HOMEOPATIA E PSICOLOGIA JUNGUIANA

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Um encontro para favorecer os caminhos de uma clínica integral

 Pedro Carlos Carneiro*

A homeopatia clássica compreende o cuidado com o ser humano dentro de uma abordagem holística onde, independente da localização das queixas do paciente, ele será sempre escutado de forma psicossomática como parte da técnica da anamnese homeopática. Fala-se na homeopatia de pessoas que não apenas são portadores de doenças, mas de desejos, singularidades e aspirações de emancipação para cuidar de si mesmo e, numa visão junguiana, ir ao encontro de sua individuação.

A perspectiva de uma clínica integral que possa unir conceitos de uma prática médica, no caso a homeopatia, com outra psicoterápica, que no nosso texto se concentra na psicoterapia junguiana, é uma tentativa de superar o paradigma atual que no lado da medicina prioriza aspectos anatômicos e fisiológicos e no das teorias psicoterápicas, o psicológico.

Esta abordagem mais integral em saúde faz com que se desloque o entendimento do paciente como um simples portador de doenças para a compreensão histórica do adoecimento do mesmo, compartilhando responsabilidades e riscos dos diferentes aspectos ligados a sua vida.

Uma visão do profissional de saúde, priorizando sua análise clínica para apenas aspectos anatômicos e fisiológicos, restringe a pessoa ao normativo referenciado apenas pela dimensão biológica, sendo seus cuidados regidos e reduzidos a este contexto.

Para ampliar este olhar, são importantes as contribuições de Canguilhem (2006) em sua crítica a uma clínica que dissocia os órgãos da estrutura total ou do comportamento do conjunto do organismo. Este autor, que vê a clínica como algo não apenas científico, mas como algo relacionado ao cotidiano da vida do paciente e com seus conflitos com o meio, afirma que não podemos resumir a clínica a uma técnica científica, ainda que essa seja útil nos tratamentos.

Integração

Por outro lado, a perspectiva de intervenção concreta de forma psicossomática tem na psicologia junguiana um conceito chave que é o de sincronicidade na integração mente e corpo, tema este abordado por Denise Ramos no seu livro "Psique e Corpo" (1994). O conceito de sincronicidade  refere-se à existência de dois ou mais fenômenos ocorrendo ao mesmo tempo, sem relação de causa e efeito entre si, mas com relação de significado. Ramos comenta ainda que "toda e qualquer doença tem expressão no corpo e na psique simultaneamente. O que leva o paciente a procurar um médico ou psicólogo nos nossos dias é o grau de sofrimento em uma polaridade". (Ramos,1994.pg.54)

Podemos ver então semelhanças entre uma concepção de uma "psicossomática" junguiana e a visão homeopática a qual percebe a doença como um desequilíbrio mente e corpo e, por isto, toda sua investigação vai ao sentido de perceber sintomas físicos e mentais, mesmo que a doença tenha aspectos dominantes numa polaridade ou em outra.

A medicina tem, a partir da segunda metade do século passado, se afastado de sua vocação humanista, principalmente pela predominância de uma corrente chamada de medicina do modelo biomédico, na qual as doenças são entendidas a partir de uma etiologia centrada apenas nas alterações anatômicas e fisiológicas, também chamada de linha organicista.

Recentemente, vários autores têm colocado alternativas a este modelo hegemônico ressurgindo teorias atuais de características psicossomáticas e, por que não dizer; integrais.

