ALTERIDADE COMO SÍSTOLE E DIÁSTOLE: PENSANDO OS TEMPOS ATUAIS

ALTERIDADE COMO SÍSTOLE E DIÁSTOLE: PENSANDO OS TEMPOS ATUAIS alteridade

 

A vida é mutirão de todos,

Por todos remexida e temperada.

Guimarães Rosa (1986, p. 406)

 

Ninguém se constitui sozinho, em isolamento social. Por isso, a alteridade requer atenção, principalmente, nos dias atuais. Várias áreas do conhecimento e estudiosos se debruçam sobre o conceito. A Sociologia, a Antropologia e a Psicologia Social enxergaram a alteridade como um “construto relacionado à necessidade dos indivíduos de viverem em sociedade e de se relacionarem uns com os outros, sob um aspecto cultural” (MONTAIGNE, 2001). O conceito, portanto, reinaugura constantemente a percepção da diversidade e demonstra a importância da identificação do eu com o outro por suas semelhanças, mas especialmente por suas diferenças.

Para Frayze-Pereira (1994), a alteridade se refere “a tudo o que não é o eu”. Freire (2002) nos fala do lugar do outro na constituição da subjetividade, no sentido de “termos de ser para o outro”. Na Sociologia, “a alteridade é o reconhecimento da diferença” (BRANDÃO, 1986). No entanto, para fins deste artigo, a alteridade é vista especialmente “como coniunctio, ou seja, como um processo de integração dos opostos, que é a base do processo terapêutico analítico” (EDINGER,1990, p.39).

Os tempos emergenciais clamam pelo exercício de alteridade como um movimento contínuo de diferenciação do eu em relação ao outro e, ao mesmo tempo, de integração desse mesmo eu em relação à coletividade. Acredita-se que, além de proporcionar uma perspectiva de integração de opostos, essa percepção permita um olhar crítico sobre a unilateralidade.

Para pensar esse movimento de aproximação e afastamento da alteridade, este artigo propõe uma analogia com o movimento cardíaco. O afastamento, análogo à dilatação do coração ou diástole, refere-se ao processo de diferenciação entre o eu e o outro. E a aproximação refere-se à sístole, a contração do músculo cardíaco, ou seja, a integração do eu com a coletividade. O processo natural que envolve essa constante alternância é o que torna possível o funcionamento da circulação e, por correspondência, a experiência da alteridade.

 

Alteridade como diástole: diferenciação

Nem mesmo sei qual é a parte

da tua estrada no meu caminho.

Será um atalho? Ou um desvio?

Zeca Baleiro e Alice Ruiz (2000)

 

A alteridade como diástole, afastamento e diferenciação, entendida como paradigma necessário para se estabelecer uma melhoria no modo de viver, pode ser pautada na afirmação de Jung (1993, p. 145) de que “via de regra, ficamos admirados, tristes ou decepcionados quando [...] descobrimos que o outro é realmente outro”. A dificuldade de exercício da alteridade é consistente.

Ao compreender a existência de diversos tipos psicológicos, Jung percebeu que uma das maiores experiências da vida dele foi se dar conta da grande diferenciação entre as psiques humanas. Essa percepção do outro como distinto faz parte do processo de individuação, como pontuam Samuels, Shorter e Plaut (1988, p.48): “a individuação é um processo em que a pessoa se torna distinta de outras pessoas. Ou seja, faz parte do caminho da individuação a prática da alteridade”.

É um aspecto da alteridade se dar conta de que nem todo mundo pensa e age da mesma forma. No entanto, por se tratar de uma tarefa difícil de ser vivenciada, é muito comum uma visão enrijecida do mundo, unilateral. Jung (1993, p.148), de forma bastante atual, descreve que essa dificuldade instaura uma perseguição “a quem pensa de modo diferente, (...), temos inclusive um medo enorme de ficarmos sozinhos com nossa convicção”.

Jung (1993, p.146) diz ser um “preconceito inarredável achar que nos outros tudo é igual como em nós”. Ao julgar o outro a partir de si mesmo, não se percebe o espaço que cada um ocupa no mundo. Para Jung (1993, p.149), “a pessoa pode tornar-se tão identificada com seu eu que perde o vínculo comum da humanidade, podendo voltar-se uma contra a outra”. É usual, pois uma pessoa nunca quer o mesmo que outra. O conselho que Jung (1993, p.33) propõe para esse impasse é o de que, antes de criticar os outros, a pessoa “se sente e pondere cuidadosamente se a carapuça que quer enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente na dele”.

Pensar o arquétipo da alteridade, ou de coniunctio —  como defendida por Jung —  “se dá por meio da posição dialética ego-outro e outro-outro na consciência e é profundo, pois só ele é capaz de dar a todas as polaridades direitos iguais de expressão. As partes interagindo com o todo” (BYINGTON, 2002, p.219).

Para Jung (2015, p. 182), faz parte da individuação que a pessoa “não coloque a garantia de sua felicidade ou mesmo de sua vida em fatores externos, quer se trate de pessoas, ideias ou circunstâncias”. Por isso, é tão importante reconhecer o outro como não eu: para dividir as responsabilidades. Cada um é responsável por si mesmo e, em comunidade, responsável pelo todo. A partir daí, pode-se pensar em descobrir como conviver com esse outro – diferente, com vontade própria e responsável por suas ações – pode trazer ensinamentos sobre si mesmo. É o movimento de sístole, de integração.

