O EGO INFLADO DO HOMEM QUE CRIA, À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, UM CRISTO QUE NÃO É MAIS O DAS ESCRITURAS

O ego inflado do homem que cria, à sua imagem e semelhança, um Cristo que não é mais o das escrituras Cristo, ego

“Vocatus atque non vocatus deus aderit”

 

Jesus, o Cristo, sempre foi uma figura controversa, pairam sobre Ele, até mesmo, a dúvida de sua existência, mas apenas uma certeza é possível ter, seu nome é usado até mesmo para defender aquilo que Ele foi ferrenhamente contra, segundo as próprias escrituras sagradas. De acordo com Jung (1998), muitas são as discussões que afirmam a veracidade de Cristo por poder ser comprovada fisicamente, outros que negam Cristo justamente por acreditarem que sua existência física é impossível de ser comprovada. Ainda para o autor,

 

“Ambas as partes têm e não têm razão, e chegariam mais facilmente a um acordo se renunciassem a palavrinha “físico”. O conceito de físico não constitui o único critério de uma verdade, pois há também verdades psíquicas que não se podem explicar, demonstrar ou negar sob o ponto de vista físico. (...) Uma crença como esta constitui uma realidade psíquica, de que não se pode duvidar e que também não precisa ser demonstrada.” (1998, pág 1)

 

Ou seja, a discussão sobre a existência ou não de Cristo, pelo menos aqui, é irrelevante, pois o que interessa é que Ele existe como verdade psíquica, não é possível negar que o homem, especialmente o ocidental, está irremediavelmente ligado a imagem de Jesus, afinal, até mesmo o tempo, os anos, são contados como antes e depois de Sua existência. Portanto, físico ou não físico, ele está presente.

Desde muito pequena, Cristo me despertou certa curiosidade e desconforto, vê-lo pregado à cruz, com aquele semblante de sofrimento e humilhação me incomodava, mas também me atraia e intrigava. Como um Deus poderia ter aceitado morrer de forma tão ultrajante? Na minha inocência de criança pensava, “por que ele não jogou raios nos homens maus e deixou só os bons?” Mais tarde compreendi que o Cristo que eu queria, era um Cristo feito a minha imagem e semelhança infantil, que fizesse o que eu faria, que fizesse o que eu egoicamente achava que era o correto.

Cresci e comecei a entender que o mito de Cristo era muito mais do que aquilo que uma criança pode esperar egoicamente de um Deus. A missão Dele, a meu ver hoje, seria provar exatamente o contrário, daquilo que eu acreditava ser o certo, sua missão era provar que a bondade está justamente no despojamento do ego, este ego que se pensa deus. Portanto, a mensagem explícita e mítica de Cristo, mas pouco entendida por aqueles que se mantém como crianças birrentas, que querem que sua vontade seja feita, é a da aceitação da nossa condição humana e que, enquanto humanos, não somos os detentores da verdade, determinadores do que é justo e correto, pois somos falhos e precisamos seguir o caminho entendendo que, apesar de termos, segundo as escrituras, sido feitos a imagem e semelhança de Deus, não somos Deus.

Ao contrário do meu desejo infantil, Jesus pediu ao Pai, “Perdoa-os, eles não sabem o que fazem.” Sim, a humanidade não sabe o que faz e a prova está na morte e flagelo de Jesus, da forma ultrajante e humilhante, que sempre me chocou. A humanidade condenou o filho de Deus, o amor à morte, mas fomos perdoados, pois é essa a mensagem, não julgar, não condenar, vocês cometem erros, o recado é simples e direto, é para pensar o Amor, ser Amor. Portanto, torna-se compreensível o porquê de Jesus ter morrido da forma que morreu, muito mais do que expurgar pecados, seu objetivo foi explicitar ao ser humano a sua condição falha e pecadora, a necessidade de aceitar e compreender isso, a necessidade de aceitar que somos constituídos de bem e mal, de sombra e luz.

