LIVRE ARBÍTRIO OU DESTINO?

Livre arbítrio ou destino? destino, daimon, individuação

Acho fascinante as biografias. Penso na história que cada um vem a esse mundo vivenciar. Por que é essa a vida que se tem? Essa família? Esse país? Me vem à mente a imagem das Moiras, as três irmãs, fabricando, tecendo e cortando o fio da vida de cada ser que desce à Terra.

 

Cloto, deusa dos nascimentos e partos, segura o fuso e tece o fio da vida

Laquesis sorteia o quinhão de atribuições que se ganhará em vida.

Átropos corta e determina o fim da vida.

 

Durante o trabalho, as moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para tecer os fios. As voltas da roda posicionam o fio do indivíduo em sua parte mais privilegiada (o topo) ou em sua parte menos desejável (o fundo), explicando-se assim os períodos de boa ou má sorte de todos. 

 

Recentemente ao assistir o filme que narra a história do cantor Elton John,  do qual sou fã, me peguei pensando nas moiras e, a partir disso, também relembrando o livro O código do Ser”,  de James Hillman, que trata justamente dessa ideia de que há algo, em algum lugar, que em algum momento se colocou a fiar o fio da vida de cada um de nóe que não estamos aqui meramente como resultado de um acidente qualquer, mas que fomos chamados para um papel que escolhemos atuar. 

 

Hillman utiliza-se do conceito de daimon, segundo o qual cada pessoa entra nesse mundo tendo sido chamada. Isso tem como base uma ideia antiga, que vem de Platão, no mito de Er, presente na República.."

 

O mito traz a ideia de "daimōn" ("espírito"). 

Daimon para gregos, genius para romanos, anjo da guarda para cristãos, corpo imaginal (ochema) que levava a pessoa como um veículo para neoplatônicos. Essa imagem da alma é difundida em todas as culturas.

 

Segundo o mito, a alma recebe um “genio” único antes de nascer, que escolhe uma imagem ou padrão a ser vivido na terra. Daimon que nos guia, mas que ao chegarmos aqui, esquecemos através da passagem pelo Rio Lete e achamos que chegamos vazios a esse mundo. O daimon nos acompanha para nos lembrar do que está nessa “imagem, o que ela é e, por isso, é o portador do destino.

 

Apenas para ilustrar, há um filósofo estóico, Plotino, que diz inclusive que escolhemos o corpo, os pais, o lugar e as circunstâncias que serviriam a alma. 

 

O filme de Elton me fez pensar nessa relação de nossa vida como um emaranhado de escolhas juntamente com acontecimentos predeterminados como essa ideia de que as moiras de antemão já prepararam uma parte do que nos cabe, contemplando a fala de Hillman.

 

A ideia central desse autor é que há um chamado que se vem vivenciar e que cedo ou tarde  na vida, alguma coisa parece levar para um caminho específico. 

 

Os avisos” dessa divindade agem de várias maneiras. O daimon motiva, protege, persiste com obstinada fidelidade. Não costuma ceder ao bom senso e muitas vezes faz seu portador agir de forma  que foge às regras, especialmente quando negligenciado ou contrariado. Pode também  surgir como desvios de curso que você segue sem saber porque.

 

Às vezes o chamado é categórico como um fascínio que se traz da infância, ou uma reviravolta qualquer na vida traz algo como : “É isso que devo fazer, é isso que quero ser”.

 

Para alguns, os primeiros sinais surgem logo cedo. Ver Elton sentadinho no piano lá com seus 6 anos de idade e sua avó lançando sobre ele aquele olhar confiante e generoso de quem reconhece que há algo diferente ali, é emocionante. Os pais são alienados e distantes.

 

Será que Elton seria Elton se tivesse tido outros pais? Será que teria feito as pérolas que fez? O que faz alguém viver um chamado, uma vocação?

 

Bem, o autor diz que a criança de repente, em determinado momento mostra quem é, a que veio, o que quer fazer. Mas esses impulsos do destino podem ser abafados por uma má percepção ou falta de receptividade do ambiente onde o chamado aparece como sintoma de criança difícil, hiperativa.

