é a soma do prefixo re que indica repetição + gestus, ou seja, repetir o gesto. Quando registramos algo, estamos trazendo de volta, revivendo aquele algo. Registrar em forma de escrita ocupa um lugar de tamanha importância que é o marco da passagem entre a pré-história e a história antiga.

A civilização egípcia esboçou uma forma de registro escrito chamado de hieróglifo. A escrita cuneiforme foi o primeiro hieróglifo que posteriormente ganhou valor fonético. Antes de um sistema de escrita complexo se estruturar, a [ii]pictografia e a [iii]ideografia eram o modo de comunicação escrita. Os até então sinais, foram perdendo a associação direta com a realidade material, tornando-se simbólicos com representações fonéticas.

 

O povo egípcio, uma das principais civilizações da antiguidade têm presente em sua constituinte a religiosidade em primeiro plano. Desenvolveram a escrita hieroglífica e por serem a civilização socialmente e culturalmente mais abastada e estruturada de sua época, puderam desenvolver uma escrita também assim. No entanto, não foi a escrita o feito mais relevante dos egípcios. Esse povo assentado entre a África e o oriente médio teve na religião seu aspecto mais significativo. Sem as preces e cultos o mundo poderia ser destruído, a felicidade e a vida pós-morte estariam segundo os egípcios, comprometidas.

A religião, portanto, invadiu toda a vida egípcia, interpretando o universo, justificando sua organização social e política, determinando o papel de cada classe social e, orientando toda a produção artística deste povo. Proença (pág. 17)

Trago como relevância a civilização egípcia por sua religiosidade proeminente reconhecida em sua escrita. A palavra hieros significa sagrado e, glyphein significa gravar, ou seja, a escrita hieroglífica é uma escrita sagrada. Configura-se de tal modo que apresenta na escrita a possibilidade de conexão com o sagrado. Jung considerava que religiões são fartas em imagens simbólicas que podem provocar conexões profundas entre o ego e as profundezas da vida psíquica. Com esse pensamento pode-se entender a escrita egípcia como uma facilitadora desta conexão.

Todos devem lembrar que os faraós tinham seus rostos esculpidos em pedra e seus nomes cravados em baixo relevo nas paredes. A ideia era que seus nomes ficassem registrados para a eternidade. Parece-me que conseguiram. Sua escrita diz muito e com tamanha profundidade que nós, povo civilizado, só conseguimos deslumbrar essa grandeza simbólica com certa distância. Para justificar rapidamente, todo grande filósofo clássico teve sua passagem pelo Egito. A cerca de cinco mil anos o egípcio escrevia profundamente com poucas “palavras”, e hoje, século XXI, parece que escrevemos enciclopédias rasas.

No vocábulo latino religere encontramos a palavra religião. Ligar novamente a algo superior e anterior a nossa existência e, que por dedução simples, entendemos que já fomos ligados em algum momento. 

Encaro a religião como uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, ideias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados. JUNG (OC XI/1 § 8)

O adoecimento parece estar sempre ligado à perda da ligação com o sagrado que as religiões possibilitam de forma eficaz. Em oposição, a cura está diretamente ligada a religação ao sagrado que se dá por atitudes religiosas. Jung deixa claro que isso absolutamente não está ligado a um credo particular ou a tornar-se membro de qualquer igreja que seja.

Os ritos religiosos contêm cargas intensas de energia que geram catarse. Essas catarses são capazes de religar-nos ao inconsciente. Esses fenômenos, quando vividos são incapazes de serem descritos em sua totalidade. Aqui está a definição de segredo. Segredo é aquilo que não se consegue descrever. Podemos apenas falar de periferias do núcleo [iv]numinoso que nos afetou. São emoções impossíveis de serem relatadas que traduzem o termo mistério. A melhor forma de expressão destas emoções são os símbolos. Com isso, a escrita egípcia atinge o mistério, pois é rica em símbolos.

