DEPENDÊNCIA QUÍMICA E ALCOOLISMO

DEPENDÊNCIA QUÍMICA E ALCOOLISMO Psicologia Junguiana

Vivemos numa sociedade onde, infelizmente, lazer e prazer estão associados ao consumo. Por isso, não podemos restringir o problema das DACDependências, Abusos e Compulsões, apenas a fatores psicopatológicos ou biológicos, porque as questões políticas, econômicas e culturais da nossa atual sociedade de consumo também contribuem para essa epidemia onde 5% da população mundial já é usuária de drogas e é previsto que em 2100, de acordo com as atuais estatísticas, mais da metade da população mundial estará dependente de algum tipo de substância psicoativa ou atividades comportamentais que produzem dependência das substancias endógenas, aquelas que são produzidas pelo próprio organismo, por conta dos vícios em games, redes sociais, pornografia e outras práticas do universo virtual, associadas a 1 bilhão de mortes que serão causadas pelo tabagismo ativo ou passivo.

DAC é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos workaholic, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). A Dependência, acontece quando a liberdade do Ego se apresenta bastante limitada. O Abuso é a repetição exacerbada de uma experiência considerada saudável ou normal produzindo sofrimento ao Ser. A Compulsão, por sua vez, já inclui o conflito psíquico, quando o Ego é dominado pelos complexos mantendo o doente escravizado pelo objeto ou comportamento, que outrora pode ter sido de prazer, mas agora torna-se imperativo para não gerar o desprazer da sua abstinência.

Do uso social ao problemático, o álcool é a droga mais consumida no mundo. Segundo dados de 2004, da Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. O uso indevido de álcool é um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% de todas as mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Por outro lado, o sucesso no tratamento da DAC é muito pequeno. Menos de 20% das pessoas que ingressam num programa transdisciplinar conseguem a abstinência, geralmente depois de passarem, no mínimo, por duas recaídas. Por isso, associo os transtornos de DAC a questões psicossomáticas, por terem sua etiologia no construto psicoafetivo do dependente.

É importante deixarmos claro que psicossomática não é um adjetivo de uma queixa ou de um sintoma qualquer, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, ambientais, entre outros. Em nossos cursos, ministrados pelo IJEP, insistimos muito que a nossa condição de vida é psicossomática e, nesta premissa, não podemos limitar nossos estudos exclusivamente na busca reducionista das causas das doenças. Precisamos ir além das causas, buscamos o sentido, ou seja, para onde aquele sintoma pode estar apontando, que caminho de evolução pode haver nele? Consequentemente, ao invés de procurarmos uma explicação generalista e reducionista sobre as causas dos sintomas e das doenças, tentamos compreender sua manifestação na totalidade de cada ser, no processo evolucional e individual.

O alcoolismo, assim como todas as adições e dependências, é simultaneamente um sintoma individual e social, registrado histórica e antropologicamente há milênios. A grande pergunta é: Por que a humanidade busca experiências com substâncias psicoativas que produzem estado alterado de consciência? É uma busca de alívio, saídas, encontros ou desencontros com o si mesmo? As experiências de picos e de vales, produzidas por qualquer adição, nos deixam perplexos e nos remete para hipotetizarmos uma série de causas, mas na raiz de qualquer justificativa, o que temos como resultante é a falta de sentido e de significado existencial do doente, devido a inexistência de um propósito de vida que vai além da biosobrevivência, dos prazeres imediatos, da ilusão do sucesso, da fama ou da riqueza material. Ou seja, existem muitos fatores que influenciam uma adição. É um absurdo buscarmos uma causa única, porque a doença é multifatorial incluindo as predisposições genéticas, ancestrais, sociais, familiares, espirituais e vivenciais e todas, em alguma intensidade, contribuem para que aconteça a DAC. Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença.

Aliás, sempre digo aos codependentes, que é o entorno relacional do doente que, na maioria das vezes, por não reconhecerem que podem estar dependentes da dependência do seu ente querido, ou seja, dependem da dependência do dependente, que eles não devem continuar acreditando, iludidamente, que podem ser culpados, que podem controlar ou até curar seu dependente. Porque, desta forma, e nesta dinâmica, acabam mais atrapalhando do que ajudando, contribuindo ainda mais para as contínuas recaídas do tratamento.

A busca de estado alterado de consciência, que é gratificante, por produzir, transitoriamente, alívio e prazer, está diretamente ligada com falta de sentido existencial. Muitas vezes ouvi alguns jovens dizerem que usavam drogas para ficarem “descolados” deixarem de ser “caretas”, se sentirem pertencentes, mais criativos, alegres, confiantes, entre outras justificativas para defender seu vício, obviamente negado como tal, porque ainda se julgam livres, sem reconhecer sua dependência da substância e do estado alterado de consciência que ela produz. Sendo que, na medida que o consumo vai ficando mais frequente, o organismo vai adquirindo resistência e tolerância, exigindo cada vez mais quantidade e frequência.  Até que eles acabam deslocados do processo adaptativo e evolutivo sócio, econômico, profissional, relacional e familiar, tornando-se dependentes e alienados, cada vez mais distantes de si mesmos, agravados pelas complicações físicas. Ou seja, o indivíduo perdeu a referência da sua essência e, consequentemente, da sua vocação e seu chamado. Neste caso surge o mau destino e todos os eventos desastrosos e trágicos, pela inconsciência da sua trajetória existencial, ficando à mercê do catastrófico. C. G. Jung nos alerta para a necessidade da relação do Eu com o inconsciente e para o risco desta falta de autoconhecimento:

