MATERNIDADE NA PANDEMIA: ASPECTOS DE UMA NOVA ROTINA?

Maternidade na pandemia: aspectos de uma nova rotina? maternidade

Meses após o início da pandemia, quando as recomendações por isolamento social se tornaram prementes, vive-se um processo de adaptação ao que se passou a chamar de “novo normal”. Diante de tantas adaptações de rotina que se fizeram necessárias, a que se refere à rotina das diversas mães ao redor do mundo ainda suscita reflexões e debates.

Lamentavelmente, a cultura tergiversa com interesses próprios o devir de nossas funções, levando-nos a confundir a especificidade do “ser maternal” com o significado abarcador do “ser mulher” e até mesmo do “ser feminina”, como se fossem a mesma coisa. Mas não o são. [...]. Quando construímos nossa identidade confundindo ser mãe com ser mulher, torna-se intolerável defender um interesse pessoal, uma vez que o amor maternal é incondicional e altruísta. (GUTMAN, 2014, p. 303-304)

 

Se antes, as sobreposições de papéis a serem desempenhadas pelas mulheres na dinâmica doméstica já gerava desconforto, com a pandemia, a demanda por engajamento em múltiplas atividades, ao mesmo tempo, provocou uma queixa coletiva: grande parte das mães alegam um cansaço excessivo com a sobrecarga de afazeres, além da fadiga física e mental que isso ocasiona.

Aquele que é sensível não pode mais sobrecarregar com o peso enorme de significados, responsabilidades e missão no céu e na terra a criatura fraca e falível, digna de amor, de consideração, de compreensão, de perdão que foi nossa mãe (JUNG, 2002, p. 101).

 

            Com o trabalho remoto e o cuidado com os filhos, desafiou-se a Física e, agora, a necessidade parece ser a de estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Houve, ainda, a dificuldade em se adequar às regras exigidas para um bom funcionamento diário de prevenção contra a covid19. Com a sobrecarga, algumas mulheres passaram finalmente a verbalizar que a distribuição de tarefas dentro de casa – como cuidar da limpeza e dos filhos – costuma ser mal distribuída entre os moradores da casa, principalmente na conjugalidade. Ponderou-se, até mesmo, sobre a estirpe de “cuidadora” atribuída às mulheres pela sociedade, ao longo de décadas. É um questionamento complexo, porque “ainda que não se nasça ‘mulher’, tornar-se mulher parece ser um exercício plural e multifacetado” (NOGUEIRA, 2018, p. 13).

Ao olhar tais demandas desiguais e toda a fadiga observada na clínica, tornou-se imprescindível reavaliar essa sobrecarga de papeis atribuídos à mulher-mãe, dentro das dinâmicas domésticas.

A mãe destina toda a sua energia aos cuidados da criança. Não lhe sobra nada, pois a criação de seu pequeno filho consome toda sua energia. Perde sua identidade, seus espaços de referência, às vezes seu trabalho, seu tempo de lazer, algumas amizades, sua liberdade pessoal. Sente-se esgotada, mas, acostumada a cuidar sozinha de seu campo emocional, não lhe ocorre pedir ajuda nesse sentido. Sempre autoabasteceu seu equilíbrio afetivo, mas agora, encontra-se à beira do abismo. (GUTMAN, 2014, p.151)

 

Com a pandemia, caberia avaliar quem são os responsáveis pelas demandas de funcionamento da casa, tendo em vista a hiperconvivência forçada, a eventual necessidade dos próprios moradores cuidarem da limpeza da casa e da suspensão das visitas das crianças à casa dos avós ou à escola.

Submetidas às intempéries psíquicas geradas pela pandemia, tornou-se impraticável manter a distribuição desigual dos afazeres, o que repercutiu em desentendimentos conjugais. Afinal, diante de tantas demandas, quem fica responsável por viver a vida dessa mulher assoberbada senão ela mesma? Instala-se, portanto, um desabastecimento emocional que amplia a condição de angústia e impotência, o que forma essa nova configuração.