A imagem do sagrado no ser humano é o [v]Self. Nele é projetado o divino. O Self é o principio ordenador, regulador e reflete o potencial total da personalidade. Ao nos aproximarmos do Self unimos o ego ao inconsciente, podendo assim, atingir a função de transcendência. A ideia central é a de que o ato de escrever possibilita a transcendência.

Todo esse sistema sagralizado pressupõe ritos para encontrar Deus em nos. O rito é um conjunto de ações que conecta o indivíduo ao divino ou a uma divindade. Uma forma dos sistemas religiosos se organizarem é o uso de um livro sagrado que foi escrito sobre inspiração divina. Coloque atenção para o poder que tem sobre nós aquilo que está escrito. Podemos chegar, mesmo que intuitivamente na conclusão de que a edição do livro com códigos Internacionais de doenças-CID, pode ter justificado o surgimento da inúmera quantidade de medicações alopáticas. Com essas referencias, o ser humano carrega e alimenta a ideia da existência de documentos ou livros escritos que ainda não foram encontrados que contenham as respostas para o mistério da Vida. A Tábua Smaragdina que tem sugestão de origem Abraãnica é um exemplo de escrita com conteúdo sagrado e misterioso.

Ler um livro sagrado é ler sobre e em busca de respostas para os mistérios da vida. Enquanto nos distrairmos tentando encontrar provas da existência de Deus, nos distanciamos do efeito de Deus em nós. Apenas a rendição á algo superior é capaz de promover uma verdadeira e profunda conexão entre nós e o divino. Buscar provas é um modo de não aceitação da existência de algo superior ao nosso ego. Quando Sidarta iluminou-se e transcendeu para o Buda, assim como quando Jesus transcendeu para o Cristo o que estava em evidência não era exatamente no que eles estavam se ligando mas sim, a sua submissão, no sentido mais amplo desta palavra, se ligarem com algo eterno. A existência documental não impede ou potencializa a manifestações arquetípicas. Quando lemos um texto sagrado, o arquetípico que se projeta é proporcionalmente o mesmo arquétipo que é projetado quando você escreve seus próprios mistérios.

 

Jung estimulava seus pacientes a desenharem ou escreverem seus sonhos, ampliando o conteúdo onírico. Escrever ajuda a organizar os pensamentos. Os sonhos, outrora, foram considerados linguagem para comunicação do homem com o reino divino. Eram mensagens vindas de outro mundo que deveriam ser cumpridas. Essa obediência aponta o tamanho do vínculo com o divino que está cada dia mais frágil na contemporaneidade. Tendo em vista que só damos ouvidos e obedecemos com o que nos vinculamos, nossa conduta está cada vez mais egoísta e egocêntrica. O ego não aceita de bom e passivo grado ter seus desejos desconsiderados, cortando assim, os laços com seu mundo interno.

Todo evento natural, que por essência não é de domínio do homem, coloca-o num estado de passividade e inferioridade, gerando desconforto ao ego. Na tentativa de explicar essas forças da natureza, o homem chega à ideia da existência de um ser superior e anterior a ele. Este ser está por trás e explica o maremoto ou o furacão ou mesmo uma emoção dominante. Para comunicar-se com essas forças supremas e manter uma relação amistosa, o homem criou os mitos e fez uso de rituais. É neste momento que aceita sua inferioridade perante essas forças. Porém, a partir do renascimento, o pensamento antropológico passa a ser dominante e esse mesmo homem escolhe no que e como quer se relacionar com os deuses.

Com esse movimento, cria-se o desvinculo com os deuses, suprema força anterior e superior, e consequentemente a não ritualização da própria vida. Religiosidade e emoções como ira, tristeza, alegria e até o amor deixam de ter referencial divino e são sufocados. Ganham explicações rasas, superficiais, limitadas e polarizadas na racionalidade antropomórfica. Com essa superficialidade, o ser humano perde o potencial de organização do mundo, porque deixou para trás os deuses que carregam na sua existência todas as respostas para as percepções do mundo externo e os anseios do mundo interno. A resposta objetiva e determinante para as perguntas sobre a existência do homem, não são mais respondidas com profundidade.

