FOTOGRAFAR É O ATO DE NÃO VER

Fotografar é o ato de não ver Psicologia Junguiana

Alguns mais novos talvez pensem a fotografia como resultado de uma combinação de pixels na tela de um dispositivo tecnológico. Os mais antigos - e aqui talvez seja mais adequado não falar em idade - remetam o pensar da representação psíquica da fotografia como o resultado de uma impressão luminosa, que é, tecnicamente falando, fixada por cristais de haleto de prata sensibilizados.

O convite deste artigo é para falarmos desta fotografia, produzida não de forma acelerada por dispositivos integralmente digitais, mas daquela que talvez seja considerada mais antiga e hoje usada por um grupo reduzido, seleto e apaixonado por todo o ato fotográfico, produzida por um aparato mecânico e não totalmente digital da fotografia.

Pensar a gênese da fotografia nos leva a um entendimento como uma imagem-ato. Uma imagem luminosa impressa por processos químicos resultado de um ato gerador, no qual o sujeito encontra-se totalmente implícito. Mas vamos com calma. Vamos pensar a fotografia não pelo seu resultado, porém a partir da origem, de ato que resulta na foto.

Do ponto de vista dos estudos da fotografia, todo ato fotográfico tem um objeto e um referente, ou seja, aquilo que se encontra no mundo externo a ser capturado pelo dispositivo fotográfico e o sujeito que porta o mecanismo e se relaciona no tempo e espaço com o objeto. No início da história da fotografia, entendia-se que o papel social da foto era servir como uma reprodução fidedigna e objetiva da realidade. Nesse sentido, a máquina fotográfica era vista como a produtora única do resultado fotográfico, e o sujeito um mero operador desta máquina. Essa concepção ficou para traz e atualmente é impossível pensar a fotografia desassociada do fotógrafo. A foto é uma marca, um traço da realidade, produzida através da relação de um objetivo e um sujeito, no mesmo tempo e espaço. É o conceito de singularidade da fotografia que implica o sujeito no ato e associa a imagem impressa ao ato que a produz (DUBOIS, 2012).

É a partir da relação singular em um mesmo espaço e tempo, entre um objeto e o sujeito, que se situa a gênese da fotografia, o ponto de partida para olharmos para o ato fotográfico em um diálogo com conceitos da Psicologia Analítica.

A relação do objetivo e do sujeito, no tempo e no espaço, nos leva a outro conceito na fotografia: o princípio de distância. Dubois (2012), trazendo os estudos de Walter Benjamin, de uma maneira poética, define o princípio de distância como a aura da fotografia. “A aura seria assim o próprio efeito dialético, saído da tensão entre o longínquo e o próximo, ou melhor, do longínquo mais essencial agarrado, mantido, no próximo mais conjuntural” (Dubois, 2012, p.311). A aura não está no objeto, tão pouco no sujeito. A aura está na relação tensional, irredutível e fundamental, de estar distante. Por natureza, a fotografia é sempre distante, por mais próxima que ela pareça.

Ontologicamente, o ato fotográfico acontece pelo princípio de distância, objeto e sujeito estão separados e distantes no espaço. Ao mesmo tempo, também é o princípio de distância que atribui à fotografia um valor subjetivo, seguindo Dubois (2012) “o que é essencialmente distante é o inacessível, e a principal qualidade de uma imagem que serve ao culto é ser inacessível” (p.311). Ou seja, é a separação a um nível inacessível que inevitavelmente leva à subjetivação da fotografia. É o distanciamento entre objeto e referente que convida o sujeito a experimentar todo o processo do ato fotográfico como uma vivência psicológica.

É a essência do que é distante como inacessível, elevando o objeto para uma esfera única e mágica, o principal ponto de diálogo entre o princípio fotográfico de distância e o aspecto desconhecido da psique humana, ponto central da Psicologia Analítica. Mas, antes de falar onde o desconhecido mundo do inconsciente e a fotografia se tocam, vale começarmos o diálogo da Psicologia Analítica e a fotografia pelo aspecto psíquico que nos é acessível, a consciência.

