O SIMBOLISMO DAS TAREFAS NO CONTO DE FADAS GALEGO “O JOGADOR E A FILHA DO DIABO” PARTE 2

O Simbolismo das Tarefas no Conto de Fadas Galego  “O Jogador e a Filha do Diabo” Parte 2 Psicologia Junguiana

Neste artigo dou continuidade à análise do conto de fadas galego “O Jogador e a filha do Diabo”, discutindo o simbolismo das tarefas dadas pela personagem Blancaflor ao jogador[1]. Comecemos pela fuga do casal que dará início à uma nova jornada.

 

[1] Num artigo anterior, iniciei a análise do conto discutindo o simbolismo das tarefas impostas pelo diabo ao jogador (disponível no site do IJEP).

A Fuga do casal, o rompimento, o esquecimento e o início de uma nova jornada:

O diabo olhou para o anel e disse que o que salvou o jogador foi Blancaflor, que é a própria filha dele. Resmunga e decide matar os dois. Blancaflor advinha as intenções do pai e despista enchendo o quarto com cuspe, conseguindo então fugir. Após a fuga bem-sucedida, Blancaflor se transformou num braço de mar, de forma que o diabo não pôde mais passar, o que o fez recuar e não os perseguir mais. Ela instrui o jogador para não deixar que ninguém o abrace quando for à sua casa. Mas uma cadela o abraçou e ele esquece de Blancaflor. Então, eles iniciam uma nova jornada.

Vemos aqui que Blancaflor se transforma num braço de mar e ao cruzá-lo, ambos, jogador e Blancaflor, alcançam uma nova etapa. Isso indica uma evolução e um caminho sem volta. Agora, eles estão na terra natal do Jogador, em seu lugar de origem, e é lá que, a partir da desobediência do Jogador e de seu esquecimento, Blancaflor vai iniciar uma nova vida.

 

Ela o orienta para que não deixe que ninguém o abrace, ou seja, que ele não se deixe envolver pelo exterior. Mas parece que trazer tantas experiências à consciência é demais para o Jogador e quando a cadela o abraça, ele acaba esquecendo de suas novas conquistas e de sua recente jornada iniciada, então, Blancaflor se esvanece em sua memória.

 

Agora, de volta à sua terra natal, à sua origem, ao seu velho lar, esquece a promessa que fez a ela. Vai se unir a uma nova moça que acabou de conhecer, regressando ao velho padrão de imediatismo e busca de respostas mágicas. Nossa! Como isso é recorrente no setting terapêutico! Estamos lá, em terapia, acompanhando um processo lindo, a cada semana, mais e mais conteúdos sendo elaborados, mais e mais “tarefas” sendo realizadas com êxito e, de repente, alguns pacientes começam a se atrasar, a faltar, a não pagar...

 

Mas “uma coisa acontecida, nunca se perde para sempre. O que foi constelado passou para o próprio inconsciente e a experiência ainda está lá, em algum lugar” (Von FRANZ, 2010, pag.132). Além disso, “cada vez que o indivíduo ganha um pouco de terreno, torna-se um pouco mais consciente [...], alguma mudança realmente ocorre, mas não é o fim da história” (Von FRANZ, 2010, pag.133). Ainda não... Como ainda não é o fim da estória, Blancaflor se fez costureira e foi costurar na vila de seu noivo, despertando o interesse de outros moços para se deitar com ela.

As novas tarefas.

Agora, quem impõe as tarefas não é mais o Diabo e, sim, a própria Blancaflor. A partir do retrocesso do jogador, Blancaflor irá, ela mesma, impor as novas tarefas a serem cumpridas. As novas tarefas são convites para limpeza e purificação. Ela não irá se deitar, não irá se entregar assim facilmente.

Tarefa 1 de Blancaflor: Lidar com os excrementos.

O primeiro homem do vilarejo do Jogador vem para se deitar com ela, mas ela o mandou esvaziar uma bacia cheia de mijo e assim ele passou toda a noite esvaziando, não conseguindo se deitar com ela.

Lidar com a urina, com os excrementos, tem o significado de encarar aquilo que está podre, sujo, malcheiroso. Pode ser um chamado para lidar com os aspectos mais sombrios e desagradáveis. Essa tarefa nos ensina a importância de mexer com o que aparentemente não tem mais valor, a fim de tomá-los como matéria-prima para o surgimento de algo. Muitas vezes, a quantidade de excrementos psíquicos que guardamos toda uma vida é muito grande, e, assim, não há espaço para renovação e oportunidades. Mas há possibilidade de uma nova vida, de iniciar um novo ciclo. É assim nos contos, é assim na vida, é assim na terapia.

Tarefa 2 de Blancaflor: Purificação através da água.

Na noite seguinte foi o segundo homem e ela mandou que ele se lavasse numa tina e ele passou toda a noite se lavando.