Uma das primeiras sensações dessa angústia e impotência pode ter vindo com a impossibilidade de ir e vir, seguida pela convivência intensa com filhos, cônjuges e demais familiares dentro da casa. Depois, vieram os cuidados adicionais com esse espaço de convivência e tudo o que poderia representar risco de contágio. O maior impacto, no entanto, pode ter sido o escopo de atividades externas que tiveram de ser desenvolvidas no convívio íntimo, sem interação direta com outras pessoas. Para as mães, uma dessas atividades foi a interpenetração do espaço escolar na rotina da “alcova”. Vivenciar tal experiencia, de forma remota e virtual, gerou enorme desconforto.

Para mim, as vivências realizadas na educação infantil e na educação fundamental foram distintas. Em um determinado ponto, percebi a impossibilidade de seguir com o ensino remoto para meu filho pequeno, pois ele não conseguia ficar 30 minutos semanais em frente à tela com computador. Já com minha filha, que está no ensino fundamental, me vi ensinando matérias que realmente não domino, com insegurança, e vendo que teria que me reinventar nesse papel de mãe, pois agora não era apenas educadora, mas tinha que comparecer juntamente com ela nessas questões de conteúdo. (Relato de mãe de dois filhos, durante a pandemia)

A reflexão que esse momento histórico atual enseja já era problematizada por Jung, décadas atrás, em relação ao modelo de educação fornecido para as crianças, dissociado do contexto espacial e emocional dos educadores ou dos adultos que se propunham à transmissão dos chamados “conteúdos pedagógicos”.

Pelo contrário, as pessoas tendem mais do que nunca a educar apenas crianças. Por isso, eu suspeito que o “furor paedagogicus” seja um atalho bem-vindo que circunda o problema central tratado por Schiller, ou seja, a educação do educador. As crianças são educadas por aquilo que o adulto é, e não por suas palavras. A crença geral nas palavras é uma verdadeira doença da alma, pois uma tal superstição sempre afasta o homem cada vez mais de seus fundamentos, levando-o à identificação desastrosa da personalidade com o slogan em que acredita naquele momento. Enquanto isso, tudo o que foi superado e deixado para trás pelo chamado progresso resvala cada vez mais para dentro do inconsciente profundo, ocasionando a volta à condição primitiva da identificação com a massa. E este estado torna-se então realidade em lugar do progresso esperado (JUNG, 2002, §293).

Nesse lugar de desespero e inadequação, algumas mães passaram a rever a hierarquia da educação, quando se observaram nesse lugar de cuidadora que também precisa educar, sem haver tempo para qualquer autocuidado. A pandemia fez da casa um espaço multifacetado: escola, descanso, trabalho e refúgio. A mãe acabou sendo eleita como tutora de boa parte dessas atividades, não havendo tempo hábil para a revisão de tais demandas, que precisavam ser sanadas, associadas à responsabilidade por sobrevivência. A casa, em última instância, passou a ser o único cenário possível, lugar de ser, permanecer e funcionar.  

Ao desfigurar o espaço do lar para adaptá-lo às funções que antes eram desempenhadas no espaço público, a sensação é de que a casa excede seus limites e seus moradores abrem mão de alguns aspectos da privacidade.  A mulher que é mãe, nesse contexto, acaba ampliando as concessões, em prol do funcionamento emergencial do espaço conjunto, compartilhado.

Ao invés de jogar a culpa nos outros, no tempo, na escola e na pandemia, com a mente povoada de frases como “Ninguém conseguirá educar os outros, sem antes educar a si próprio” ou “Ninguém atingirá o amadurecimento pessoal sem a conscientização prévia”, fiquei muda e briguei internamente, durante alguns bons meses, tentando entender o que estava sendo exigido de mim e o que eu poderia fornecer para melhorar essa dinâmica de ser insuficiente como cuidadora, educadora e professora. Percebi como isso reverberava com as temáticas de autorresponsabilidade e impotência, frente ao que vivíamos coletivamente. (Relato de uma mãe durante a pandemia).

