HIPOCONDRIA

HIPOCONDRIA hipocondria

Hipocondria vem do "hipocôndrio", área na cavidade abdominal, que fica atrás das costelas, e se refere aos órgãos que estão ali situados: o fígado, a vesícula biliar, o baço, parte do estômago. Na Antiguidade, esses órgãos (principalmente fígado e  baço) eram a sede de sentimentos como a melancolia e a tristeza, que se instalavam e através de vapores causavam tais sensações mórbidas e por isso dizia-se que a pessoa estava enferma do hipocôndrio.

 

Médicos e  filósofos se uniam para aliviar o sofrimento desse paciente, para que ele encontrasse a alegria de viver.

 

A hipocondria caracteriza um estado psíquico de quem crê estar doente mesmo não estando, o que leva a uma peregrinação constante por diferentes serviços médicos em busca de respostas e cura para suas eventuais dores e doenças. Podemos falar de uma monomania já que tudo vem da doença ou se refere a ela.

 

Nos quadros hipocondríacos, predominam as preocupações intensas com a ideia de ter uma doença grave. Essas ideias surgem a partir de sensações corporais ou sinais físicos insignificantes. O indivíduo procura constantemente os médicos para ter garantias de que não tem nada. Entretanto, embora haja uma preocupação enorme com a possibilidade de sofrer de tais doenças, essas preocupações não possuem caráter delirante, podendo o indivíduo fazer uma crítica, em algum momento, quanto ao caráter absurdo de suas próprias preocupações. ( DALGALARRONDO, 2008)

 

O distúrbio pode vir associado à ansiedade e ao transtorno obsessivo-compulsivo e acompanha um medo irracional da morte. E não à toa, é  comum que essas pessoas tenham um histórico de morte prematura na família. 

 

 os obsessivo-compulsivos, atormentados por pensamentos e sensações que estimulam a buscar informações com familiares, amigos, internet ou médicos para saber se são portadores de alguma doença grave.

os hipocondríacos-fóbicos, que evitam médicos a todo custo.

E os hipocondríacos-depressivos, que creem ter uma doença que nenhum médico consegue curar. Geralmente se sentem culpados por ações do passado e suspeitam merecer punição por suas transgressões.

 

À parte de todos esses detalhes que para nós não são relevantes pois são apenas nomes, é evidente que o sofrimento é imenso para a pessoa que sofre, que de fato vivencia os sintomas e para quem vive no seu entorno. O hipocondríaco não se sente compreendido, nem pelo médico que parece desmascará-lo, nem por ninguém.  

A patologia chega a ter um viés cômico pois há várias obras na literatura e no cinema que  abordam o assunto como O doente imaginário"  de Moliére ,"Hannah e suas irmãs"  de Woody Allen e Supercondríaco. Por que vemos de modo caricato e com humor? Por que rir é o melhor remédio?

 

Antes peço desculpas por trazer o humor mas falo com o respeito de quem vivencia isso com um familiar muito próximo e já experimentou todo o tipo de sentimento a respeito. Talvez o humor apareça quando imaginamos um jogo de esconde-esconde onde vemos alguém correndo em círculos, sem olhos para mais nada, debaixo de todos aqueles papéis de pedidos e resultados de exames. Imagino uma cena chapliniana, sem cor, acelerada, afobação e um cachorro que observa com o canto do olho esperando ver aonde aquilo vai parar.

 

Sabemos que o corpo não se resume apenas ao que é orgânico, antes de mais nada corpo e psique estão intrinsecamente ligados através da conexão entre estímulos emocionais e alterações fisiológicas, e toda a doença é uma forma que a psique tem para expressar-se.

 

Mas o que pode estar por trás desse sofrimento?