“As únicas coisas do mundo que podemos experimentar diretamente são os conteúdos da consciência.” (JUNG, 2013, p.83). É assim que Jung entende como vivemos. Tudo se dá e acontece através dos conteúdos disponíveis à consciência. Apenas sabemos da existência de algo, o que é e seu valor, seja no mundo exterior ou interior, por intermédio das funções da consciência.

Do mundo externo, são os sentidos as vias que direcionam os estímulos percebidos para a consciência. Nós temos consciência do mundo a partir do que vimos, ouvimos, cheiramos e sentimos. As percepções sensoriais nos dizem que algo existe como objeto ou estímulo fora de nós. Jung chamou esta função da consciência de sensação.

Jung ainda define outras três funções da consciência sendo o pensamento, aquela que possibilita o sujeito a dizer o que a coisa é, ou seja, nos possibilita reconhecer os objetos através de um processo de comparação e diferenciação com auxílio da memória. Uma outra função da consciência possibilita ao sujeito dar valor ao objeto, atribuindo uma tonalidade afetiva de avaliação, podendo o objeto nos ser agradável ou desagradável, belo ou feio, etc. A essa função, Jung chamou de sentimento. Para a quarta função, intuição, Jung (2013) a descreve como

“não é uma percepção sensorial nem um pensamento, nem também um sentimento, embora a linguagem, aqui, apresente uma lacuna lamentável de discriminação. (...) a intuição, segundo meu modo de ver, é uma das funções básicas da alma, ou seja, a percepção das possibilidades inerentes a uma dada situação.” (p.85-86).

Para Jung (2017), a consciência é como uma superfície que cobre uma vasta área não consciente, que não temos acesso, porém que sabemos da sua existência a partir dos conteúdos que se fazem presentes na própria consciência. À esta área desconhecida, Jung chamou de inconsciente.

“Tudo que sabemos a respeito do inconsciente foi-nos transmitido pelo próprio consciente. A psique inconsciente, cuja natureza é completamente desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes e em termos de consciência, sendo esse o único elemento fornecedor de dados para a nossa ação.” (p.20).

Para Jung, o inconsciente é o elemento inicial da vida psíquica do ser humano. É do inconsciente que a consciência emerge a partir do relacionamento com o mundo externo. Grande parte das funções biológicas do nosso corpo acontecem sem a interferência ou vontade consciente do ego, assim como, quando deitamos para dormir todas as noites, mergulhamos no inconsciente. Apenas vigília é que a consciência pode vir a acontecer e mesmo assim não é em 100% do tempo em que estamos acordados.

Nesse sentido, a perspectiva de Jung é de que o inconsciente é uma condição natural do seu humano. “Ficamos cansados depois de um prolongado estado consciente; somos às vezes levados até mesmo à exaustão. É um esforço quase que antinatural” (JUNG, 2017, P.23). Assim, consciência e inconsciente possuem naturezas diferentes, de conteúdo polarizados e dinâmica compensatória.

Sobre o inconsciente, Jung divide-o em duas camadas. Uma com conteúdos conhecidos, porém não conscientes do sujeito, que falam da histórica do sujeito ou que integram a sua personalidade. A esta camada, Jung denominou-a como inconsciente pessoal. A outra camada, de natureza coletiva, denominada de inconsciente coletivo, é composta por conteúdos de outra classe,

“cuja origem é totalmente desconheça ou, pelo menos, tais fatores têm origem que não pode em hipótese alguma ser atribuída a aquisições individuais. Sua particularidade mais inerente é o caráter mítico. É como se pertencessem à humanidade em geral, e não a uma determinada psique individual. (JUNG. 2017, p. 52).

É no inconsciente coletivo que encontramos o que Jung chamou de arquétipos, ou seja, condições hereditárias de toda a humanidade que determinam padrões de comportamentos. Os arquétipos em si são inacessíveis e pela natureza diferente do logos da consciência, não conseguimos chegar a uma definição. O contato que temos com os arquétipos é através de conteúdos simbólicos a ele associado, vivenciado e atualizado ao longo do tempo da história da humanidade. Os arquétipos formam o núcleo dos complexos afetivos os quais são uma associação de conteúdos de forte carga afetiva que não foram assimilados pela consciência e que possuem características como autonomia, compulsão e com certa facilidade podem ganhar energia psíquica para irromperem os limites da consciência e trazer provocações aos ego.

