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A WIRED Psicologia Junguiana

Dando sequência aos quatro artigos planejados, inicio este terceiro artigo, como no anterior, fazendo uma ressalva: para quem pretende assistir o anime, é melhor que o faça antes de ler as reflexões seguintes. Este artigo visa realizar uma exploração psicológica do conceito de “wired,” que é exposto no anime, conceito este que foi o ponto de partida para analisar esse anime em uma perspectiva psicológica. À primeira vista, wired seria apenas o que chamaríamos hoje em dia de internet, inclusive seu próprio nome nos remete a algo conectado com fio, forma que tinha a internet no geral antes da invenção do Wi-Fi (o anime tem origem no ano de 1998). Porém, isso rapidamente toma um rumo muito maior que este quando, logo no primeiro episódio, uma garota que cometeu suicídio consegue usar a wired para se comunicar com os vivos, mandando e-mails para suas colegas de classe. Apenas Lain, a protagonista da história, responde e, em suas conversas, esta garota morta comenta que deus está na wired.

No quinto episódio do anime, uma entidade desconhecida, que toma a forma do pai de Lain, aparece para ela em uma cena aparentemente isolada da história como um todo. Esta entidade proclama um pequeno discurso sobre este conceito, que consiste em dizer que ver a wired como uma camada superior ao mundo material não é uma ideia absurda e, se levarmos isto em consideração, o mundo material seria apenas um holograma das informações que estão nela. Desta forma, o corpo humano seria apenas a confirmação dos sinais elétricos que essas informações produzem. Este conceito de mundo superior pode ser encontrado em vários lugares, aparece em muitas religiões e, inclusive, na filosofia. Quando estudamos o mito da caverna de Platão, podemos encarar o mundo das ideias exatamente desta mesma forma: um universo de ideias perfeitas, (forma que a wired também é descrita em alguns episódios) e que tudo o que existe no universo é apenas um reflexo desde outro mundo, como as sombras de objetos reais que passam na parede de uma caverna. É interessante perceber que esta entidade aponta que a wired pode não ser feita apenas de eletricidade e, se ela for, será que o “outro mundo” surgiu junto a ela? Inclusive, aponta que pode não haver um deus no mundo concreto, mas certamente existe um, ou algo semelhante, nela.

A partir destas considerações não é difícil imaginar o que vem representar, dentro do anime, o conceito de virtual que foi discutido no artigo anterior: tudo o que não possua uma realidade concreta se encontra ali. Isso passa primeiro pelo conceito comum de virtual como algo relacionado a computadores, mas vai além disso: todo o âmbito que podemos chamar de espiritual faz parte desta mesma entidade. É interessante como no anime fica muito vago o que seria o outro mundo, como se quisesse que os telespectadores colocassem nisso seus próprios conceitos do que poderia ser esse mundo. Logo, todo tipo de local fora do mundo concreto se encaixaria como outro mundo. Outro aspecto de suma importância é que aparentemente a internet, como ideia coletiva, está substituindo todo folclore, religião e mitologia, quando se trata da virtualidade em um mundo onde os símbolos religiosos clássicos perdem seu poder; a crença humana parece se focar na tecnologia como um novo local sagrado. De certa forma, o anime retrata isso quando dá a wired a categoria de “outro mundo” e suspeita que esse mundo possa não existir antes dela.

Do ponto de vista junguiano, quando nos referimos a “outros mundos”, ou questões semelhantes, como a crença nos espíritos, nas figuras divinas, ou até em OVNIS e alienígenas, estamos falando em projeções ou experiências do inconsciente coletivo: quase como um outro mundo de memórias passadas que vivem dentro de nós, e “formatam” muito de nossas relações com o mundo,  tanto externo quanto interno. Porém, por possuírem grande força numinosa, não conseguimos sequer reconhecer esses elementos como humanos, o que torna mais difícil identificá-los como parte de nós mesmos. Então, criamos os recipientes, como os descritos acima, para as projeções, de forma que podemos vê-las como algo separado de nós e como não-humanas.

Durante seus experimentos, Lain descobre que a wired está sobrepondo o mundo concreto. Descobre, também, uma experiência realizada com crianças sobre uma energia chamada “psi”, que seriam ondas criadas pela mente humana, que teriam capacidade de formar uma rede entre todos, bem como produzir efeitos para-psicológicos.

