A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA QUARENTENA

A violência contra a mulher na quarentena Psicologia Analítica

O isolamento social tem provocado o encontro de duas graves pandemias: a violência doméstica contra a mulher e o COVID-19. Segundo um levantamento, feito pelo Instituto Maria da Penha, a violência doméstica teve um aumento de até 50% durante o confinamento.

Infelizmente, essa é uma pandemia crônica que já existia muito antes do COVID-19 e do isolamento. O que o confinamento tem proporcionado é uma escalada ainda maior dessa violência. Os números continuam sendo assustadores. Um estudo da Small Arms Survey, entidade que trabalha em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU) e que estuda a violência em escala mundial, indica que, todo ano, em média, 66.000 (sessenta e seis mil) mulheres são mortas violentamente ao redor do mundo, vítimas de feminicídio. Dados divulgados pela ONU, indicam que, só em 2017, tivemos, no Brasil, aproximadamente, 4.600 casos de feminicídio. Ou seja, os números apontam para algo entre 12 e 13 mulheres sendo mortas todos os dias no Brasil, vítimas de feminicídio. No nosso país, a taxa de feminicídio é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo.

Valéria Fernandes, promotora de Justiça do Estado de São Paulo e especializada em gênero e enfrentamento à violência contra a mulher, já analisou mais de 1.000 casos de feminicídio. Fernandes aponta que há um padrão nestes crimes. O perfil do autor do feminicídio é de um homem, muitas vezes, com baixa autoestima e que comete o crime por um sentimento de ciúmes e posse. Ademais, acrescenta mais 2 (dois) pontos importantes: que (i) o  homem mata a mulher por causa de alguma postura adotada por ela que o faz sentir desafiado e desautorizado  e (ii) esses crimes possuem um padrão de golpes direcionado a algum aspecto feminino da mulher, como, por exemplo, seios e ventre.

Ao avaliarmos esses dados e números preocupantes, surgem algumas perguntas inevitáveis como: o que estaria por trás destes crimes violentos? Quais os padrões arquetípicos envolvidos? Quais os valores envolvidos nesta configuração?

Quando lemos os relatórios da ONU e informações sobre esses crimes, percebemos formas de violência que, geralmente, envolvem a imposição de um sofrimento adicional para as mulheres, tais como a violência sexual, o cárcere privado, o emprego de tortura, o uso de meio cruel ou degradante, a mutilação ou desfiguração das partes do corpo associadas à feminilidade e ao feminino (rosto, seios, ventre e órgãos sexuais).

Para tentar esclarecer e entender, mesmo que inicialmente, as razões por trás da violência contra o feminino, vamos avaliar alguns conceitos relevantes da Psicologia Analítica. Em suma, o escopo deste artigo é entender como a Psicologia Junguiana pode ajudar a analisar, identificar e explicar como o complexo de inferioridade masculino pode ser um importante gatilho que contribui para a violência contra a mulher ou contra toda a forma de feminino, quer apareçam nas mulheres, nos homens, nas instituições, entre outros. De toda forma, antes de avançarmos, é importante diferenciar masculino de homem e feminino de mulher. Os exemplos citados podem levar a conclusão de que masculino é igual a homem. E não necessariamente é o que se aplica. Aqui vamos tratar da imagem histórica do que é chamado masculino e é denominado inferior. Ou seja, vamos nos referir aos seus aspectos sombrios, evitando caracterizar como se todo homem fosse um homem genérico, ou seja, como se fosse uma unidade.

No que se refere ao complexo de inferioridade, devemos primeiro entender o que seria o complexo. Jung dizia que complexos são aspectos parciais da psique dissociados e que, de fato, nós não temos complexos, são os complexos que nos têm. O complexo é uma estrutura cuja ativação independe do nosso ego e do nosso consciente. A compulsão presente no complexo pode levar o indivíduo a se sentir completamente impotente diante da vida emocional. O sujeito passa a ser dominado repentinamente e por motivações incontroláveis. Segundo Jung, temos uma tendência de querer ocultar ou considerar irreal o que nos molesta. Por mais que tentemos evitar os complexos, ocultá-los ou considerá-los banais, os complexos estão ativos, presentes na nossa vida e podem tomar conta do nosso consciente.

No nosso cenário atual, podemos dizer que há um campo propício para esse complexo se manifestar no homem e não apenas no homem literal.

Vamos aos fatos. Apesar de estar ainda longe do ideal e de ser algo equânime, as mulheres começaram a ocupar uma posição um pouco mais similar em relação ao homem no âmbito social, financeiro, político, e profissional, entre outros. Por conta dessa mudança e tentativa de reequilíbrio social, o homem moderno tem tido muita dificuldade de lidar com uma mulher que também tem voz, opinião e poder decisório. É neste momento que o complexo, que configura os aspectos que estavam historicamente associados com a persona do “homem”, pode produzir efeitos fazendo com que surjam conteúdos (sentimentos, ideias, etc.) que podem ser vividos de diversas maneiras pela consciência do sujeito. A atitude na consciência é o fator fundamental.