Madel Luz (2007), uma das autoras que aborda práticas integrativas que supera a dicotomia corpo-mente como Homeopatia, Acupuntura, entre outras, comenta que "há um crescimento progressivo, nos últimos quarenta anos, de concepções e teorias psicossociais do adoecimento no interior da própria medicina contemporânea. Este crescimento pode manifestar uma busca de superação da clássica dicotomia corpo e mente da cultura ocidental".(Luz,2007,p.76)

Além disso, as contribuições reais do modelo biomédico têm sido questionadas por autores contemporâneos como Fritjof Capra (2006) que comenta que "as investigações biomédicas, embora extremamente úteis em emergência individuais, têm muito pouco efeito sobre a saúde das populações inteiras. A saúde das populações é extremamente determinada, não por intervenção médica, mas pelo comportamento, pela alimentação e pela natureza de seu meio a" (Capra,2006,p.131)

Princípios básicos da Homeopatia

A homeopatia é uma especialidade médica que tem características que diferem da medicina convencional no aspecto semiológico, pois sua abordagem não é centrada na doença, mas, para além dos sinais e sintomas que são pesquisados pelo médico homeopata, existe a tentativa de individualizar tais sintomas, buscando a singularidade das pessoas.

Como princípio fundamental, a homeopatia tem a lei dos semelhantes como base para o uso de seus medicamentos. Este princípio é uma máxima citada há 2500 anos por Hipócrates, conhecido como pai da medicina (da raiz grega homois = semelhante; pathos = doença).

Na medicina homeopática, o uso deste princípio consiste em utilizar um medicamento que, aplicado em uma pessoa sã sob experimentação, a mesma manifeste os mesmos sintomas apresentados pelo doente. Em linhas gerais, sintomas de uma doença são medicados pelo homeopata com um medicamento que provoque estes mesmos sintomas.

Não é apenas a homeopatia que se utiliza do princípio dos semelhantes. A medicina tradicional também usa esta lógica quando empregam soros e vacinas, um exemplo é o soro antiofídico, onde o veneno da cobra após ser injetado em um cavalo, o organismo deste animal vai produzir uma reação a este veneno, da qual será produzido o soro. Este soro será aplicado em uma pessoa que sofreu uma picada de jararaca, ou seja, do veneno surge a cura para tratar a doença causada por outro veneno, portanto, segue o "princípio de semelhança".

Outro exemplo, na medicina atual dos psicofármacos é o uso da Ritalina para os Transtornos de Hiperatividade e Déficit de atenção. Se considerarmos que uma pessoa sã que ingere Ritalina fica hiperativo e com a sua atenção comprometida então, encontramos também na prescrição da Ritalina a utilização do "princípio ou lei dos semelhantes".

Uma psicossomática na Psicologia Analítica

Ao se falar em psicossomática dentro de uma visão junguiana (também chamada de Psicologia Analítica), temos que, primeiramente, abordar os conceitos de Jung sobre a libido. Uma das discordâncias de Jung para Freud foi quando substituiu o conceito de energia libidinal por energia vital ou geral.

Para Jung (1961), a psicologia, como na física, deveria ter uma visão unitária básica de energia como comentou em seu livro "Memórias, Sonhos, Reflexões": "Considero, por exemplo, os impulsos humanos como formas sob as quais se manifestam os processos energéticos, e, portanto, como forças análogas ao calor, à luz, etc. Da mesma forma que não ocorreria a qualquer físico contemporâneo colocar apenas no calor a origem de todos os impulsos energéticos, da mesma forma seria pouco admissível em psicologia fazer decorrer todos estes impulsos apenas do conceito de poder ou da sexualidade". (Jung,1961,p.184)

Com esta afirmação acima, Jung amplia o conceito de energia libidinal de Freud para uma energia que sofre influência de vários impulsos do ser humano, interno e externos, sendo os internos influenciados por uma energia vital, psicossomática, sempre integrada corroborando para uma visão de clínica integral.

Sem dúvida o objeto de uma psicoterapia Junguiana é sempre o doente e não sua doença. Uma pessoa com uma neurose, por exemplo, não apenas os sintomas neuróticos seriam foco do psicoterapeuta, mas a pessoa como um todo.