 

Alguns dos olhares sobre o assunto dizem que parece que a patologia seria uma dificuldade de simbolização por isso se externaliza nas sensações corporais que são vistas apenas como um conjunto de órgãos e funções. Pode ser uma dor psíquica resultante de uma ansiedade que sendo interiormente insuportável não é revelada e se mantém como angústia sem lugar, sem nome nem forma. Pode ser também que a criança não tenha recebido estímulos sensoriais como envolvência afetiva o suficiente e que ganhariam autonomia própria como objetos estranhos, no interior do corpo. Ou seria uma forma de, na ausência do olhar narcísico de espelhamento inicial pela mãe, refazer esse olhar através de si mesmo ou através do outro provocando uma maternagem compulsória. Ou recorrer ao corpo como um apelo para garantir sua sobrevivência ameaçada. No caso de ter vivenciado um luto precoce, traz a necessidade de cuidar-se excessivamente, assim evita causar o sofrimento pelo qual passou, aos que ficam. E no caso de profissionais de saúde, que reagindo ao ambiente cuja rotina é a doença, passam a incorporá-la ou temê-la.

 

Nos seminários sobre Nietzsche, (GRODDECK in RAMOS, 2006 apud SPACCAQUERCHE 2010), Jung afirma que o inconsciente só pode ser experimentado no corpo e que este é exclusivamente a manifestação externa do self.

 

O objetivo do sofrimento sempre é a ampliação da consciência através de um chamado que visa promover um caminho para a cura. Esse chamado ameaça o ego que sob pressão se desarmoniza e quer parar de sofrer; mas o objetivo não deveria ser a remoção do sofrimento e sim passar através dele.

 

Mas isso é o que normalmente nãfazemos pois vivemos de escapes, distraídos e com isso desperdiçamos oportunidades de ritualizar e simbolizar etapas importantes da vida como os constantes lutos, para os quais nem sempre olhamos com profundidade. Se os processos de evolução, que se dão em vários níveis, são depreciados; chegará o momento em que apenas um morrer simbólico urgente dará conta de resgatar o caminho da alma.  E falar da experiência de morte equivale também a falar da etapa alquímica da mortificatio ou “putrefatio”, que é a projeção de uma imagem psicológica, no caso a sombra.

 

Paracelso diz: 

 

A putrefação tem tamanha eficácia que anula a velha natureza, transmuta todas as coisas numa nova natureza, e gera outro fruto novo. Todas as coisas vivas nela morrem, todas as coisas mortas decaem, e depois todas essas coisas mortas, recuperam a vida.(EDINGER, 2006,pg. 167)

 

 

Sem dúvida, suposições ampliam o pensar sobre o assunto, mas aqui me atenho ao medo de morrer, de sucumbir, de ser engolido por Hades, afinal tudo o que foi dito acima resume-se ao medo da morte e as formas de evitá-la. Ou medo da alma? Pois talvez o medo de encarar a própria alma e nosso descompromisso com ela, seja ainda maior do que a própria morte.

 

A ideia de morte é uma das mais aterradoras sensações humanas e como não encontra maneira de expressar isso, muitas vezes o corpo acaba sendo uma possível via de descarga para o sofrimento. É pelo corpo que  percebemos o mundo e pelas sensações que experimentamos a vida, mas na ausência de sensações, na inatividade corporal percebemos a morte e pode ser uma alternativa inconsciente fazer esse corpo dar sinais para dizer que está bem vivo, e a maneira de fazê-lo é pela dor.

 

 

Se o ego consciente se mostra identificado unilateralmente com a luz, com a saúde, o negrume de acordo com a lei dos opostos e de modo a compensar a unilateralidade, pode aparecer no corpo, que pode ser uma tela para a sombra negada.

 

O que vem do inconsciente e do corpo é frequentemente depreciado e desprezado[… ]Não gostamos de olhar nosso lado sombrio e por isso há pessoas que perdem inteiramente sua sombra[] e com ela em geral perdem  o corpo, que é um amigo duvidoso, pois produz coisas que não apreciamos, tal qual um esqueleto no armário de que todos querem se livrar”. (SPACCAQUERCHE, pg113)

 

 

Temos duas opções:  viver no medo de uma pretensa ameaça de morte ou mergulhar na morte simbólica e olhar para o que está para além dela, afinal essa experiência é requisito para a vida psíquica. É no olhar teleológico em busca da finalidade, que podemos entender os porquês desse comportamento e dessas dores.  Por que e para que vivo em busca da saúde? Que parte de mim não aceita adoecer? Que parte de mim não aceita morrer? O que essa dor quer de mim agora?