O Cristo das escrituras prega o “amar ao próximo como a si mesmo”, mas o que acontece é que projeto no outro o amor que sinto por mim e isso explica muito do que ocorre hoje, na nossa sociedade. Como é o amor que sinto por mim? Que sombras tento ocultar? Que “mal” jogo para debaixo do tapete? Muito tem se falado atualmente, especialmente pelos mandatários do governo atual, na família em Cristo, nos bons costumes. Infelizmente,  esse Cristo se transformou em uma figura muito distante daquele das escrituras, já que este novo Jesus projeta a imagem da punição, do preconceito, do pecado, estando, portanto, muito distante daquele que pediu que “atirem a primeira pedra quem nunca pecou”, ou seja, daquele que pediu que fosse assumido, também em nós, o pecado. Então, por que isso acontece? Sendo uma figura mítica o Cristo evoca identificação, mas o ego cria o Cristo com o qual pode se identificar. Sendo intrinsicamente preconceituoso, agressivo, dominador, explorador, o homem cria o Cristo a sua imagem e semelhança.

Ao distanciar-se do Cristo que é Amor, a sociedade cria um novo mito, um mito que aponta o dedo e atira a primeira, a segunda, a terceira... pedra, um mito que condena o outro, mas não olha para si e para o mal que causa, um déspota, porque tudo é justificado pela defesa de um Cristo que proporcionará a tranquilidade de não ser necessária a reflexão sobre o “mal” que me habita, afinal estou defendendo o “bem” e posso dormir tranquilo, tudo é feito em nome de um bem maior. Assim, surge o Cristo da projeção humana, o Cristo que reflete o desejo real de uma sociedade que quer o domínio, que quer subjugar o mais fraco, o mais sensível, o diferente e isso tudo sem culpa, porque afinal é tudo em nome de Cristo. É importante lembrar que a escravidão foi defendida por cristãos, que a morte de judeus era realizada em nome de Deus e que uma quantidade enorme de mulheres (bruxas) foi morta, também em nome desse mesmo Deus. De acordo com JUNG, na tentativa de compreender Deus, cada um de nós cria dele nossa própria imagem  – e a imagem nunca é precisa. E ao criar essa imagem, hoje, o que vemos é o mal que habita o homem. O Jesus das escrituras, o Jesus do perdão, o Jesus do amor, não interessa, é descartável, o que importa é defender a ideia humana de Cristo, este que atende ao desejo infantil egóico dos raios e trovões e da eliminação dos que me contrariam e que não precisa refletir sobre certo e errado, correto, justo, mas que principalmente não precisa  refletir sobre o mal e o Amor.

E, para não pensarmos que isso é um problema da representação cristã, temos o exemplo do islamismo fundamentalista que também em nome de um Deus, domina, pune e mata. Sendo, portanto, possível afirmar que o problema não é a religião, em si, mas a imagem de Deus, criada pelo homem.

Atualmente vivemos no Brasil uma cruzada pela família, bons costumes, tudo em nome de Cristo, em nome desse Cristo justifica-se o assassinato de homossexuais, a discriminação e atentados à bomba em quem contrarie a imagem mitificada desse Jesus que é misógino, preconceituoso e vingativo, que hoje não pede ao Pai que perdoe, esse Jesus que é agressivo e que, portanto, reflete muito mais a imagem do homem, do que a do Cristo das escrituras. É o mito criado a imagem e semelhança desse homem que infantilmente não perdoa, entende a sua verdade como a única possível e que joga raios para todos os lados, pois seu ego inflado se define como o bem e, portanto, também decide quem são os bons e merecedores. Esse homem que não reflete sobre a própria sombra e o mal que o habita, que infla seu ego infantil e determina regras que nunca foram defendidas pelo filho de Deus.

Ou seja, a humanidade tornou-se o Deus punidor, o Deus contrário a tudo que foi pregado por Cristo, aquele que sendo comprovado fisicamente, ou não, é o Cristo do perdão, do amor, sem preconceitos e que, apesar de tudo, ainda permanece vivo como representação mítica dentro de mim e de tantos outros. Graças a Deus.

Andréa Alencar membro analista em formação pelo IJEP

e-mail: [email protected] – Rio de janeiro - Centro

 

JUNG, C. J. (1998). Resposta a Jó. Ed. 5. Vozes, 1998


Andréa Alencar - 16/03/2020