Voltamos para o princípio de distância da fotografia e dinâmica psíquica dos conteúdos transitando entre consciência e inconsciência. Fazendo uma leitura de alguns momentos do ato fotográfico enquanto vivência psicológica do sujeito.

Na tomada, a separação ocorre no momento exato da exposição. Ou seja, naquele momento que o sujeito aperta o botão disparador na máquina e em um intervalo preciso, através da abertura e fechamento do obturado que permite que a luz do mundo externo adentre a câmera escura, sujeito e objeto estão separados. Ao mesmo tempo que esse intervalo faz a imagem, também a desfaz. A imagem ao ser capturada é produzida, mas é também desfeita uma vez que aquela relação sujeito-objeto no tempo e espaço nunca mais existirá. Como uma guilhotina, o jogo de espelhos corta essa relação umbilical.

Nesse momento, gostaria de convidá-los a uma reflexão, principalmente aqueles que não são estudiosos ou que não possuem uma relação mais íntima com o ato da fotografia. Você já reparou que quando aperta o botão para tirar uma foto geralmente o visor, dependendo do dispositivo fotográfico que você use, fica fechado ou escuro por milésimos de segundos e na sequencia a foto surge capturada? Se é nesse milésimo de segundo, no qual o obturador se abre e o visor se fecha que a imagem do mundo externo é capturada, você já parou para refletir que você não vê o que efetivamente está fotografando?

É na mesma fração de segundo na qual o sujeito fica cego pela clivagem e separação do obturador, que a foto acontece. Falando com mais rigor, o olho jamais vê aquilo que está fotografando, por isso, a provocação do título desse artigo, fotografar é não ver.

Considerando que a consciência é um campo restrito na qual consegue apreender poucos objetos e dados simultâneos num mesmo momento, a consciência nunca consegue estabelecer o contínuo de uma imagem em sua totalidade. Ou seja, “apenas alcançamos uma espécie de continuidade, de visão geral ou de relacionamento com o mundo consciente através da sucessão de momentos conscientes.” (JUNG, 2017, p.22) Tudo o mais é inconsciente.

Assim, podemos sugerir que o princípio de distância como essência da aura da fotografia é um exemplo da dinâmica dos conteúdos psíquicos entre consciência e inconsciente, sendo uma experiência, assim como a maioria da nossa vida, que acontece efetivamente de forma inconsciente.

A consciência é sobretudo o produto da percepção e orientação no mundo externo, quando o jogo de espelhos da máquina fotografia guilhotina a percepção sensorial visual e via de entrada do mundo externo para a consciência, o momento da tomada da fotografia se dá no desconhecido. No exato momento em que a foto se constitui não há consciência. Pela composição da possibilidade limitante da consciência de apreender o mundo se dar pela percepção de instantes de existência, a pequena fenda, que podemos observar através apenas momentos isolados, é fechada pelo mecanismo produtor da fotografia.

O momento seguinte do ato fotográfico é ainda mais encantador do ponto de vista da fotografia enquanto vivência psicológica. Uma vez capturada, a imagem fotográfica adquire um estado de latência. O processo óptico-químico (atualmente óptico-pixel) gerador da imagem encontra-se em um momento singular de distância. Esse tempo de latência é o de uma perturbadora experiência de espera, de uma provocação singular da distância: o desfloramento do real ocorreu, a questão está na caixa, está ali, captado, registrado, colocado na memória, mas ao mesmo tempo, não está realmente ali, manifesto para o olho.

Quem nunca se perguntou ‘será que a foto ficou boa’ após ao clique? É o princípio de distância e a vivência do inacessível que torna a imagem captada em um conteúdo simbólico fértil para manifestações psíquicas. O momento entre a captura da imagem contida dentro do dispositivo e sua impressão (a foto em si), é plataforma para a imaginação ativa.

