EROS E PSIQUE: A DIFÍCIL ARTE DOS RELACIONAMENTOS

Eros e Psique: a difícil arte dos relacionamentos Psicologia Junguiana

Em grego a palavra psiqué deriva do verbo psýkhein, “soprar, emitir um sopro”.

Como diz Junito Brandão, “a psiqué é, pois, ´o sopro, a respiração, o hálito, a força vital, a vida´, sentida como sopro, daí ´alma do ser vivo, sede de seus pensamentos, emoções e desejos´” (BRANDÃO, 2014, p. 542). De onde se derivou a noção do ´próprio ser, a individualidade pessoal, a pessoa, a parte imaterial e imortal do ser´” (BRANDÃO, 2014, p. 542).

Na Grécia antiga, a psique não era vista como dissociada do corpo. “Somente nas religiões de mistérios, Mistérios de Elêusis, Orfismo, Pitagorismo (...) é que se postulou a dicotomia corpo-alma” (BRANDÃO, 2014, p. 542).

Homero pontua que a psique era um pouco mais substanciosa que um sopro, algo volátil como uma sombra ou fumaça, que habitava o mundo inferior, dos mortos (BRANDÃO, 2014, p. 542).  Ou como Brandão diz: “Tais enfoques acentuam uma antiga intuição de que o corpo, mesmo após a morte, possuía uma existência real e de que, se esta continuava no Hades, haveria de ser, de certa forma, física” (BRANDÃO, 2014, p. 543).

Ao sair do corpo, a psiqué era prejudicada em sua inteligência e memória, habilidades que ficavam latentes. Por isso, os gregos antigos entendiam que não se morre, “se cobre de trevas”, que seria o sentido de Thánatos  (BRANDÃO, 2014, p. 543).

Neste contexto, um dos mitos mais belos é o de Psiquê e Eros. Seu primeiro relato pode ser encontrado na obra O Asno de Ouro, escrito no século II d.C. por Lucio Apuleio (125-175 d.C.). Também conhecida por Metamorfoses (APULEIO, 2019), trata-se, até onde sabemos, do único romance latino da Antiguidade a sobreviver na íntegra até os dias atuais.

O Asno de Ouro é uma obra bastante debatida no âmbito dos estudos junguianos. O psicólogo alemão Erich Neumann (1905-1960), dedicado às questões do princípio feminino, escreveu um livro sobre este mito que trata da metáfora da busca da alma pelo amor (NEUMANN, 2017). Ou, mais precisamente, pelo crescimento por meio do relacionamento, que é a grande metáfora do mito de Eros e Psiquê.

Como Neumann diz em outra grande obra de estudo do caráter do feminino: “O homem tem uma vivência interior do Feminino, ainda que esta seja a princípio inconsciente, da mesma forma que a mulher vivencia o Masculino” (NEUMANN, 2006, p. 35). Assim, a “vivência do outro sexo é mais ainda objetivada por intermédio da relação viva e direta com ele, algo que se tornou usual no mundo moderno e que tornou possível, em particular ao psicólogo, a introvisão da estrutura profunda do sexo oposto” (NEUMANN, 2006, p. 35). Em outras palavras, “por intermédio da relação viva e direta com ele” (NEUMANN, 2006, p. 35).

Enquanto os indivíduos em relação se mantiverem numa perspectiva de desenvolvimento de personalidade no nível infantil, a tendência é a de se projetar seus próprios conteúdos sombrios individuais no parceiro / na parceira.

Também a psicoterapeuta analítica alemã Marie-Louise von Franz (1915-1998) refletiu sobre o mito de Psiquê e Eros (FRANZ, 2014), isto é, sobre o desenvolvimento anímico do homem por meio da função feminina do seu psiquismo, que na Psicologia Junguiana recebe o nome de anima – enquanto a função masculina do psiquismo de uma mulher é chamada de animus.

Para finalizar, é sempre bom lembrar que, como Marie-Louise von Franz diz em Asno de Ouro, essas personificações do cosmo interior que transcendem os limites da personalidade consciente – no mundo que Jung denominou realidade psíquica. E que esses processos de desenvolvimento psíquicos são urdidos no nível profundo do inconsciente. Assim, parece que o indivíduo leva uma dada vida na superfície do consciente até que em algum momento estas duas correntes se encontrem e se unam (FRANZ, 2014).

 

Monica Martinez, analista em formação do IJEP

Para saber mais

APULEIO. O asno de ouro. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2019.

BRANDÃO, J. DE S. Dicionário Mítico-Etimológico. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.

FRANZ, M.-L. VONZ. Asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

NEUMANN, E. A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. 5. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2006.

NEUMANN, E. Eros e Psique: amor, alma e individuação no desenvlvimento do feminino. São Paulo: Cultrix, 2017.


Monica Martinez - 02/12/2020