            De algum modo, a perturbação mental que atinge as mães, nesse período, parece dialogar com a psique dos filhos de forma incisiva, como costumeiramente já ocorre, mesmo sem o processo desenvolvido na pandemia.

É certo que somos tentados a considerar mormente as crianças esquisitas ou cabeçudas, as indóceis ou as difíceis de educar, como se fossem especialmente dotadas de individualidade ou de vontade própria. Mas é puro engano. Em tais casos deveríamos sempre examinar o ambiente doméstico e o relacionamento psíquico dos pais, e, nestes, quase sem exceção, haveríamos de encontrar as únicas e verdadeiras razões que explicassem as dificuldades dos filhos. O modo de ser perturbador dessas crianças é muito menos expressão do interior delas mesmas do que reflexo das influências perturbadoras dos pais. (JUNG, 2008, §107)

Tais conflitos internos, algumas vezes vivenciados juntos aos profissionais da educação, que permanecem remotamente tentando auxiliar o bom andamento dos trabalhos, somando frustrações, aumentam a tensão. As relações que precisam ser estabelecidas ganham novos contornos, sem que haja situações precedentes com contextos semelhantes. Perseguir o “novo normal” vira sinônimo de amparar e nutrir as crianças com conhecimentos, para tentar simular a vida que era vivida antes da pandemia. Mas a estratégia não prospera porque as crianças, consideradas vetores da covid19, se encontram desassistidas em suas próprias relações pessoais. Escolas vazias, casas cheias, sensação de impotência e mães exaustas são características desse novo normal. Mas em que lugar ficam reservadas as necessidades da alma?

Por mais importante que seja para o homem ganhar o seu sustento e, na medida do possível, fundar também sua família, contudo nada terá conseguido com isso se não realizar o sentido de sua vida. Nem ao menos estará capacitado para educar corretamente os filhos, descurando até o ideal inegável da biologia: o de cuidar da própria prole (JUNG, 2008, §159).

A expectativa de suprir as necessidades impostas pela pandemia provocou o colapso do ego: a certeza palpável de que não se tem o controle sobre nada. James Hollis (1995, p. 136) pontua a abrangência desse processo, quando diz que “um dos choques mais violentos [...] é o colapso do nosso contrato tácito com o universo – a suposição de que se agirmos corretamente, se nossas intenções forem boas e sinceras, as coisas darão certo. Na verdade, nós não estamos no controle da vida”.

As pessoas passaram a habitar intensamente suas casas, como se fossem espaços prisionais, reconhecendo o fantasma da finitude à espreita e comparando essa nova realidade à anterior, no início do ano, quando haviam desejos, vontades e expectativas de planos para 2020. Quantos foram realizados?

Imagina quando somos responsáveis por crianças que se tornarão indivíduos e tentamos manter o equilíbrio? É difícil tentar explicar que está tudo bem quando nós mesmos não estamos bem. E talvez a vida queira nos mostrar isso: que devemos ser sinceros conosco e priorizarmos as atividades possíveis nesse novo contexto, pois ninguém dá conta de tudo sozinho, não temos o controle de tudo, nem mesmo daquilo que nos é oferecido. Podemos mudar o olhar e rever nossas ações quando temos inteligência emocional para aceitar as condições que a vida nos sugere. (Relato de uma mãe em pandemia)

            Na pandemia, parece ter havido uma quebra da hierarquia costumeiramente observada nas escolas, porque o diálogo aluno-escola, intermediado pelos pais de perto, devido à conformidade espacial, deu maior protagonismo dos pais frente aos processos escolares e dos filhos-alunos diante dos pais que, no intuito de auxiliar nas aulas remotas, se viram despreparados.

Nem sempre se dá o caso de o educador ser o único a educar os outros, e de a criança ser exclusivamente quem deve ser educada. O educador também é um ser humano sujeito a erros que a criança por ele educada passa a refletir. Em vista disso, a atitude mais aconselhável é que o educador tenha a maior clareza possível a respeito de seus pontos de vista e principalmente a respeito de suas próprias falhas. Exatamente o que a pessoa é na realidade, tal será o aspecto da verdade que acabará apresentando e tal será, igualmente, o efeito dominante que produz (JUNG, 2008, §211).