“[...] as pretensões do inconsciente se impõem categoricamente ao consciente e causam nefasta dissensão que se exterioriza sobretudo no seguinte: as pessoas já não sabem o que realmente querem e não encontram prazer em nada, ou querem demais de uma vez só e têm prazer demais, mas em coisas impossíveis. A repressão das pretensões infantis e primitivas, necessária por motivos culturais, leva facilmente a neuroses ou ao abuso de drogas narcóticas como álcool, morfina, cocaína etc. Em casos mais sérios ainda, o desfecho da dissensão pode ser o suicídio.” (CW6 - §639)

Os profissionais de saúde, por convenção, estabelecem que a dependência química implica na necessidade psíquica do indivíduo frente a adição, e o vício é o estágio mais avançado da dependência química, onde o organismo já não consegue funcionar adequadamente sem a presença da substância de adição. Mas, tanto o dependente químico quanto o viciado são indivíduos doentes que necessitam de tratamento. Ninguém está nessa por vontade própria, com lucidez e consciência plena.

A ideia de cura é muito complexa e de grande ambiguidade. Por exemplo, em função do meu conhecimento em homeopatia e psicologia junguiana, acredito que é possível morrer curado. Mas, filosofia aparte, é inconcebível acreditar que apenas uma droga poderia curar a dependência de outra droga. Nossa experiência aponta para um tratamento transdisciplinar, preferencialmente o menos invasivo possível, que propicie autoconhecimento para que o doente possa descer nas profundezas do seu ser e, como Fausto de Goethe, resgatar sua alma. Por isso, não são raros os casos em que a experiencia metafórica de “fundo de poço” são determinantes na conquista da abstinência e sobriedade.

O caminho de tratamento das DAC começa pela desintoxicação, depois exige o reconhecimento da dependência e o desejo de abstinência, levando em consideração a síndrome da dependência, abordando a família, fazendo a conscientização do risco das recaídas, o ressignificar dos velhos hábitos, o reconhecimento das situações de risco para recaída e a produção de estratégias de abstinência de curto prazo, porque a “batalha” é diária e, na maioria dos casos, pelo resto da vida.

As adições são doenças com características de comorbidade e codependêcia, desta forma nada que aja isoladamente pode ser eficaz. A cura depende de muitas intervenções nos aspectos pessoais, psíquicos, físicos, sociais, familiares e até espirituais. Porém, sem o real compromisso do dependente quase nada se pode fazer. Toda intervenção arbitrária e truculenta acaba gerando mais problemas e danos do que cura. Paciência e amor são as ferramentas essenciais para o sucesso do tratamento. Mesmo assim, teremos que encarar potencias muito significativas para que a transformação do ser aconteça. Mudanças sempre desencadeiam mecanismos de defesa e, nestes casos, teremos que enfrentar as reações biológicas, onde cada célula deseja manter o indivíduo no seu padrão viciante, além das resistências neuro cerebrais, psicoafetivas, familiares e sócio culturais.

Porque o cérebro, assim como nossas estruturas somáticas, tende a padrões viciantes, por isso é tão difícil mudança de hábitos, como a rotina alimentar para aqueles que desejam perder peso. Nosso cérebro consome de 20 a 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de representar, na média, apenas 2% do peso corporal, nesta perspectiva, a massa cerebral consome, proporcionalmente, de 60% a 80% a mais do que a corporal. Ele é uma máquina voraz, constantemente ligada para garantir a manutenção da vida biológica, produzindo rotinas e padrões repetitivos e automáticos, para a manutenção da vida, associando-as com os mecanismos de prazer e recompensas, produzindo dopaminas, serotoninas, endorfinas e outras substâncias. Desta forma, quando o sistema de recompensas é ativado entramos em modo automático de repetição e, em muitos casos, de compulsão, dificultando, cada vez mais, a capacidade de crítica reflexiva, tirando a autonomia da consciência. E esse mesmo mecanismo acontece, de forma ainda mais efetiva, com as substâncias psicoativas, como álcool outras drogas de abuso.

É preciso muito diálogo, muita sinceridade e muita disponibilidade para enfrentarmos um mundo tão desigual e sem perspectivas. Os vínculos estão sendo substituídos por eficácia e pelo acúmulo de bens. Os valores afetivos estão ficando em segundo plano. Nossos jovens estão perdidos e completamente diluídos frente a tantas demandas. Precisamos dar possibilidades criativas, sentimento de pertença e autoestima mais elevada aos jovens. Estamos assistindo uma crescente falta de entusiasmo para a vida. O grande desafio que temos para o futuro da humanidade é o engajamento entusiástico dos jovens para com as questões sociais e ecológicas. Sem isso teremos uma sociedade individualista, buscando um prazer hedônico e sem sentido. A dessacralização e o desencantamento do mundo, provocado pelo utilitarismo materialista e racional devem ser repensadas.

Encerro esse artigo lembrando que em 1996, a Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgou um estudo mundial sobre a educação, desembocando nesses quatro pilares: Aprender a ser; Aprender a conviver; Aprender a aprender; e Aprender a fazer; Observe que tudo começa pelo autoconhecimento, porque só assim que poderemos alcançar um sistema político democrático, de governança e não predatório,  por ser sustentável e humanista, que poderá contribuir para um cenário onde a diferença entre os mais ricos e a população não seja tão desigual e desumana e que o consumo e a riqueza material deixem de ser sinônimos de prazer e sucesso.

WALDEMAR MAGALDI FILHO - Psicólogo, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Analista didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – e coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana; Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas.

Email: wmagaldi@ijep.com.br


Waldemar Magaldi - 19/02/2021