 

Hillman dá exemplos como o do filósofo Collingwoog, que aos 8 anos pegou um livro do pai sobre Kant e não entendeu nada, mas percebeu que aquilo dizia respeito a ele. O menino sentiu que um véu foi erguido e seu destino revelado.O pai forneceu os livros mas o daimon escolheu esse pai e a curiosidadedo daimon pegou aquele livro. A indignação” do menino era parte da sua inadequação. Parte dele não podia entender o texto outra parte não era apenas uma criança de 8 anos..

 

Em outro exemplo, conta sobre o violinista Yehudi Menuhin que em uma das apresentações  que assistia com os pais, aos 4 anos, pediu um violino e aulas com um famoso violinista mas quando ganhou um violino de brinquedo, atirou-o no chão e nem quis saber dele. Yehudi recusava-se a ser tratado como criança, o daimon ficou intolerante nesse encarceramento no corpo de uma criança não desenvolvida. A intolerância é uma característica comum em crianças em que o daimon se faz ouvir claramente.

 

Conta também sobre a história de Josephine Baker, mulher fascinante e extravagante,  que aos 19 anos já enlouquecia a todos dançando. Nasceu tão pobre que dormia no chão com o cachorro. Trabalhava e a patroa lhe batia e a deixava andar nua porque  roupa custava caro. Ainda criança foi penhorada para trabalhar e dormir com um velho. Numa época em que 3 a cada 5 crianças morriam antes dos 3 anos, ela já dançava no porão onde armou um palco e batia nas crianças para prestarem atenção na sua apresentação. Ficava o tempo todo assistindo apresentações de boates e cabarés locais. Ou seja, de novo um daimon agindo através da criança, mostrando que já sabe o que veio fazer aqui e se recusa a ser tratado como tal.

 

Esses exemplos de artistas que se destacaram, descritos com os fatos biográficos citados acima, podem levar a pensar que os chamados do daimon são fáceis de se identificar. Nem sempre o chamado é evidente, o que pode promover uma falta de sentido de vida. Noto muitas pessoas vivendo na incerteza de que caminho seguir e  pedindo um sinal que lhes mostre com mais clareza que direção tomar.

 

Mas mesmo estes artistas que citei e que se destacaram, muito provavelmente  em algum momento da vida, passaram por incertezas quanto a trilha que estavam escolhendo. Há inúmeros casos assim. Barack Obama servia sorvete na Baskin-Robbins, uma sorveteria americana. Ele pareceu não gostar muito da experiência e disse que servir sorvete é mais difícil do que se imagina, principalmente para os pulsos. Madonna trabalhava no Dunkin Donuts na Times Square, em Nova York. Foi demitida depois de espirrar geleia em um cliente. George Clooney trabalhou como vendedor de seguros de porta em porta.

 

Cada pessoa tem uma biografia única e se não temos um sentido claro, podemos provocá-lo, abrir caminhos para que ele se manifeste, estar atento para os sinais que a vida está sempre enviando; por isso é preciso prestar atenção ao que toca, ao que afeta, aos sentimentos. Então como encontrar esse fio condutor de minha história? 

 

Bem, os antigos situavam a alma em volta do coração, que continha a imagem de seu destino e convocava para esse destino. Então parece que é possível se reconectar com o daimon primeiramente dando o primeiro passo, se abrindo para entrar em conexão com ele através do coração. 

 

Seria importante facilitamos sua manifestação o autor diz pois

 

Quanto mais minha vida for explicada pelo que já ocorreu em meus cromossomos, pelo que meus pais fizeram ou deixaram de fazer e pelos anos da minha infância, tanto mais minha biografia será a história de uma vítima. Estou vivendo uma trama escrita por um código genético, uma ascendência, acontecimentos traumáticos, pela inconsciência de meus pais, por acidentes da sociedade. A ideia de que sou efeito entre hereditariedade e forças da sociedade me reduz a um resultado.” 

