ALMA, PSIQUE E CÉREBRO UM VISLUMBRE DE INTEGRAÇÃO ENTRE A PSICOLOGIA ANALÍTICA DE C.G. JUNG E AS NEUROCIÊNCIAS

ALMA, PSIQUE E CÉREBRO Um vislumbre de integração entre a Psicologia Analítica de C.G. Jung e as Neurociências psicologia analítica

Sabemos hoje, graças aos estudos das chamadas neurociências (ciências que estudam o sistema nervoso abordando sua estrutura, funcionamento e desenvolvimento), que nos primeiros três anos de vida ocorre uma aceleração no crescimento das conexões neurais, seguidos de sua redução ou poda (pruning, em inglês) na adolescência. Desses estudos compreendemos a importância do cuidado afetivo nos primeiros três anos de vida, uma vez que a expansão neuronal é catalisada pelo relacionamento com os pais ou cuidadores; e também entendemos porque os adolescentescom tamanha plasticidade cerebral são capazes de grande desenvolvimento social, emocional e intelectual, mas também estejam mais propensos e vulneráveis à drogadição e rachas de carros (Wilkinson, 2017).

Os estudos de ressonância magnética funcional demonstraram que tratamentos psicoterapêuticos bem sucedidos mudam o funcionamento cerebral para melhor, afetando os lobos pré-frontais. Solmset (2002) assinala que o córtex límbico pré-frontal conserva todas as capacidades plásticas de desenvolvimento adquiridos precocemente durante toda a vida, sendo possíveis assim as mudanças produzidas pelo processo psicoterapêutico (Solmset,2002 como citado em Wilkinson,2017). Eric Kandel, renomado neurocientista, prêmio Nobel de medicina em 2000 por seus estudos sobre a memória, trouxe contribuições relevantes nesta área, esclarecendo que os mecanismos neurobiológicos de retenção de fatos recentes e antigos são distintos. Nesses estudos:

 

A memória de curto prazo envolve um sinal da célula que muda a eficiência do funcionamento das sinapses. Não há mudança anatômica. Mas a memória de longo prazo, que geralmente envolve a repetição, o sinal entra no núcleo e estimula a expressão dos genes, o que leva ao surgimento de proteínas que dão origem a novas conexões sinápticas e o surgimento dessas novas conexões sinápticas é a memória estável e a que se mantém (Kandel, 2011, p.04).

 

Assim, as neurociências, como afirma Kandel (2011), como nova ciência da mente representa o maior avanço das ciências biológicas desde o sequenciamento do DNA humano ocorrido a partir da década de 1950.Mas para entendermos o significado dessa afirmação, vejamos num breve apanhado histórico, como e de onde surgiram as neurociências e o papel que elas ocupam no pensamento científico contemporâneo.

Historicamente, a tradição médica desde Hipócrates (460 A.C. - 370 A.C), está ancorada na ideia de que todos os processos mentais e psicológicos, normais ou patológicos advêm do cérebro e aí devem ser estudados e investigados a fim de se compreender o comportamento humano. Para Hipócrates:

De nenhum lugar senão do cérebro vêm as alegrias, as delícias, o riso e as diversões, e também as tristezas, os desânimos, o desalento e as lamentações;e pelo mesmo órgão tornamo-nos loucos e delirantes, e os medos e terrores nos assolam. Todas estas coisas provêm do cérebro quando ele não está sadio. (Hipócrates, como citado em Frances,2016, p. 66)

O médico grego, na figura de Hipócrates, abandona a relação mítica do homem grego com seus deuses e atrela aos processos biológicos todas as explicações das alegrias e dos padecimentos humanos. Ele desenvolve seu famoso método– o método hipocrático –, baseado na observação clínica dos sinais e sintomas, formulando-se uma síndrome clínica e depois traçandoo prognóstico e o tratamento pertinentes ao caso.Osensinamentos de Hipócrates foramseguidos e ampliados por Galeno (130 D.C. – 200 D.C.) que aprofundou as concepções humorais daquele médico e desenvolveu a ideia de que as personalidades eram formadas pelos desequilíbrios dos humores (sangue, bile negra e amarela, fleuma). Estes ensinamentos influenciaram sobremaneiraa medicina até o século XIX, quando a ciência moderna começa a decifrar o papel das células nas enfermidades (Frances,2016).