 

Alteridade como sístole: integração

 

Os outros lugares são espelhos em negativo.

O viajante reconhece o pouco que é seu

descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

Ítalo Calvino (1990)

 

Mesmo as mais intensas transformações individuais são vividas na coletividade. Magaldi (2018) ressalta que “vale lembrar que ninguém tem a capacidade de modificar ninguém, mas ninguém consegue modificar-se sozinho, porque é na relação com o outro que acontecem as modificações”. A capacidade do indivíduo se colocar no lugar do outro é o que permite um posicionamento de quem somos no mundo. Werres (2019, p.27) destaca os desafios de tal empreitada na pós-modernidade quando afirma que “vivemos em nossas bolhas, nos preocupamos com os nossos problemas, estamos cegos para a dor do outro e para a alma do mundo; as questões que atingem a todos nós são tratadas de forma competitiva e leviana, como se as consequências fossem irrelevantes”.

Kast (2019, p.56) destaca que o processo de individuação, tal como Jung o descreve, é um processo de integração, pois “recebemos estímulos dos nossos semelhantes, mas também projetamos neles nosso próprio aspecto psíquico, que ainda é estranho para nós”. Jung (1993, p.164) é categórico quando fala da importância do outro para a nossa própria compreensão quando explica que “quem não se conhece a si mesmo não pode conhecer o outro”.

Diversos autores corroboram as ideias de Jung sobre a alteridade como necessidade à individuação. A alteridade, como arquétipo, fala de um conteúdo do inconsciente coletivo, ou seja, da coletividade. E estar integrado a esse contexto é indispensável. Byington (2008, p. 217) destaca que “o arquétipo da alteridade é, certamente, a maior contribuição da psicologia simbólica junguiana”, por ser capaz de “dar, a todas as polaridades, direitos iguais de expressão”.

A alteridade permite a possibilidade de enxergar o outro, elaborando-o simbolicamente a partir das percepções que se estabelecem na convivência, ou seja, na relação, tanto no tocante ao que for negativo, quanto no que for positivo. Essa alteridade, como união dos semelhantes, significa que “ainda não se alcançou a sua realidade total e [...] que é preciso se reunir com mais de si mesmo [...] para prosseguir com a união dos opostos” (EDINGER, 2008, P. 35).

 

Pulsação

 

O processo de individuar, portanto, consiste em estabelecer um movimento de alteridade que proporciona a diferenciação, mas também retorno à coletividade. A reflexão é de que, embora seja a partir do outro que se constitui o eu, não se pode permitir um amálgama com o alheio, a ponto de se perder. A alteridade convida o indivíduo a um movimento pulsátil e constante – semelhante ao de sístole e diástole do coração – para impulsionar a coragem de saber ser outro e, ao mesmo tempo, de enxergar o outro. A diferenciação e a integração são movimentos cadenciados, exercícios que permitem uma aproximação suficiente para dar a mão ao outro, sem, contudo, perder a condição de se afastar para vê-lo – e ver-se – em perspectiva.

 

Lis Vilaça é mestre em Psicologia. Analista em formação pelo IJEP - lisvilaca@gmail.com - (21) 98294-9292. Rio de Janeiro.

 

Referências

 

BALEIRO, Zeca e RUIZ, Alice. Quase nada. Música Em Líricas. Som Livre. 2000.

BRANDÃO, CR. Identidade e Etnia. S. Paulo, Ed. Brasiliense, 1986.

BYINGTON. Carlos. O arquétipo da vida e da morte: um estudo da psicologia simbólica. São Paulo: Editora Linear B, 2002.

BYINGTON. Carlos Amadeu Botelho. Psicologia Simbólica Junguiana. A viagem de humanização do cosmos em busca da iluminação. São Paulo: Linear B. 2008.

CALVINO, Ítalo. Cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras. 1990.

EDINGER, Edward F. Anatomia da psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix. 1990.

EDINGER, Edward F. O mistério da coniunctio: imagem alquímica da individuação. São Paulo: Paulus. 2008.

FRAYZE-PEREIRA, João A. A questão da alteridade. Psicol. USP, São Paulo, v. 5, n. 1-2, p.11-17, 1994.

FREIRE, J. C. O lugar do outro na modernidade tardia. São Paulo: Annablume. 2002.

JUNG, Carl Gustav. Civilização em Transição. Em: Obras Completas de C. G. Jung vol. 10/1. Petrópolis: Vozes. 1993.

KAST, Verena. Jung e a psicologia profunda: um guia de orientação prática. São Paulo: Cultrix. 2019

MAGALDI, Waldemar. Metanoia na Psicologia Junguiana. Disponível em: http://www.waldemarmagaldi.com/metanoia-na-psicologia-junguiana. 2018.

MONTAIGNE, Michel de. Os Ensaios. Ed. P. Villey. Tradução Rosemary C. Abílio. 3 vols. São Paulo: Martins Fontes. 2001.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

SAMUELS, A.; SHORTER, B.; PLAUT, F. Dicionário crítico de análise junguiana. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

WERRES, Joyce (org.). Jung e os desafios contemporâneos. Ed. Vozes. 2019.


Lis Vilaça - 09/09/2020