ENSAIO SOBRE O TEMPO

ENSAIO SOBRE O TEMPO Psicologia Junguiana

“Compositor de destinos

Tambor de todos os ritmos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Entro em um acordo contigo

Tempo, tempo, tempo, tempo

 

Por seres tão inventivo

E pareceres contínuo

Tempo, tempo, tempo, tempo

És um dos deuses mais lindos

Tempo, tempo, tempo, tempo”

(Caetano Veloso)

 

O fuso horário foi inventado em 1884, para que a modernidade pudesse fluir de forma conjunta: trens e navios precisavam ser carregados assim que chegassem, pessoas precisavam viajar, reuniões haviam de serem marcadas... tempo agora era dinheiro e não poderia ser desperdiçado. Ou seja, a necessidade de padronizar o tempo surgiu junto com a economia capitalista (MARTINS, 2008). Mas seria esse tempo, um “tempo capital”, o mesmo da psique?

Jung, no documentário “Face to face” (1959), afirma que a psique não é limitada pelo tempo e espaço da consciência e, portanto, não vive dentro desses limites. Do mesmo modo, conclui que é adequado pensarmos de acordo com as linhas da natureza, considerando que temos uma vida que caminha para a morte, como todos os seres vivos neste mundo. E, durante essa estadia física na terra, as pessoas procuram por sentido de vida, pois não podem suportar uma existência sem significado.

Porém, a falta de tempo, ou a rapidez com que tudo acontece, fez com que as pessoas do mundo moderno perdessem a conexão com os símbolos que geram significado a vida (JUNG, 2015. O/C 18/1). Vivemos numa sociedade em que o tempo é pouco: oito horas de trabalho diário; seis a oito horas de sono; locomoção; transito; alimentação; cuidados de higiene; cuidar da casa; estudar; dedicar tempo à família; e ainda assim ter tempo para “fazer nada”, o ócio, em um dia com vinte e quatro horas. Verena Kast (2016), aponta que a falta de tempo faz com que vivencias não sejam percebidas de forma significativa o suficiente para serem transformadas em experiências. E que “deveríamos tomar o tempo para que as vivencias que nos tocam emocionalmente possam se transformar em experiência. E se não restar tempo para vivencias que nos toquem emocionalmente – o que nos restará? (p. 71).” Mas, o que seriam essas vivencias? Talvez “pequenas alegrias da vida adulta”, como já cantou Emicida:

 

“É um sábado de paz onde se dorme mais

O gol da virada, quase que nóis rebaixa

Emendar um feriado nesses litorais

Encontrar uma Tupperware que a tampa ainda encaixa

Mais cedo brotou alecrim em segredo

Tava com jeito que ia dar capim

Ela reclama do azedo, recolhe os brinquedos

Triunfo hoje pra mim é azul no boletim

Uma boa promoção de fralda nessas drogarias

O faz-me rir na hora extra vinda do serviço

Presentes feitos com guache e crepom lembra meu dia

Penso que os sonhos de Deus devem ser tipo isso

 

Então eu vou bater de frente com tudo por ela

Topar qualquer luta

Pelas pequenas alegrias da vida adulta”

(Emicida)

 

Muitas vezes esperamos por grandes sentimentos, talvez inspirados nos romances, como se fosse possível uma felicidade plena. Mas Jung (2016) já nos alertava: “não há luz sem sombra, nem totalidade anímica sem imperfeição. A vida em sua plenitude não precisa ser perfeita, e sim completa. Isto supõe os “espinhos na carne”, a aceitação dos defeitos, sem os quais não há progresso, nem ascensão (O/C 12 § 208)”. Contudo, em nossa sociedade, vemos números crescentes de esgotamento por estresse, isso se deve as cobranças impostas pela perfeição exigida em nosso modelo de vida. Essa pressão faz com que nos desliguemos de nós mesmos, perdemos até mesmo os ritmos naturais de necessidades fisiológicas, e o que sentimos. Kast (2016) alerta que quando perdemos essa conexão privamo-nos de sentir prazer no mundo, novamente remetendo ao fato de perdermos vivencias profundas, que seriam transformadas em experiências.

Evidentemente não existe um estado linear, pois a psique se encontra em movimento constante: calmarias e tempestades. E, se pudesse encontrar um equilíbrio permanente, Jung (2014, O/C 8/2) nos adverte que seria bastante tedioso, pois é através dessas oscilações que se desenvolve, precisamos de conflitos. Pois, na medida em que os vivenciamos, podemos também experimentar alegrias por ligarmo-nos com o mundo interior, e, sendo uma via de mão-dupla, também nos conectamos com o nosso redor (KAST, 2016).

É certo que toda existência caminha para a morte, mesmo quando fazemos todo possível para proteger o corpo do seu invariável fim: “o veneno da serpente do tempo se insinua e age secretamente em nosso corpo. A fuga da vida não nos liberta da lei do envelhecimento e da morte (JUNG, 2016. O/C 5, § 617)”. Contudo, o que vivemos, ou todas as potencias que deixamos de viver, reverberam no coletivo de alguma forma:

“São muitos – muitíssimos – os aspectos da vida que poderiam ser igualmente vividos, mas jazem no depósito de velharias, em meio a lembranças recobertas de pó; muitas vezes, no entanto, são brasas que continuam acesas por baixo de cinzas amarelecidas. (JUNG 2014. O/C 8/2, § 772).”

E se ainda são brasas, podem reviver uma fogueira de símbolos e experiências significativas, mas, para isso precisamos encontrar os tempos certos: tempos modernos e tempos de alma. Então, nada mais justo que encerrar essa reflexão com um pedido:

 

“Oh Tempo Rei!

Transformai

As velhas formas do viver

Ensinai-me

Oh Pai!

O que eu, ainda não sei”

(Gilberto Gil)

 

Alethéia Skowronski Vedovati, analista em formação pelo IJEP

 

REFERÊNCIAS

Face to face – entrevista com Carl G. Jung. BBC, 1959.

https://www.youtube.com/watch?v=_K5Qe-XbAAw acessado em: 10 dez. 2020, às 8h.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis, RJ : Vozes, 2016

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. Petrópolis, Vozes, 2016.

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis, Vozes, 2014.

Jung, Carl Gustav. A vida simbólica: escritos diversos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

KAST, Verena. A alma precisa de tempo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.

MARTINS, Mônica; JUNQUEIRA, Selma. A legalização da hora e a industrialização no Brasil. XXI jornadas de história econômica. Buenos Aires, 2008.


Alethéia Skowronski Vedovati - 11/02/2021