Nas palavras de Dubois (2012),

“O momento da espera – ao mesmo tempo maravilhoso e terrível – vivido por alguns na maior impaciência, por outros, com a vontade de adiar o máximo possível a ‘revelação’ e, às vezes, de adiá-la a tal ponto que existe recusa de proceder um dia à revelação (...), esse momento é aquele em que se manifesta com maior nitidez toda a relação da fotografia com a alucinação (...), e isso porque ele é exatamente o momento entre duas fases, está entre um real que já não está mais ali, que foi levado pelo tempo que passa, e uma imagem que ainda não está ali, que está para chegar numa época próxima ou longínqua, mas necessariamente ulterior. A imagem latente só pode então se uma imagem duplamente sonhada: sonho do que não existe mais e do que ainda não é, é a encarnação da própria distância que fundamenta a fotografia.” (p.313)

O campo da consciência é restrito e momentâneo, a área do inconsciente é imensa e sempre contínua. O campo da consciência é regido pelo princípio da singularidade que se dá no tempo e no espaço. O inconsciente não segue a lógica cartesiana e iluminista, sendo pautado por fenômenos de sincronicidade. Por isso, os conceitos junguianos corroboram com o entendimento que no momento que a imagem se faz, ela também se desfaz. Ao fazer-se capturada pelo dispositivo fotográfico, a imagem deixou de existir enquanto traço único em um tempo e um espaço específico no qual objetivo e sujeito estavam em relação. Aquilo que aparentemente era próximo, distancia-se. Reforçando também a dialética do próximo e longínquo.

O momento entre a captura da imagem e sua impressão a revela uma imagem, a imagem encontra-se em um vir a ser. A imagem em si ainda não está acessível à consciência através da percepção sensorial, apenas através de uma memória formada a partir de fragmentos da realidade. E é nesses fragmentos que se abre espaço para serem preenchidos por outros conteúdos psíquicos, os quais, por meio de associações realizadas pela própria dinâmica psíquica, se conectaram à outras ilhas de conteúdos no inconsciente pessoal do sujeito.

Ao ativar a memória da imagem latente, esses outros conteúdos ganham energia psíquica e invadem a consciência num “combo leve dois em um”: imagem latente da fotografia e junto conteúdos e complexos associados. Jung define complexo como “imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência” (JUNG, 2013, p. 43). Nesse sentido, entendemos que os complexos são conteúdos inconscientes e que possuem energia psíquica tal capazes de romperem e atravessarem a consciência.

Por isso, faz sentido os sentimentos de atração e repulsa descritos por Dubois referentes ao momento latente do vir a ser da fotografia. Esse momento abre espaço para o sujeito estar diante de conteúdos que estavam em um nível inconsciente justamente pela incapacidade do sujeito não dar conta deles de forma consciente. Ao mesmo tempo que a consciência pode, até certo ponto, tirar conteúdos que causam repulsa e sentimentos desagradáveis da própria consciência de forma ativa, o inconsciente, pela função transcendente, vira e mexe, convida o sujeito a se haver novamente com esses conteúdos, produzindo um sentimento de atração. Aqui teríamos novamente a presença da dialética entre o longínquo e o próximo, uma vez que o objeto da imagem fotográfica já se faz longe no tempo e no espaço, porém o seu conteúdo é próximo e latente no sujeito.

O terceiro momento do ato fotográfico, a impressão e revelação da imagem fotográfica em si, traduzindo a captura do objeto em uma superfície bidimensional possui outros muitos paralelos com a psicologia junguiana. Porém esse diálogo é um artigo a parte.

Nesse sentido, poderíamos sugerir que a fotografia se produz em diálogo direto com a psique inconsciente. Poderíamos traçar um paralelo entre o princípio de distância e o conteúdo Junguiano de inconsciente, ambos falam de algo desconhecido, inacessível, único e mágico. Talvez, se Dubois, Benjamin e Jung conversassem, poderiam sugerir que a aura da fotografia é inconsciente.

Ana Beatriz Mello, Analista Junguiana em Formação pelo IJEP

anabmello@gmail.com
 

Bibliografia

DUBOIS, P. O Ato Fotográfico e outros Ensaios. São Paulo: Papirus, 2012.

JUNG, C.G. A Vida Simbólica. 4ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

_________. A Natureza da Psique. 10ª ed. Petropolis: Vozes, 2013.


Ana Beatriz Mello - 09/12/2020