 

Depois desse mergulho terrível nessas águas podres, sair da mortificatio e subir para os próximos degraus através do negrume que é a própria sombra, aquilo que é repulsivo em nós mas é justamente o que leva à redenção. Erdinger (2006) diz que explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigências de poder devem submeter-se à mortificado para que a libido emaranhada em formas infantis e primitivas se transforme.

 

Sem transformação ficamos estagnados, perdemos o presente que a ferida física ou psíquica proporciona que é encontrar o sentido da própria vida, uma vez que Jung (SPACCAQUERCHE, 2010, pg 110) já dizia que a meta da vida não é a felicidade mas o significado.

 

A doença parece estar entre os principais efeitos que ajudam a revelar o mito pessoal. É singular a cada indivíduo e pode levá-lo na direção daquilo tudo que lhe é afim e a sua própria experiência de destino.(SPACCAQUERCHE, 2010 apud ROTHEMBERG 2004, pg.111)

 

Pode ser que a dor seja justamente a única possibilidade de entrar em contato com uma parte saudável e viva dentro de si. 

 

A doença é um aspecto do self que se torna manifesto no corpo e traz para o sofrimento uma luminosidade, um espírito vivo ali expresso. No entanto, tal processo pode não ser apenas de tormentas, mas também de uma felicidade secreta pela reconciliação com a solidão do processo, pois na comunhão com si-mesmo encontra-se, não tédio e melancolia, mas um parceiro íntimo, como a felicidade de um amor secreto. (SPACCAQUERCHE apud JUNG, 2010, pg.112)

 

O sofrimento do hipocondríaco ganha sentido quando ao permitir-se morrerevita o sofrimento maior do não sentido, que é o que está acontecendo enquanto não descobre o que, não só  o corpo precisa para estar bem, mas o que sua alma realmente necessita pois

 

“É inútil superar o medo de uma doença quando é o próprio medo que deve ser erradicado (2010)

 

Nem sempre é possível curar mas é importante lembrar que curar significa interpretar corretamente o que esta totalidade está tentando expressar através dos sintomas e ensinar-lhe um modo menos doloroso de autoexpressão.

 

 

Se na A

ntiguidade a crença era de que a melancolia se dava através dos vapores que causavam sentimentos mórbidos, e essa crença já não vale mais, talvez interesse refletir sobre a possibilidade de crer em ainda absorver esse vapor mas não como gás venenoso, mas como sopro divino que dá a vida,  que a fé preencha todos os espaços internos e que a vida se faça como deve se fazer.

 

Delegamos ao médico uma responsabilidade que também é nossa, por isso,  antes mesmo de o médico do corpo chegar, é preciso chamar o filósofo interior pois

 

“Não há remédio que cure o que a felicidade não cura”.

Gabriel García Márquez

 

 

Ingrid Hermann

Analista em formação pelo Ijep.

Contatos: 11. 98352-6118 - [email protected]

Referências

 

EDINGER, Edward F. Anatomia da psique, pg 166,167, 178. 1ª Ed. Ed Pensamento-Cultrix Ltda. 2006. São Paulo.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. pg 323. Ed. ABP. 2ª edição. 2008. São Paulo.

JUNG, Carl Gustav. Suicídio e Alma, pg 91. Petrópolis: Vozes, 1993.

SPACCAQUERCHE, Maria Elci. Encontros de psicologia analítica.pg 110,112,113, 219, 222. 2ed. 2ª ed. 2010. Ed. Vozes. São Paulo.


Ingrid Hermann - 14/07/2020