Jung (2011), tentando descrever o foco da psicologia analítica comenta: "a psicoterapia, sobretudo sabe, ou pelo menos deveria sabê-lo há muito tempo - que seu objeto não é a ficção da neurose, mas a integridade perturbada de uma pessoa humana".(Jung,2011,p.104)

Outro aspecto da teoria junguiana que vai ao encontro de uma visão integral é os tipos junguianos. Esses tipos são baseados no conceito de constituições que teriam funcionamento que agrupariam características externas ou comportamentos psíquicos comuns. Segundo Jung (2009) estas constituições são avaliadas a partir de um funcionamento global do indivíduo e sua pesquisa proporciona ao "psicoterapeuta um critério extremamente valioso com o qual ele pode eliminar ou incluir em seus cálculos o fator orgânico ao pesquisar o contexto psíquico". (Jung,2009,p.56)

Os estudos para comprovar as constituições segundo Whitmont (1989) são genéricos demais, mas, apontam para uma teoria de um padrão constitucional que funcionaria com reações onde todo fenômeno biológico teria um correlato psicológico. Portanto, para este autor o fator constitucional é uma das possibilidades de um olhar psicossomático dentro da psicologia junguiana. Para Jung (1977), um símbolo é "um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente ou convencional". (Jung,1977,p.20)

Denise Ramos (1994) refere que os sintomas de qualquer doença seriam "uma representação simbólica de uma desconexão ou perturbação no eixo ego-self, o qual pode ser corporal (doença orgânica) ou psíquico (doença mental).". Neste contexto, a doença poderia ser um símbolo de uma perturbação integral do organismo no sistema psicofísico indo numa direção contrária a visão cartesiana da separação mente e corpo. Esta "perturbação" ou doença apareceria sempre de forma psicossomática e sincronicamente, pois tanto o corpo físico como a psique é abalado simultaneamente, conscientemente ou não.

 

Neste sentido Ramos (1994) resume o valor do símbolo e do conceito de sincronicidade para psicossomática junguiana: "[...] sintetizando, o símbolo é a expressão do fenômeno psique-corpo, feita através da percepção das alterações fisiológicas e das imagens referentes, sincronicamente".(Ramos,1994,p.51)

Jung (1991) considera os complexos como entidades parciais, ou seja, "grupos autônomos de associações, com tendência a movimento próprio, e vida independentemente de nossa intenção"(Jung,1991,p.67).Eles podem aparecer como uma personificação patológica com alterações no nível fisiológico e psicológico sincronicamente.                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Portanto, alterações tanto fisiológicas como psicológicas podem ser observadas pelo psicoterapeuta junguiano como produto simbólico de uma mesma fonte: os complexos.

Cabe então ao psicoterapeuta não apenas diagnosticar os sintomas, mas, como comenta Jung, "o diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença"(Jung,2011,p.102). Estas reflexões colocam psicoterapia junguiana numa perspectiva de clínica integral psicossomática que vê o homem sempre como um todo e não apenas focada na doença.

Ao falarmos sobre as semelhanças de concepção entre a Homeopatia e a Psicologia Analítica dentro do contexto de uma clínica integral, nos parece importante iniciar nossos comentários pela posição do inventor da homeopatia, Samuel Hahnemann sobre a doença.

Samuel Hahnemann (1989), já expunha a importância da observação dos sintomas mentais no processo de cura pela Homeopatia referindo que: "jamais poderemos curar de acordo com a natureza, isto é, homeopaticamente, se não observarmos, em cada caso de doença, mesmo nas agudas, juntamente com outros sintomas, os relativos às mudanças do estado mental". (Hahnemann,1989,p.108).

Hahnamann (1989) já expressava naquela época uma visão de medicina que teria características de uma clínica integral, considerando além dos sintomas físicos da doença, seus sintomas mentais. Da mesma forma Jung (2011), falando sobre seu entendimento de uma medicina generalista comenta: "Provavelmente, a medicina geral também sabe que não existem apenas doenças, mas pessoas doentes". (Jung,2011,p.104)

Esta concepção em comum com relação ao ver sempre a pessoa como um todo integrado nos parece fundamental para colocarmos semelhanças entre alguns conceitos de Homeopatia e da Psicologia Junguiana, dentro de uma visão psicossomática.

