O HOMEM FERIDO QUE CONTINUA AGREDINDO OUTROS HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS

O homem ferido que continua agredindo outros homens, mulheres e crianças Psicologia Junguiana

A anima, segundo a Psicologia Analítica, representa o componente feminino no homem e a ligação com a fonte da vida que está no inconsciente.  “Se examinarmos atentamente as emoções incontroláveis de um homem e tentarmos reconstruir a provável personalidade de onde provêm essas emoções, chegaremos imediatamente a uma figura feminina, precisamente aquela que chamei de anima” (JUNG, 2013, p.50). Como foi amplamente demonstrado por JUNG, a anima é um componente psíquico fundamental para que o homem possa se conectar com sua sensibilidade e sentimentos. Todavia, infelizmente, essa relação do homem com a sua anima está cada vez mais distante. Muitas vezes, é deixada de lado ou reprimida. Quando nos afastamos da nossa anima, consequências relevantes podem surgir.

De acordo com JUNG, “o domínio de si mesmo é um ideal tipicamente masculino a ser alcançado pela repressão da sensibilidade. Sentir é uma virtude especificamente feminina e, como o homem, para atingir seu ideal de virilidade, reprime todos os traços femininos que possui – como a mulher possui traços masculinos – reprime também certas emoções como se fossem uma fraqueza feminina. Ao fazer isso, acumula em seu inconsciente essa feminilidade ou sentimentalidade que, ao manifestar-se, acaba traindo nele a existência de um ser feminino. Como sabemos, precisamente os homens mais viris são interiormente os mais sujeitos aos sentimentos femininos (JUNG, 2013, p.50 – grifos nossos).

Para ilustrar ainda mais esse quadro acima, vou trazer algumas reflexões apresentadas pelo psicólogo Junguiano, James Hollis. No seu livro, “Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens”, HOLLIS indica que os homens associam a sua vida de sentimentos e sua capacidade de sentir carinho, a uma natureza culturalmente definida como pertencente à mulher. Consequentemente, os homens se afastam dos seus sentimentos e da própria anima.

Como consequência desse afastamento, essa relação mais positiva com a anima, que representa o amor, o acolhimento e a compreensão, é deixada de lado ou mantida fora de ação. Ademais, a competição, o medo e o jogo pelo poder prevalecem.  Com o tempo, os homens podem ter consciência de que tenham problema de se relacionar com o feminino, mas raramente suspeitam que o feminino também está dentro deles (Cf. HOLLIS, 1997, p. 163).

“Sem dúvida, a maior tragédia para os homens no que diz respeito ao princípio feminino é que seu medo separa-os da própria anima” (HOLLIS, 1997 p. 49, grifo nosso). Como consequência dessa separação, continuamos a presenciar uma masculinidade tóxica e violenta, que é praticada, na sociedade atual, através de agressões físicas, morais e verbais.

Pode-se depreender, do estudo feito por HOLLIS, que os homens, do ponto de vista literal, e o masculino, em um sentido amplo, precisam tomar consciência de estarem traumatizados e cruelmente feridos. A inconsciência deste trauma faz com que os homens possam ferir tanto a si mesmos como mulheres e crianças.

Todavia, algumas perguntas que surgem a partir dessas premissas são: de onde vem essa ferida e esse trauma?

Podemos começar a responder essa questão supra, apontando que o homem tem uma enorme ferida emocional que é gerada pelo papel que o masculino deve desempenhar na sociedade, pelo medo que carrega, a opressão das emoções, a violência, a competição (Cf. HOLLIS, 1997, p. 13). Esse papel muitas vezes é medido por parâmetros como carro, salário, casa e posição social. O homem é condicionado a produzir, ser o provedor e proteger a família. Esse é o papel que é exigido do homem (Cf. HOLLIS, 1997, p. 103).

Pode-se inferir, portanto, que praticamente todos os homens modernos se sentem oprimidos, até esmagados por esses papéis e pelas expectativas, internas e externas, que sobre eles recaem.

Os homens têm sido oprimidos psicologicamente, sob a sombra das ideologias e imposições culturais e sociais, que causam uma ferida que eles não sabem lidar e curar. Influenciados pela competição, poder, crenças, mitos, pelo medo das mulheres e de outros homens, os homens têm medo de reconhecer seus sentimentos, discorrer sobre as suas dores e reconhecer o feminino que está dentro deles.

Apesar do exposto acima, seria possível fazer diferente? É viável aos homens reconhecer essa ferida, suas dores, o medo e a opressão de um papel social a ser desempenhado? Quando esses homens tentam se mostrar mais sensíveis, eles pagam um preço alto por essa exposição. São humilhados por outros homens e também por mulheres. Reconhecer que temos medo é ser pouco masculino. Na minha própria experiência, me lembro de momentos, como menino e adolescente, que praticamente todo indivíduo que ousava se revelar ou expor seus sentimentos, era humilhado ou segregado.

Como consequência dessas feridas, dores e humilhação, uma resposta violenta é bem comum. O que fere também pode destruir. Quando violamos a alma de um homem, uma parte dele se torna violenta (Cf. HOLLIS, 1997, p. 142). E essa violência pode se voltar contra outros homens, seu próprio masculino, as mulheres e até crianças.

Como um passo inicial e importante para uma solução viável ao tema apresentado neste artigo, devemos começar a avaliar melhor a relação do homem com a anima, através dos ensinamentos de JUNG. Uma relação harmoniosa com sua energia psíquica feminina pode ajudar o homem a se expressar de forma mais equilibrada e sensível. Poderá dar mais mecanismos para que o homem saiba lidar com seus pensamentos, dores e feridas.

Ao aceitar e respeitar o feminino dentro de si e nas mulheres de sua vida, o homem poderá ter uma resposta emocional mais estruturada. Todavia, é importante, também, aceitar o feminino em um sentido mais amplo. Aceitar o feminino nas relações sociais, na família, no trabalho e na sociedade. E essa transformação não é apenas dos homens, ou seja, exclusivo deles. Essa transformação deve ser nos homens, ou seja, no mundo que atinge também homens, mulheres, famílias e culturas. Só assim, um homem diferente e um novo masculino poderão desabrochar.

Como terapeutas Junguianos, nosso apoio é fundamental para que esse homem possa ter a autoconfiança necessária para apresentar uma nova resposta. Poder confiar em novas atitudes, em ser e agir de forma diferente do padrão masculino atual, que foi imposto socialmente e culturalmente por milênios. Que ainda fere  homens, mulheres e crianças.

Anderson A. Fernandes , Analista em formação do IJEP - (11) 99119-1221 - andersonantonio@me.com    

Referências:

HOLLIS, James. Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens, 1997.

JUNG, Carl Gustav. Civilização em Transição, 2013


Anderson A. Fernandes - 02/12/2020