O "DILEMA DAS REDES" E A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PARA O USO DO AMBIENTE DIGITAL

O "DILEMA DAS REDES" E A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PARA O USO DO AMBIENTE DIGITAL Psicologia Junguiana

O "Dilema das Redes" é um documentário que ficou bem conhecido depois de ser exibido pela provedora de vídeos via internet Netflix e chegou com informações não tão novas, mas que pegaram muitas pessoas de surpresa.

Poucos se interessam em saber como a internet funciona, simplesmente navegam sem imaginar o que está por trás desse ambiente virtual que tem um magnetismo impressionante e faz os desavisados ficarem a mercê de seus encantos.

Obviamente que por trás desses encantos estão os interesses de empresas enormes e bilionárias, que exploram formas de manter as pessoas o máximo de tempo possível olhando para a tela. Assim podem veicular anúncios de acordo com a forma como cada um se comporta, com os assuntos que busca e demonstra interesse.

Existe uma máquina por trás disso que é cada vez mais aprimorada pelos programadores e é chamada de algoritmo. É desenvolvida para explorar formas de maximizar a produção de estímulos, a fim de deixar as pessoas ligadas nos aplicativos e muitos acabam viciados. No documentário é chamada a atenção pela coincidência no uso do nome "usuários" tanto por usuários de drogas quanto pelos usuários das redes sociais, dado o vício provocado.

A impressão que as pessoas leigas tem ao usarem essas redes é de que o ambiente é gratuito, pois não existe cobrança para permitir o ingresso, mas claro, tudo tem um custo. Por trás desse ambiente "gratuito" tem milhares de funcionários pagos a peso de ouro, por serem altamente especializados e formados em universidades de prestígio no mundo todo. Além disso, tem os investimentos bilionários na aquisição e/ou desenvolvimento dessas redes sociais, que possuem custos fixos como de uma empresa qualquer, onde já se começa o primeiro dia do mês devendo o valor que precisará ser coberto pelas vendas ao longo do mês, para depois de serem descontados todos os impostos e taxas, alcançar o famigerado lucro.

Então qual é o produto desse setor, já que navegamos livremente nessas redes sem precisar pagar nada? O produto somos nós mesmos, os próprios usuários, que estamos sendo vendidos anonimamente, pelo menos é o que dizem. Falam que somente capturam nossa forma de se comportar na rede, o que curtimos ou não, para a oferta de produtos e serviços. Dizem que não se interessam pela nossa identidade, pelo nosso nome, mesmo que isso deixe uma dúvida no ar para muita gente.

Mas muitas pessoas podem pensar: "o que tem de mal nisso? Qual o problema de uma empresa vender o meu comportamento para outros que tenham interesse, sendo que eu vou poder encontrar meus amigos gratuitamente num ambiente online?"

É aqui que a coisa começa a ficar mais profunda.

Existem várias implicações e uma delas é a dependência que esse mundo digital acabou criando. As pessoas que não entendem como essas plataformas funcionam, acabam ficando comprometidas psicologicamente. Criam uma dependência que pode se tornar muito prejudicial, principalmente as crianças e adolescentes que ainda estão se desenvolvendo e precisam de um ambiente com limites e monitorado por um adulto para formar hábitos construtivos. Além disso a criança não tem condições de entender o que de mal pode lhe acontecer, por isso é preciso que um adulto esteja o mais próximo possível monitorando esse uso pela criança.

Por outro lado, é bom ressaltar que existe uma ambivalência no uso da internet. Para as pessoas que já entendem bem o funcionamento desses algoritmos e dos interesses por trás dessas grandes empresas, as implicações diminuem muito, pois tais usuários conseguem tirar o melhor proveito dessas plataformas utilizando o próprio algoritmo para lhes trazer quais são as novidades nas áreas que lhes interessam.

Uma outra implicação são os riscos de qualquer ambiente público, pois mesmo que desde a criação da internet muita coisa possa ter mudado na forma como os produtos e serviços são entregues, o ser humano em si, é praticamente o mesmo. Sempre existiram e continuarão existindo riscos ao se caminhar nas ruas, em especial a noite ou em partes perigosas da cidade com pouco policiamento, e na internet é a mesma coisa, a diferença agora é que essas pessoas estão dentro do ambiente digital. As bem intencionadas acabam sendo vítimas, como no caso das fake news por exemplo, acreditando que as informações falsas são verdadeiras. Sem checar a veracidade da informação, terminam elas próprias dando continuidade a mentira e criando mais confusão em algum grupo do whatsapp, da família, de amigos, de mães e etc. Essas informações falsas são criadas por criminosos com o intuito de gerar desinformação, manipular dados de acordo com seus próprios interesses, como por exemplo, hoje, o aumento da polarização política.

Quanto a polarização política, não acredito que a internet por si só cause a polarização, mas acho que ela tem um grande poder amplificador. Tudo passa a ser ampliado pela velocidade e facilidade de compartilhamento de informações falsas. Elas têm um grande poder de viralização por conta da curiosidade envolvida, do medo ou o que for, por isso a consciência de quem compartilha notícias é tão importante. É preciso checar antes de compartilhar no próprio google se a informação é verdadeira ou falsa.