 

Junto às exigências do daimon, se misturam os complexos e outros arquétipos dos quais é preciso dar conta e naturalmente ouvir e separar tudo isso não é nada fácil.  O daimon se disfarça atrás, através dos complexos, de uma timidez, de uma aversão, ele pode retardar o processo de se manifestar preparando o conteúdo de interesses do sujeito até o momento certo e ele pode também manifestar aparentes obsessões” que nos apressamos em inibir.

 

Jung próprio experimentou a força desse anjo/ demônio

 

Conheci todas as dificuldades possíveis para me afirmar, sustentando meus pensamentos. Havia em mim um daimon que, em última instância, era sempre o que decidia. Ele me dominava, me ultrapassava e quando tomava conta de mim, eu desprezava as atitudes convencionais. Jamais podia deter-me no que obtinha. Precisava continuar, na tentativa de atingir minha visão. Como naturalmente meus contemporâneos não a viam, só podiam constatar que eu prosseguia sem me deter. [...] como toda personalidade criadora, não era livre, mas tomada e impelida pelo demônio interior. [...] A falta de liberdade causava-me grande tristeza.[...] Entretanto, o daimon urde as coisas de tal modo que é possível escapar à inconsequência abençoada e, em oposição à flagrante infidelidade, permaneço totalmente fiel.[...] O demônio interior e o elemento criador, se impuseram a mim de forma absoluta e brutal. (JUNG, p.308)

 

 

A toda essa teoria, Hillman deu o nome de “ fruto do carvalho” onde sugere que cada um de nós é dotado de uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes de poder ser vivida . Ele cita vários casos de pessoas que foram sendo guiadas por “vozes” que as levaram a chegar naquilo para o qual nasceram. E essa é a própria ideia do processo de  individuação, trazido primeiramente por Jung,  onde cada um traz a semente daquilo  que pode ser e dependendo das condições de solo e ambiente a semente se transformará numa árvore mas,  cada àrvore à sua maneira. A questão, acredito que é fundamental pensar, não é ser a àrvore maior, mais forte, mais famosa ou mais bela, a questão é ser a àrvore que veio ser e se colocar à disposição da vida sendo um canal para que o self individual se expresse em toda a sua potencialidade e beleza. 

 

Abrindo um paralelo sobre o processo de individuação, Joanna de Ângelis, diz                                    

Cada ser encontra sua própria rota, que deve seguir, trabalhando-se sempre, sem culpa, sem ansiedade, sem receios injustificáveis, sem conflitos responsáveis por remorsos. Esse processo pode durar toda a existência, o que é muito saudável, porque o ser se descobre em constante renovação para melhor, liberando-se das cargas negativas que lhe ditavam as reações e lhe produziam problemas em forma de distúrbios íntimos, afetando-lhe a conduta.” 

 

Palavras essas como sem culpa”, “sem ansiedade” são importantes pois somos engolidos diariamente por esses sentimentos, sem contar o fato de nos compararmos constantemente, o que nos faz perder a identidade prejudicando  o crescimento psicológico. Não vivemos para nos tornarmos cada vez mais eficientes e sim para nos tornarmos cada vez mais vivos.

 

Por isso, através de uma visão mais realista de si próprio, mais compassiva, aceitando-se, perdoando-se e também reconhecendo o que possui de mais aversivo,  é possível ouvir esse chamado fundamental que imbui o homem de sentido e que para Jung é a própria manifestação do si-mesmo, ou seja, a realização desse daimon divino no homem, porque, como ele mesmo diz

 

O homem que considera sem significado sua própria vida e a de seus semelhantes não apenas é infeliz, mas é quase incapaz de viver.

 

                       

Hillman, James. O Código do Ser

Jaffé, Aniela. O mito do significado - Na obra de Jung

JUNG, Memórias, Sonhos e Reflexões (pg 308-309)

 

 

Ingrid Hermann

Membro Analista em formação

Atendimentos em Santana e Vila Madalena

tel. 11. 9. 8352-6118

 

 

 

                                                          

                       

 

 

 


Ingrid Hermann - 28/03/2020