Este homem começa a se sentir inferiorizado e sem o poder que ele detinha culturalmente por milênios. Sem essa autoridade que lhe foi outorgada pela sociedade e sem o controle que o homem sempre deteve sobre a mulher, ele começa a recorrer a única ferramenta que ele ainda é superior ao feminino, ou seja, a força física. Por conta disso, as agressões e crimes contra o feminino tem aumentado de forma alarmante.

É importante ressaltar que todas as informações, dados e estatísticas obtidos para a elaboração deste artigo, tanto através destes crimes como pelos depoimentos dos autores destes crimes, corroboram com a tese de que a violência contra a mulher é praticada porque o homem se sentiu desafiado, inferiorizado ou desautorizado pela postura adotada pela mulher.

Na verdade, o uso da força poderia ser, em muitos casos, a única maneira, hoje em dia, em que o homem não se sentiria desafiado ou inferiorizado em relação ao feminino. Através da força e da violência contra o feminino, o homem reafirma seu masculino e mantém sua superioridade diante da mulher, que supostamente estaria justificada, uma vez que o masculino tem prevalecido desde o início do patriarcado, ou seja, impresso no inconsciente individual e principalmente no inconsciente coletivo (do homem e de mulheres também), em nossa cultura e por milênios.

É crucial apontar que (i) 96% dos crimes contra a mulher são praticados por parceiros ou ex-parceiros, (ii) nessas relações, há um sentimento de posse e controle, (iii) os homens que praticam o feminicídio tem baixa autoestima e (iv) os motivos mais comuns, indicados pelos autores destes crimes, estão relacionados ao fato de se sentirem desautorizados e desafiados pela mulher. Portanto, dentro dessas premissas, podemos afirmar que, em tese, há uma reação do homem contra a mulher porque ele deseja manter sua autoridade, o controle e sua suposta superioridade. Autoridade essa que as mulheres estão começando, nas últimas décadas, a questionar e desafiar. E esse desafio da mulher vai contra um poder e domínio dos homens que, culturalmente, foi imposto, às mulheres, por mais de 6.000 anos. Esse poder envolvia, prima facie, todas as áreas de sociabilização da mulher.

Diante dessa perda de poder e pela autoridade do homem estar sendo questionada, qual a ferramenta que este homem pode utilizar para manter esse controle e poder? Se a mulher atual, em muitos cenários, já não depende mais financeiramente, intelectualmente e socialmente do homem, o que esse homem pode fazer para manter um poder e domínio que sempre prevaleceram sobre a mulher? A resposta mais provável para essa pergunta só pode ser encontrada na força física do homem.

É importante ratificar que nossa sociedade continua contaminada por essa cultura patriarcal de milênios que influencia o inconsciente individual e coletivo dos homens e, também, das mulheres.

A força física permite que o homem possa estar no controle e, com isso, manter algum tipo de domínio sobre a mulher. É onde residiria a forma mais simples e imediata, encontrada e conhecida pelo homem, para que ele possa tentar compensar essa sensação de inferioridade.

Em cenários como os expostos acima, ou seja, em que o homem se sente inferior, desautorizado ou desafiado, o complexo de inferioridade pode tomar conta do ego e da nossa consciência.

O que nós propomos, como início de uma mudança, que é urgente, é iniciarmos o nosso processo de autoconhecimento o quanto antes. Conhecendo-se melhor, por exemplo, através de um processo terapêutico, o homem pode aprender a lidar melhor com sua autoconfiança e com seus medos. Em um processo de terapia, esse homem pode ter a oportunidade de começar a analisar e conhecer seus complexos e os conteúdos do seu inconsciente.

A autonomia e inconsciência dos nossos complexos nos causam dores e sofrimentos terríveis. Portanto, a solução proposta por JUNG é a de aproximar a consciência do inconsciente acolhendo os complexos e ouvindo-os simbolicamente. Com isso, pode-se produzir uma transformação tanto na consciência como na forma de manifestação dos complexos inconscientes. Como consequência, novas ações e comportamentos conscientes poderão surgir.

Anderson A. Fernandes, analista em formação pelo IJEP - (11) 99119-1221 - andersonantonio@me.com     

 

Referências:

 

  • SÃO PAULO. Ministério Público do Estado de São Paulo. Raio X do Feminicídio em São Paulo: é possível evitar a morte. FERNANDES, Valéria Diez Scarance (Org.). Março de 2016 a Março de 2017. 
  • SMALL ARMS SURVEY. Femicide: A Global Problem - Research Note 14. Disponível em: <http://www.smallarmssurvey.org/about-us/highlights/highlight-rn14.html>. Acesso em: 23 jun. 2019.
  • UNODC - United Nations Office on Drugs and Crime. Global study on homicide L2011. Viena, Áustria, 2011. 
  • JUNG, Carl G. A natureza da Psique. A Dinâmica do Inconsciente. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2019 .
  • ONU - ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. ONU: Taxa de feminicídios no Brasil é quinta maior do mundo; diretrizes nacionais buscam solução. 2016. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/onu-feminicidio-brasil-quinto-maior-mundo-diretrizes-nacionais-buscam-solucao/>.


Anderson A. Fernandes - 02/12/2020