Whitmont (1989) comenta sobre as relações psicossomáticas através do conceito de algo chamado de: "campo do significado", o qual seria inerente às ocorrências sincronísticas e que se manifesta somente através dos objetos aos quais afeta e os quais, cada um na sua maneira própria e característica, dão-lhe expressão. Este campo poderia ser uma forma simbólica de expressar a relação psique e o corpo que se relacionariam pelo princípio de sincronicidade. Ainda segundo Whitmont, este campo poderia ser semelhante as "qualidades conhecidas do medicamento (homeopático), tais como a constitucional, mental, fisiológica, química, etc.."(Whitmont, 1989, p. 84).

Portanto, segundo este autor, podemos inferir que cada medicamento homeopático equivale sincronisticamente a padrões psicossomáticos que se manifestam parcialmente a um determinado campo de significados. E que talvez, este mesmo campo, poderia ser a energia gerada através dos complexos psicossomáticos considerados fonte primária das doenças por Jung (2011).

Da mesma forma, poderíamos fazer paralelos conceituais entre a totalidade sintomática, encontrada pelo diagnóstico homeopático e, estes padrões psicossomáticos manifestados por este campo de significados proposto por Whitmont. As constituições homeopáticas (padrões psicossomáticos descritos nas matérias médicas Homeopáticas) também guardam semelhanças com alguns tipos relacionados por Jung. Na homeopatia as constituições homeopáticas também são tipos que tem funcionamento psicossomático peculiar e ajudam na procura do diagnóstico do medicamento mais apropriado para a singularidade mental e física do sujeito.

Outro fator de confluência teórica entre estas duas clínicas são os sonhos. O homeopata pesquisa os sonhos para associar a temática dos mesmos com a de alguns medicamentos. Magaldi (2000) refere que os sonhos são de extrema utilidade para guiar os homeopatas e considera que os mesmos "tenha igual valor aos sintomas físicos e emocionais". Este autor também acrescenta que os homeopatas podem usar os sonhos para observar a evolução do paciente em relação ao efeito do medicamento homeopático de forma nítida, percebendo através dele sua interferência na dinâmica do paciente.

Jung (1977) fazia associações entre as imagens oníricas e as expressões da mente primitiva, estas associações seriam uma ponte para determinadas "imagens simbólicas", que seriam produzidas por "tendências instintivas", as quais ele chamou de Arquétipos. Para Jung, os sonhos também revelam conteúdos importantes no processo da psicoterapia analítica.

Portanto, tanto o homeopata como o psicoterapeuta na linha da psicologia analítica podem encontrar semelhanças nestas duas áreas de atuação, pois estas duas práticas trabalham com um conceito de visão integral da pessoa e também com um entendimento de que o mental e o físico se relacionam de forma contínua e inseparável.

Estas conexões entre estas duas práticas podem ser potencializadoras de um trabalho conjunto entre clínicos e pesquisadores destas áreas, como afirma Whitmont (1989) em seu livro "Psique e Substância": "O psicólogo moderno, limitado no seu entendimento pelos conceitos habituais da química e da medicina, conhece ainda muito pouco a respeito das tendências dinâmicas das substâncias no que se refere a sua constituição, personalidade e psique, da mesma forma que o homeopata conhece pouco sobre a psicologia profunda. No entanto, juntando a experiência destas duas áreas, pode-se obter uma compreensão mais ampla do "campo do significado", isto é, da sincronicidade psicossomática.". (Whitmont,1989,p.86).

* Pedro Carlos Carneiro é médico com especialização em Psiquiatria, Homeopatia e Psicologia Junguiana, além de Mestre em Saúde Coletiva pela UNIFESP e professor dos curso de pós-graduação do IJEP- Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Referências bibliográficas

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Pedro Carlos Carneiro - 19/03/2019