O nono episódio pode ser um dos mais estranhos. Nele há muitas cenas soltas, como se fossem um documentário, apresentando pesquisas um tanto obscuras, porém reais, de autores que estudaram sobre comunicações inconscientes, acesso ao “cosmos” por meio de experiências psíquicas, armazenamento de informações e sobre mídias no geral. Muitos destes pesquisadores influenciaram os conceitos modernos de internet e hipertexto. Por fim, apresentam a ressonância Schuman, que é uma freqüência de rádio que existe na Terra, cujo real efeito na mente humana ninguém conhece, mas alguns autores discutem que seria como a consciência da própria Terra e, assim, cada humano seria como um neurônio de uma grande rede neuronal. Quando atingirmos uma quantidade de seres humanos adequadas, essa rede irá se ativar e a consciência da Terra irá emergir.

No décimo episódio, supostamente o grupo chamado “Knights”, que influenciam grande parte da história principal até este ponto, são apresentados como os descendentes dos cavaleiros templários que, antes mesmo de existir a wired, estavam conectados de outra forma, a qual chamam de inconsciente coletivo. É interessante como o uso da expressão “inconsciente coletivo” no anime se aproxima do sentido junguiano. Primeiro, pelas reflexões sobre a experiência de “outro mundo” acima, e também por duas características apresentadas pelo anime: a de que ele é uma forma de conectar os humanos e de que, de certa maneira, armazena a memória da raça humana, características que se assemelham àquelas da teoria, mesmo que não funcione de forma mágica como no anime. Esta camada possui uma capacidade de memória racial, como uma filogênese, e não pode ser negado que exista um nível de comunicação inconsciente entre os humanos.

Durante todo o anime a ideia de se conectar com os outros está sempre presente. No começo, a norma é apresentar que todos estão naturalmente conectados de alguma forma, porém alguns personagens apresentam uma opinião oposta a isto, inclusive Eiji, o autoproclamado deus da wired, argumenta que as pessoas uma vez estiveram conectadas, mas não estão mais, e sua missão é a de as conectar mais uma vez. De certa forma, esta percepção combina com o já apresentado, pois quando a vida religiosa humana era mais intensa, estávamos mais próximos do inconsciente coletivo e, portanto, do legado de nossa raça, o que nos aproximávamos mais uns dos outros, tanto na camada consciente, quanto na inconsciente. Mas nos tempos modernos essa conexão foi desfeita. Porém, se a internet realmente tomar o lugar do “outro mundo” religioso, e de todos os símbolos que ele continha, sendo então um foco da fé humana, poderá criar uma forma de todos se conectarem de novo, o que de algum modo é um trocadilho com o nome escolhido para esta rede, que remete à conexão.

Contudo, a história do anime é de que a wired esteja invadindo e, de certa maneira, suplantando o mundo concreto. Se encararmos a wired como análoga ao inconsciente coletivo, como estamos fazendo até aqui, e o mundo concreto junto ao corpo físico  representando a consciência, poderíamos imaginar que essa suplantação, que também é um dos objetivos finais de Eiji, seja que apenas o mundo virtual exista. Isto levaria a uma desconexão com o mundo concreto ou, em termos psicológicos, a uma psicose, em que a consciência individual é reduzida, ou até para de existir, em favor de um inconsciente muito maior, o que mostra por si que este não é um objetivo saudável, revelando a validade do corpo. Quando Jung apresenta a experiência de mergulhar profundamente no inconsciente coletivo, ele diz que, para além de nos sentirmos conectados aos outros, a barreira eu-outro virtualmente se dissipa e, de certa forma, nos sentimos um com toda a nossa raça, o que se assemelha com o objetivo final da wired, assim como a própria teoria que é levantada sobre a ressonância Schuman apresentada no anime. Esta última também passa a se tornar parte integrante da wired como dados, o que nos faz indagar se no caso dos objetivos de Eiji de suplantar o concreto tivessem êxito, poderíamos ainda ter alguma individualidade? E mais, poderíamos ainda nos considerar humanos?

 

Alex Fernandes Nunes

Membro analista em formação pelo IJEP

Referências:

JUNG, C. G. O conceito de inconsciente coletivo. In: ______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

______ O conteúdo da psicose. In: ______ A psicogênese das doenças mentais. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.


Alex Fernandes Nunes - 15/04/2020