Outra consequência possível do abuso de poder na internet é a grande quantidade de informação nas mãos das empresas. Isso abre margem para surgirem dúvidas sobre se teriam escrúpulos ou não no uso dessas informações. Acabam tendo um poder enorme ao saber o que todos seus usuários no mundo fazem habitualmente. E esse detalhe é muito preocupante, pois essas informações são o que todo governo fascista gostaria de ter em mãos para controlar as pessoas.

Lá atrás em 1932, Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo", previu que a tecnologia poderia se tornar uma ferramenta de manipulação da vontade das pessoas e é exatamente isso que estamos vendo com as redes sociais hoje. Como no caso do Tik Tok, onde o presidente dos Estados Unidos proibiu sua operação por acreditar que as informações dos usuários americanos poderiam estar sendo usadas pelo governo chinês, que é uma ditadura que não permite o livre acesso de seu povo a internet, exercendo assim o controle da população. Mas isso não quer dizer que os Estados Unidos não espionem também. A ameaça à privacidade atualmente vem de todos os lados, pela própria característica da internet, tudo está se tornando aos poucos mais exposto e transparente, por mais que se tente evitar.

estamos sendo alertados dessa possibilidade há muito tempo. George Orwell em sua obra distópica chamada "1984" (cuja primeira edição é de 1949), também mostrou como um estado totalitário poderia controlar as pessoas através de um regime que persegue o individualismo e a liberdade de expressão com o uso da tecnologia. E aqui não está em questão o uso desses sistemas autoritários pela direita ou esquerda, mas sim o estrago que os extremos usados pelo estado podem causar para a sociedade e para a individualidade, que é uma das características que a análise terapêutica busca resgatar nas pessoas. (JUNG, 2013, § 225)

Estamos vivendo atualmente em um governo que tem tendências autoritárias e antidemocráticas, e as redes sociais usadas em conjunto com as fake news, se transformam em ferramentas de manipulação da massa. A capacidade de disseminar informações falsas nas mãos de pessoas mal intencionadas pode também conduzir eleições e até eleger presidentes, e o que é pior, sem que as pessoas percebam, pois sem saber que são falsas, fazem parecer que existe uma intenção nobre por trás. Donald Trump, o próprio presidente dos Estados Unidos foi um dos maiores disseminadores de informação falsa com 37% de suas mensagens no twitter.

o Estado, porém, é um sistema, ou apenas uma máquina para separar e ordenar as massas. Todo aquele, pois, que, em se tratando de coisas humanas, pensar menos no homem e se interessar mais por grandes números, fazendo de si mesmo como que um átomo, torna-se salteador e ladrão de si mesmo. Junto com os outros apanhou ele a lepra do pensar coletivo e se tornou um dos moradores daquele curral punitivo e doentio que tem o nome de “Estado totalitário”. Nosso tempo produz e contém boa porção daquele “enxofre bruto”, que pela “arsenicalis malignitas” impede que o homem atinja seu próprio ser. (JUNG, 2012, § 187)

Jung se refere acima a maldade venenosa (arsenicalis malignitas) que o estado totalitário exerce para manter as pessoas sob controle e cada vez mais sem individualidade, sem contato com o próprio ser. É como Trump que não deseja aceitar a derrota nas eleições de 2020 e flerta então com um golpe de estado, assunto que certamente não pensaríamos ver os Estados Unidos passar com sua tão valorizada democracia.

Em contrapartida, como se interiorizar, refletir e ficar sozinho em princípio pode parecer bem chato e fora de moda, as pessoas preferem então viver em um mundo cada vez mais virado para fora, hedonista, onde os valores são baseados no consumo de coisas e no prazer a qualquer custo, mesmo que criando dívidas. Quanto mais vivermos a experiência de falta de contato com nossas almas, mais profundamente ficaremos presos a esses valores baseados no consumo, acúmulo de dinheiro e poder. (JUNG, 1987, p.102)

As pessoas por isso ficam cada vez mais longe de si mesmas e a carência vai tomando conta, pois não sabem mais ficar com elas próprias, se acolherem quando necessário e desenvolver o autocuidado para que possam se conectar consigo mesmas e escutar a voz interior:

Se ele fosse sozinho para o deserto e na solidão se pusesse a escutar a voz íntima, talvez pudesse perceber o que diz essa voz interior. Mas geralmente o homem deformado pela cultura é de todo incapaz de perceber essa voz, que não é garantida por parte dos ensinamentos recebidos. (JUNG, 2014, § 315)

uma dissonância aqui, pois as pessoas acreditam que esse ambiente, cada vez mais veloz das informações das redes sociais, vai aplacar a necessidade de atenção que elas próprias não sabem se dar. Assim entregam sua afetividade a um ambiente frio, não presencial, onde se interage com os outros por meio de informações em aparelhos celulares e computadores. Por isso se busca cada vez mais curtidas, para encobrir esse vazio existencial, essa falta de sentido, por falta de contato físico real e calor humano. Claro que as redes sociais podem ser um ambiente saudável, desde que a pessoa saiba, como foi dito, utilizá-las com sabedoria.