No século XX houve um florescimento das ciências naturais como um todo, em especial das neurobiológicas resultando num aprofundamento nas áreas de neuroanatomia, neurofisiologia e depois neuroimagem funcional e anatômica. Claro, como observa Varela (1994)que as neurociências estão interligadas a outras áreas do conhecimento que também se desenvolveram, tais como: psicologia cognitiva, epistemologia, linguística e a inteligência artificial. No entanto, os estudos sobre funcionamento cerebral se aprofundaram sobremaneira, dando origem, na década de 1970, ao que hoje conhecemos como Neurociências.

A principal alavancagem nesta área do conhecimento ocorre em 1990 quando o presidente americano George W. Bush proclamou aquela década como a “década do cérebro”, estimulando e injetando vultosas quantias em pesquisas neurobiológicas, ensejando, entre outras coisas, a compreensão e a cura de doenças degenerativas cerebrais como a demência de Alzheimer e a doença de Parkinson. Desde então o conhecimento humano das estruturas e funcionamento cerebral expandiu-se de forma exponencial, assim como os estudos em genética,principalmente com o projeto genoma humano, iniciado na década de 50, que possibilitou o escaneamento de todos os genes da espécie humana.

Na contemporaneidade assistimos a um processo de certa deificação do cérebro. Há um fascínio por este “órgão” que possui mais de 100 bilhões de neurônios cada um conectado a outros mil, totalizando 100 trilhões de conexões sinápticas. Por segundo, em média 1000 sinais cruzam cada uma destas sinapses; cada sinal é modulado por 1500 proteínas e mediado por um ou mais entre dezenas de neurotransmissores (Frances,2016).É realmente instigante e desafiador,mas será que desvendar seu funcionamento orgânico trará respostas a todas as perguntas que sempre inquietaram filósofos e pensadores de todos os tempos?  Será que somos ou passaremos a ser nosso cérebro? Como já denunciava o filósofo Edmund Husserl: “(...) na urgência de nossa vida – ouvimos – esta ciência nada nos tem a dizer. Ela exclui de um modo principal justamente as questões que, para os homens do nosso tempo desafortunado (...) são questões prementes: as questões acerca do sentido ou ausência de sentido de toda existência humana” (Husserl, 1954/2011, p. 03).

Mesmo sendo inconteste o avanço científico produzido neste período pelas neurociências e suas inúmeras contribuições à medicina (em especial à neurologia e psiquiatria) e à psicologia cognitiva, ainda subjaz a essas relevantes contribuições um lado sombrio e de caráter unilateral, denominado pelo filósofo Markus Gabriel como “neurocentrismo”. Para o filósofo alemão o “neurocentrismo” é a tendência moderna de tornar as neurociências a disciplina-base da pesquisa da natureza humana, pois tem se acreditado que essa ciência pode localizar e identificar o pensamento, a consciência, o eu e, até mesmo o espírito humano no cérebro físico (Gabriel, 2018). Assim, o “neurocentrismo”, como analisa Gabriel (2018), seria algo como chamar o cérebro de Eu, pois “caso se quisesse entender o sentido de “Eu”, “consciência”, ”si”, “vontade”, “liberdade” ou “espírito”, não se poderia pedir auxílio da filosofia da  religião ou do saudável senso comum, mas sim seria preciso examinar o cérebro com os métodos das neurociências” (Gabriel, 2018, p.18). Desse modo, não seriam o aumento da psicofarmacoterapia, a crença ingênua nas ciências naturais como “ciência da subjetividade” e a perda de sentido na razão, perniciosos desdobramentos do “neurocentrismo”?