Em toda sua história o homem soube que os deuses se manifestam revelando os mistérios da vida. Para atingir esse conteúdo e ampliar a consciência rumo à individuação, se faz necessário disposição humana para comunicação com o mundo interno. Escrever é um possível caminho para o mergulho no mundo interno. A escrita eleva a consciência e diminui as tensões existentes resultadas de vivencias desprazerosas. Ao sacralizar o vivido, revivendo e despotencializando travas psíquicas durante a escrita, os deuses que se transformaram doenças, ganham novamente espaço na vida do indivíduo. Jung em seu livro autobiográfico deixa claro o poder da escrita não só na vida psíquica, mas também sobre o corpo. Relata o potencial criativo e autônomo que ganha o texto por se tratar do confronto com o destino.

 

E por necessidade que escrevo minhas primeiras lembranças e um só dia de abstenção já me causa mal-estar físico. Assim que recomeço ele desaparece e meu espirito retorna à lucidez.

JUNG (Memória, sonhos e reflexões).

 

Escrever é arquetípico. Não se trata apenas de uma técnica catártica onde “coloca-se pra fora” o que está sentindo. Nossas experiências vividas devem ser encaradas e transformadas numa hierofania. Todas as vezes que Jung se sentia fragilizado quando ainda criança, escrevia em pequenos rolinhos de papel com um idioma secreto (criado por ele). Posteriormente as mensagens eram colocadas junto ao homenzinho entalhado em madeira por ele mesmo que ficava escondido no sótão de sua casa. Devemos aproveitar o exemplo de Jung e resgatarmos a conexão com o sagrado através da escrita, no caso secreta. Na civilização egípcia dominar a escrita é o mesmo que ter acesso direto com os deuses. Trata-se de emprestar-se aos deuses para que se manifestem, trata-se de sacralizar a vida, de escrever hieroglificamente. Ao escrever sobre experiências sacralizando-as, estamos confrontando os polos da vida externa com o mundo interno. A resultante é a transcendência, caminho para a individuação. A escrita expressiva estudada por Pennebaker, pioneiro neste estudo, é um exemplo de instrumento que nos religa com conhecimentos que temos, mas esquecemos. Com sabedorias coletivas que foram transmitidas através da evolução humana que quando propositadas, meditadas e acionadas tem o poder de gerar sentindo para a vida vazia e sem significado daquele que desviou o caminho.

 

WILLIAN JOSÉ DA SILVA, Analista Junguiano em formação do IJEP. Professor no curso de Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP. Arteterapeuta, Arte Educador e Artista Plástico. [email protected]

Referencias:

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Rio de Janeiro. Ed. Vozes. 1984

_________________. A prática da Psicoterapia. Volume. VXI/1.  12ª edição. Rio de Janeiro. Editora Vozes. 2009.

_________________. O Espirito na Arte e na Ciência. Volume. VX.  5ª edição. Rio de Janeiro. Editora Vozes. 2009.

_________________.  Memória Sonhos e reflexões. São Paulo. Editora Círculo do livro. 1963.

PENNBAKER, James W. Abra seu coração - O poder de cura através da expressão das emoções. São Paulo. Editora Gente. 2006.

PROENÇA, Graça. História da Arte. 8ª edição. São Paulo. Editora Ática. 1997.

SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. Petrópoles. Editora Vozes. 2015.

STEIN, Murrey. Jung o Mapa da Alma. Editora Cultrix. São Paulo. 2006.

 

[i] A primeira foi o desenho

[ii] É um símbolo que representa um objeto ou conceito por meio de desenhos

[iii] É um símbolo gráfico utilizado para representar uma palavra ou conceito abstrato.

[iv] Numinoso deriva do latim numem e qualifica algo como sagrado e divino.

[v] Imago-Dei – Imagem de Deus


Willian Silva - 03/03/2020