AMOR E RELACIONAMENTOS NA JUVENTUDE CONTEMPORÂNEA

Amor e Relacionamentos na Juventude Contemporânea Psicologia Junguiana

A humanidade hoje vive em um contexto eletro-plastificado, como afirma Magaldi (2019) e Contrera (2017), em que as relações (amizades, namoros e casamentos) dão-se mais pelas imagens photoshopadas das redes sociais (a persona da persona) do que por uma real relação entre personalidades. Hoje parece que a relação é à três – não triângulos amorosos, mas a terceira parte, no caso, sendo a rede social. Não à toa, existem pesquisas que demonstram que casais que menos postam nas redes sociais são os mais felizes, já os que realizam mais publicações de si mesmos em momentos românticos tendem a querer legitimar o amor mediante às curtidas, comentários e compartilhamentos (EMERY et al., 2014). Nestes casos, os relacionamentos parecem fast-food, consome-se o relacionamento, mas nenhum nutre verdadeiramente. Quase não há mais aquelas reações alquímicas entre duas personalidades a qual C. Jung menciona. Vale lembrar que existem aplicativos-cardápios em que um indivíduo seleciona o outro, e se ambos aceitarem (derem match), podem partir para a fricção genital (BALESTRINI, 2019). No fim, a depressão que Magaldi (2020) relaciona a esta era plastificada, é também, no fundo, uma busca pelo amor.

Quem estuda C. G. Jung certamente deparou-se com a famosa passagem do poder sendo a sombra do amor e vice-versa. Não à toa, no conjunto "Civilização em Mudança", das Obras Completas, C. G. Jung (2012) (2013) presenteia o leitor com uma complexa análise sobre o século XIX. Diagnosticando o momento como autoritário, tempestuoso, bélico e destrutivo, apontando para a emergência da divindade Wotan possuindo a Alemanha nazista.

Neste mesmo conjunto, por outro lado, especificamente no livro “Civilização em Transição”, Jung (2013) traz uma singular reflexão sobre o amor e a dificuldade dos indivíduos contemporâneos entregarem-se e mergulharem nele. O amor “exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina" (JUNG, 2013, p. 122-123).

Isso demonstra que o amor é uma potência que também deve possuir-nos e ser possuída. E deixar-se possuir, principalmente pelo amor, é tudo o que o ego hierárquico e controlador não quer. Não é raro escutar entre amigos e na clínica frases como "e se minha paixão me trair? E se me meu amor me deixar? E se eu for passado para trás?" como se o indivíduo já se colocasse em uma posição inferior ao ser amado, ou seja, em uma posição hierárquica, portanto, revelando assim não uma relação amorosa, mas de poder. Nesta dinâmica, o ego sempre quer "sair por cima" da relação.

A possessão do amor não está ligada à manipulação das massas como ocorreu na Alemanha com a possessão de Wotan, mas a entregar-se à Totalidade. Talvez o poder esteja para o Ego assim como o amor está para o Self. Como diz Jung (2013) o amor é para poucos e a aventura perpassa os três mundos gregos: é difícil, sinuosa e quase impossível como o submundo, e por isso mesmo, é tão reveladora como o Olimpo, e se passa no mundo mortal.

É curioso perceber que no decorrer de sua obra C. G. Jung aponta para o termo "constelação" de complexos ou de arquétipos, contudo, principalmente nestas obras que tocam a contemporaneidade o autor pontua, mesmo que intuitivamente, a questão da “possessão” – não metafísica, mas trazendo as ideias da mentalidade primitiva (participação mística) de Lévy-Bhurl, apesar de muitos autores contemporâneos embebidos pelo racionalismo o desconsideraram. Já, C. Jung apropriou-se de suas ideias para demonstrar não uma mentalidade primitiva já superada, como muitos diriam, mas para entender, psico-antropologicamente, o modus operandi de uma recém-nascida consciência sentindo fortemente ainda a interligação do Inconsciente Coletivo e Pessoal, e que dependendo da possessão arquetípica poderia colocar os indivíduos afetados tanto em um contexto de poder como o da Alemanha Nazista como um de amor.

Na psicologia analítica, a princípio, pode-se entender que indivíduos apaixonados acabam por projetar a/o anima/animus um no outro, criando variadas expectativas. Este é o primeiro e talvez inevitável passo no apaixonar-se. É o momento em que aquela paixão inicial, como pathos, ou melhor, o “sofrer” e o “passar por" inicia-se e desfaz-se rapidamente. É como se a perfeição se apresentasse para o apaixonado e, repentinamente, numa quarta-feira comum, o parceiro aparecesse inteiramente imperfeito e irreconhecível. Este é o momento exato em que os apaixonados são colocados diante das portas de Hades, a fim de sair das expectativas mundanas e buscar a profundidade. Hoje, é neste momento em que os relacionamentos (amizades, namoros e casamentos) são abandonados, pois para mergulhar na profundidade é necessário abandonar tudo o que a humanidade contemporânea está extremamente agarrada: as personas, as redes sociais e suas plastificações.

Se os apaixonados abandonam tais cascas e vão em frente, eles encontrarão discussões, brigas e momentos de infelicidade. O olhar para dentro – para as explosões, implosões, expectativas e perspectivas egóicas – é crucial, pois descer às profundezas é confrontar-se com a sombra pessoal e coletiva. Como filho de uma época, no meu caso, é necessário me defrontar com o patriarcado e o machismo incrustado no meu ser, a fim de ganhar autonomia sobre ele. A luta é, portanto, coletiva e pessoal, para dentro e para fora, e por isso um casamento sempre é duplo: com a pessoa escolhida e a/o anima/animus.

            Inversamente aos contos da Disney e aos filmes de comédia romântica, Eros revela-se somente quando Psiquê retorna do submundo de Hades e petrifica-se. Ou seja, é somente entregando-se às profundezas de todos os mundos, sofrer/passar por elas, queimar as mãos e arriscar tudo que o amor se revelará verdadeiramente.

Em síntese, como afirma Jung (2013), o amor “custa caro e nunca deveríamos torná-lo barato”. Parece que a contemporaneidade ainda está negociando com o amor oferecendo imagens midiáticas, personas, dinheiro, etc. Não importa a quantidade destas sejam ofertadas, o amor nunca se revelará enquanto o primeiro passo à profundidade e à entrega não for dado, ou seja, o amor custa amor e nada mais e por isso é tão caro.

 

REFERÊNCIAS:

BALESTRINI, J. Sexo Casual ou Fricção Genital? 2019. Disponível em: https://www.ijep.com.br/artigos/show/sexo-casual-ou-friccao-genital Acessado em: 04 nov. 2020.

 

CONTRERA, M. Mediosfera. Porto Alegre: 2017.

 

EMERY, L. F., MUISE, A., DIX, E. L., & Le, B. Can You Tell That I’m in a Relationship? Attachment and Relationship Visibility on Facebook. Personality and Social Psychology Bulletin, 40(11), 1466–1479. 2014. https://doi.org/10.1177/0146167214549944

 

JUNG, C. G. Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2012.

 

JUNG, C. G. Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 2013.

 

MAGALDI, W. Crise e Depressão na Era do Plástico. 2019. Disponível em: https://www.ijep.com.br/artigos/show/crise-e-depressao-na-era-do-plastico Acessado em: 04 nov. 2020.


Dr. Leonardo Torres - 12/11/2020