            Vivendo a pandemia como possibilidade para dar lugar à expressão e ao acolhimento emocional, essa nova realidade acentua ainda mais a incognoscibilidade do futuro.

O que nos reserva o futuro? Embora nem sempre com a mesma intensidade, esta pergunta preocupou a humanidade em todos os tempos. Historicamente, é sobretudo em épocas profundamente marcadas por dificuldades físicas, políticas, econômicas e espirituais que o ser humano volta seus olhos angustiados para o futuro e se multiplicam então as antecipações, utopias e visões apocalípticas. (JUNG, 1989, § 488).

 

Isso pode acentuar a falibilidade a qual todos estão submetidos. E, talvez, embora seja difícil viver tais experiências diante do olhar dos filhos, isso propicia um reconhecimento das angústias como parte do processo de reavaliar quem se é, diante do novo. De que recursos dispomos? É a descoberta de aspectos relacionados à personalidade.

Personalidade é a realização máxima da índole inata e específica de um ser vivo em particular. Personalidade é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver, pela afirmação absoluta do ser individual, e pela adaptação, a mais perfeita possível, a tudo que existe de universal, e tudo isto aliado à máxima liberdade de decisão própria. Educar alguém para que seja assim não me parece coisa simples. Trata-se sem dúvida da maior tarefa que nosso tempo propôs a si mesmo no campo do espírito. É na verdade uma tarefa perigosa, perigosa pela extensão que tem... (JUNG, 2008, §289)

Ser mãe na pandemia talvez faça parte de reavaliar os papéis que são desempenhados ou estabelecer o que Jung chamava de “diálogo necessário com nós mesmos” (HOLLIS, 1995, p.148), porque reavaliamos também o lugar de ser e estar no mundo. Um mundo em deslocamento.

Agora, todos os deuses decaíram, nós nos encontramos em um mundo em deslocamento, em que o espírito é deixado à própria solidão. Em consequência, somos lançados a uma gigantesca aventura da consciência e é essa consciência pessoal que deve criar e inventar aquilo que anteriormente era encarnado pelo mito. (VON FRANZ, 2018, p. 39-40)

 

Mais do que o acúmulo de atividades, estão sobrepostas as personas construídas para lidar com essa nova realidade. Quem se é, para além desses papéis? E, esse cenário possibilita uma conscientização desse contexto, pois “o homem mede seu autoconhecimento através daquilo que o meio social sabe normalmente a seu respeito e não a partir do fato psíquico real que, na maior parte das vezes, lhe é desconhecido” (JUNG, 1989, § 491). Ao mesmo tempo, há um esforço saudável para a redescoberta de si mesmo, porque “a identidade precisa incluir também uma dimensão experiencial, uma percepção interior. Caso contrário, passo a ser como os outros me veem. Nesse caso, preciso ser vistoso e permanecer vistoso – ou eu perco meu direito de existência” (KAST,2014, p.75).

 

Lis Vilaça, membro analista em formação pelo IJEP – RJ

Bárbara Pessanha, membro analista em formação pelo IJEP - RJ

 

 

Referências bibliográficas:

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos. Rio de Janeiro: Ed. BestSeller. 2014.

HOLLIS, James. A passagem do meio: da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Ed. Paulus. 1995.

JUNG, Carl Gustav. (1989). O Presente e o Futuro.  Petrópolis: Vozes. (Originalmente publicado em 1974).

______  Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

______ O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008

KAST, Verena. A alma precisa de tempo. São Paulo: Ed. Vozes. 2014.

NOGUEIRA, Renato. Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual. Rio de Janeiro: Happer Collins, 2018.

VON FRANZ, Marie-Louise. A busca do sentido. São Paulo: Ed. Paulus. 2018.

 

 


Lis Vilaça e Bárbara Pessanha - 09/12/2020