Ao magnífico desenvolvimento científico e técnico de nossa época, correspondeu uma assustadora carência de sabedoria e de introspecção. (JUNG, 2013, § 28)

Em 1982 no livro chamado "The Global Brain", Peter Russell previu a futura conexão da humanidade através de uma rede mundial de computadores, onde todos estivessem como que em um grande sistema nervoso, multiplicando a capacidade de informação e assim acelerando o desenvolvimento do conhecimento. Mas Russell também previu, que sem nenhum trabalho de tomada de consciência, as pessoas acabariam por usar esse novo ambiente para aumentar o mal-estar interno que já existia na sociedade, levando assim ao aumento dos problemas sociais e emocionais.

Ao passarmos a dividir mais nossos sentimentos pelas redes, também ficamos mais expostos a contaminações psíquicas coletivas, pois de novo, a internet não cria esses sentimentos por si só, mas tem o poder de amplificar muito o que já acontece. No fundo estamos podendo ver com uma lente de aumento a falta de sentido coletivo pelo qual a humanidade já atravessa há muito tempo.

Assim as pessoas acabam por agir tomadas pelas emoções, e nas redes é como que se os complexos autônomos fossem ativados individualmente, sendo disseminados coletivamente através das chamadas "viralizações". A raiva, o medo e as emoções negativas são projetadas nos outros e compartilhadas por todos, sem que possam servir de parâmetro para o conhecimento interior, por meio de sua compreensão e integração. (JUNG, 2013, § 538)

Vivemos uma fase em que a felicidade é uma obrigação de todos. Ficar introspectivo, reflexivo e até triste não é mais permitido em hipótese alguma, é preciso estar sempre com o nível de energia máximo para fazer tudo o que deseja durante o dia de trabalho e ainda a noite com os familiares. Essa ditadura interna ou monoteísmo do ego, que dita tarefas a revelia dos sentimentos, leva as pessoas a se tornarem máquinas, sem o mínimo respeito por elas próprias. E, como resultado, também não terão respeito nas suas relações, inclusive nas redes sociais, assim passarão a usar esses meios como válvula de escape para soltar os conteúdos reprimidos nos outros, aliviando suas tensões. Isso pode aliviar no momento, mas não funciona, pois o material reprimido quer ser reconhecido, e o trabalho por meio dessas angústias acaba sendo desperdiçado sem a observação e integração necessárias.

O amor começa dentro, se não fizermos as pazes conosco essa divisão só provocará mais divisão externa também. Jung chama de processo de individuação quando voltamos a perceber nossa realidade interna no confronto com a sombra, que é tudo que negamos para nos adaptar ao mundo externo, socialmente inaceitável, vergonhoso etc. Individuação nada mais é do que se tornar si mesmo no todo.

É inegável que a internet é uma ferramenta maravilhosa de conexão e comunicação entre as pessoas, mas passamos mais de vinte anos de lua de mel com ela, vivendo intensamente seus encantos, sem muitas vezes conseguir entender direito como tudo funcionava. Agora que já temos um conhecimento melhor de como todo esse sistema funciona, é preciso aperfeiçoar as formas de regulamentar, para que os abusos não sejam mais praticados, e ao mesmo tempo manter a liberdade característica da internet.

            Acredito que a educação sobre o ambiente digital é fundamental, todos devemos entender bem como funciona a internet e quais são os interesses por trás dessas grandes redes sociais que fazemos parte. Assim ampliamos a atenção às práticas manipuladoras e podemos exigir um comportamento cada vez mais ético e responsável das empresas envolvidas.

Diante de tudo que foi observado até aqui um cuidado devemos ter: não repassar notícias falsas, checando as informações antes, pois todos estamos comprometidos nisso, nesse cérebro global que foi criado. Sabemos que depende da nossa atitude ética podermos tirar o melhor proveito dos recursos tecnológicos que temos hoje.

Obviamente para que isso aconteça é preciso uma transformação interna, a saída de um ponto de vista de busca desesperada pelo prazer, para uma relação interna mais rica, com a percepção de que temos alma e sentimentos, e que precisamos aprender a nos cuidar. Desse modo, a própria internet pode se tornar um ambiente de união, possibilitando a expansão de consciência e mantendo essas ameaças distantes.

Raphael Ruiz Amorim

Analista em formação pelo IJEP

scabom@gmail.com

Referências:

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Biblioteca Azul, 2014.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 6a ed. Nova Fronteira, 1987.

______ Mysterium Coniunctionis. 6a ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.

______ Psicologia e religião. 11a ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.

______ A prática da psicoterapia. 16a ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.

______ Presente e futuro. 7a ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.

______ O desenvolvimento da personalidade. 14a ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.

ORWELL, George. 1984. Companhia das Letras, 2009.

RUSSELL, Peter. The Global Brain. Floris Books, 2007.


Raphael Ruiz Amorim - 09/12/2020