Um representante crítico da Psiquiatria e Psicologia foi psiquiatra e psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), que esteve enredado na descoberta do inconsciente realizada por Sigmund Freud, depois desenvolvendo suas próprias concepções psicológicas, trazendo novas perspectivassobreo entendimento da psique humana e os transtornos mentais. Podemos dizer que ele nãoestava interessado estritamente no adoecimento per si, mas essencialmente no sentido que o adoecimento tinha para cada homem em particular, ou seja, interessava-lhe fundamentalmente a condição humana e a busca de sentido à vida. Jung, quando começou sua prática psiquiátrica no início do século XX, na clínica Burghölzli, em Zurique, olhava de forma crítica o materialismo a que estavam atrelados os tratamentos dos doentes mentais.

A psiquiatria nasceu no seio de um materialismo pernicioso e isto é compreensível. Há muito tempo ela vem privilegiando o órgão, o instrumento, em detrimento da função. A função se apresenta como apêndice do órgão e a psique como apêndice do cérebro. Assim, na moderna psiquiatria a psique ocupa um lugar bem pequeno (Jung,2013c, p.110).

Jung era frontalmente contra a ideia de a psique ser uma mera excreção do cérebro. Mesmo entendendo a existência de um paralelismo psicofísico (psique-cérebro), tinha em conta também, principalmenteno campo de atuação da psicoterapia, que era “na esfera crítica da interação do corpo e da alma, embora sua natureza específica escape inteiramente”, que temos, por assim dizer, “o campo da nossa consciência” (Jung, 2013b, p.28.). Os seusestudos empíricos e observações clínicas o afastavam do materialismo que embasava a prática clínica de sua época, pois Jung estava fundamentalmente interessado na alma humana, entendida como uma possibilidade de realização do si-mesmo, do daimon de cada humano como parte do unus mundus (conceito da idade média de uma realidade unificada de onde  tudo surge  e para  onde  tudo retorna).

As relações causais dos acontecimentos psíquicos entre si, que podemos observar a qualquer momento, contradizem o ponto de vista epifenomenológico que possui uma semelhança fatal com a concepção materialista segundo a qual a psique é uma secreção do cérebro, tal como a bílis, que é uma secreção do fígado(...). O fato psíquico merece ser considerado como um fenômeno em si, pois não há motivo nenhum para concebê-lo como um mero epifenômeno, embora esteja ligado à função cerebral, do mesmo modo como não se pode considerar a vida como um epifenômeno da química do carbono (JUNG, 2013b, p.17)

Do mesmo modo, alguns outros pesquisadores contemporâneos das áreas de psicologia,das neurociências e da filosofia da consciência como Husserl (1954/2012), Panksepp (1998),Wilkinson (2017), Knox (2004) e Gabriel (2018)tentam, de diferentes maneiras, jogar luz nesta interlocução das ciências naturais com as ciências humanascom vislumbres de compreender o cérebro, a psique e a alma em inter-relação e integração.Marcus Gabriel (2018), filósofo da consciência, partindo da crítica fenomenológica de Husserl, defende a ideia de que as neurociências não podem sequestrar do homem sua prerrogativa de criar-se a si mesmo como um ser espiritual.

Partindo dessa prerrogativa, Panksepp (1998), neurocientista e psicobiologista estoniano é assertivo neste sentido:“não vamos  poder entender o cérebro e a natureza da  consciência até que comecemos a tomar  mais  a sério a ideia dos  sentimentos e das  emoções como representações neuro-simbólicas, referenciadas no si-mesmo (Self), percebidas interiormente”(Panksepp, como citado por Wilkinson,2017).Margaret  Wilkinson, psicoterapeuta de orientação junguiana, é  da  opinião que, em resposta à experiência emocional precoce com os progenitores ou cuidadores substitutos, o si-mesmo e a mente em desenvolvimento surgem do cérebro,e essesa seu turno afetam o desenvolvimento do cérebro criando novas conexões neurais, assim comonas interações com parceiros e cônjuges ao longo da vida e, até mesmo na relação psicoterápica de transferência e  contratransferência (Wilkinson,2017).Ainda, Jean Knox (2004), analista junguiano, motivado em uma fundamentação “mais humana”, busca uma aproximação entre as explicações neurocognitivas modernas, como a neurociência cognitiva, a teoria do apego (attachment theory) e os principais construtos de Jung, tais como: complexos, Self (Selbest), arquétipos, inconsciente e seus mecanismos de compensação da consciência. Knox (2004)discorre como estes conceitos junguianos são comprovados e demonstrados por teorias neurocognitivas modernas, mas que alguns, como si-mesmo e arquétipos precisam ser reformulados principalmente, por que entende que estas estruturas não são inatas, mas sim estruturas a priori que sãoconstituídas no processo de desenvolvimento humano. Estes são alguns estudiosos que visam uma aproximação crítica das neurociências cognitivas à psicologia junguiana.

Saiz (2005) assinala que o cérebro seria uma estrutura cognitivaque corporifica um padrão de organização e a mente seria um processo de cognição que se identifica com o processo mesmo da vida (Saiz,2005). Stevens, Hogenson & Ramos (2003), estudiosos dos arquétipos como um padrão de organização, dizem que:

(...) a hipótese de arquétipo de Jung propõe um princípio responsável pela articulação dos princípios que governam os processos biológicos e psíquicos, e toda sua abordagem nos mostra que podem ser estudados sem destruir nossa tomada de consciência dos mistérios da vida(Stevens, Hogenson& Ramos, 2003,como citado em Wilkinson 2017, p. 73).

 

Embora a psique esteja ligada ao funcionamento cerebral assim como ao corpo como um todo, para Jung (2013a),ela é fonte e depositária de outras dimensões da condição humana, quais sejam: a espiritualidade (totalidade em conexão com tudo que existe, inclusive do homem consigo mesmo) , a vontade como busca de sentido de vida e do reconhecimento do mistério como algo inerente à vida. Ainda, Jung(2013a) entendea vida a partir de uma visão teleológica, onde os processos patológicos, assim como tudo que nos atravessa, de bom ou de ruim,apesar de possuir uma causa, possui fundamentalmente um sentido, uma direção que nos encaminha para algo, para uma realização de nossa natureza humana.

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Referências.

Entrevista com Eric Kandel (2011). Ideias do Milênio: Grande parte de nossa vida mental é inconsciente. Revista Consultor Jurídico. Recuperado em 19 de agosto de 2019 de https://www.conjur.com.br/2011-dez-23/ideias-milenio-eric-kandel-neurocientista-nobel-medicina

Frances, A.(2016) Voltando ao normal. Como o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida estão acabando com nossa sanidade e o que pode ser feito para retomarmos o controle. (1ª ed.) Rio de Janeiro: Versal Editores.

Gabriel, M.(2018) Eu não sou meu cérebro: filosofia do espírito para o século XXI. Petrópolis RJ; Vozes.

Husserl, E. (1954/2012). A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Jung, C.G. (2013a). A natureza da psique. (10ª ed.) Petrópolis. Vozes.

Jung, C,G. (2013b) A energia psíquica.(14 ª ed.), Petrópolis.R.J. Vozes.

Jung, C, G. (2013d). Psicogênese das doenças mentais. (6ª ed.) Petrópolis. R.J. Vozes.

Knox,J. (2004). Developmental aspects of analytical psychology: new perspectives from cognitive neuroscience and attachment theory.In J. Cambray(coord). Contemporary perspectives in Jungian analysis. (p. 56-82) N.Y.: Taylor& Francis e-Library.

Kandel, E.R. (2014). Princípios de neurociências. Porto Alegre: Artmed.

Saiz, M. E. &Amézaga, P. (2005). Psychoneuroscience and archetypes -building a dialog between analytical psychology and neuroscience.Psicologia USP, 16 (3), (p.95-117).São Paulo: Edusp.

Wilkinson, M. (2017) Volver a la mente. La relación mente-cérebro: una perspectiva clínica junguiana Barcelona, España:Editorial Eleftheria, S.L. Sitges


Luiz Humberto Carrijo Dos Santos - 03/03/2020