Lavar algo, além de um ritual de purificação, também significa ser impregnados com uma força e um mistério numinosos, como no batismo, pois a renovação ocorre na água, na redescoberta daquilo que realmente consideramos verdadeiro, daquilo que realmente consideramos sagrado (ESTÉS, 1994, pag.72).

 

Albedo é o estágio em que a substância torna-se purificada. Nessa fase, já nos afastamos um pouco daquilo que nos contaminava tanto, os excrementos. Agora, já conseguimos compreender mais sobre as nossas emoções, já temos mais clareza sobre elas, pois já oferecemos um altar para Dionísio, e, assim, o domínio consciente do jogador já se encontra mais ampliado.

 

Nesse estágio, é bom para revisitar os velhos temas conhecidos, pois com as habilidades ampliadas, pode-se arranjá-los de uma nova maneira a partir de um novo entendimento sobre eles e seus afetos.

Tarefa 3 de Blancaflor: As revelações do Abrir e fechar portas.

E na noite seguinte, foi o jogador e, quando iam deitar, ela mandou que ele fechasse a porta e ele esteve toda a noite fechando e abrindo a porta até de manhã.

A porta simboliza o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido, entre a luz e as trevas, entre o tesouro e a pobreza. É um local de passagem e de chegada ao mesmo tempo, um convite à viagem rumo ao além (CHEVALIER, J; GHEERBRANDT, 2015, pag 735). É atrás dela que está o mistério, que permanece nessa condição enquanto não a abrimos. Podemos considerar a porta como uma “iminência de acesso”, como um portal à uma nova realidade, uma realidade superior.

O jogador abre e fecha a porta durante toda a noite. Quantas revelações podem acontecer em uma noite como essa! Somente a partir de tais revelações, nosso jogador se habilita para a fase seguinte. A última etapa da Epopeia de nossos protagonistas!

Ao abrir e fechar a porta, pode-se experimentar emoções intensas, pois é preciso compreender e incorporar os fatos externos da vida e as vivências psíquicas internas, mantendo um diálogo constante e fluente entre as partes.

A Última Prova e o Coniunctio.

E para o outro dia era o casamento do jogador e convidaram Blancaflor, que levou um cavalinho. E o cavalinho dava nas pernas do jogador, que perguntou: Quando se compra uma vaca e depois se compra outra, qual é aquela que vale mais, a primeira ou a segunda? E quando o jogador responde que é a primeira, ele se lembra de Blancaflor e que foi ela que o salvou. E vai embora com ela.

Nas estórias, as atitudes instintivas são representadas pelo lado animal. É o cavalinho que “dava nas pernas” do jogador chamando para escutar a charada, finalmente a última tarefa, antes da coniunctio.   

A memória do jogador, que estava adormecida e que não era capaz de lembrar de todas as peripécias vividas com Blancaflor. Pois bem! A última prova vem em formato de charada. As charadas instigam, aguçam, estimulam a curiosidade e a criatividade. Que mente fica imobilizada frente a uma charada? É só escutar uma que algo nos move internamente para buscar uma resposta. E a charada, no conto, é sobre vacas.

De um modo geral, a vaca, produtora de leite, é o símbolo da terra nutriz. Em algumas tradições ela funciona como psicopompo, e era usada em rituais fúnebres (CHEVALIER, J; GHEERBRANDT, 2015, pag 926). A Palavra psicopompo tem origem no grego psychopompós, junção de psyche (alma) e pompós (guia). Assim, a função do psicopompo é guiar, conduzir, ensinar, representa a percepção entre dois ou mais eventos significativos. Então, a vaca, na sua função de psicopompo, surge e assume a função simbólica de revelar e de dar sentido a tudo, a todos os processos anteriores, e, assim, permitir a continuidade que irá levar ao casamento alquímico.

Uma das características da obra alquímica é a formação de um par, indicando a união dos opostos. No caso, o nosso par de operadores: o Jogador, o alquimista, a consciência masculina, e Blancaflor, a sóror mystica, o feminino inconsciente. Para Jung, é a anima no homem e o animus na mulher que indicam a meta da individuação, sendo assim, a jornada do nosso casal equivale ao processo de individuação.

Percebemos, ao longo da estória, diversas fases simbolizadas pelas tarefas cumpridas com êxito: união mente e corpo, soluções de conflitos de oposições, reconhecimentos, limpezas e purificações, conhecimento da própria luz e da sombra, levando à integração dos opostos purificados: masculino e feminino, espírito e matéria, micro e macrocosmos, recompondo-se, assim, a unidade original. Pronto! É o momento de estar na vida e no mundo de forma madura e equilibrada, com todos os conhecimentos adquiridos ao longo da jornada interior.

Caso queira conhecer o conto original, acesse:

https://asendadadeusa.com/2020/11/05/o-jogador-e-a-filha-do-diabo/

 

Erika Mendel - Membro Analista em Formação pelo IJEP/RJ

erika_mendel@hotmail.com

Referências Bibliográficas:

BARRIO, M.; HARGUINDEY, E.e. Contos populares. Vigo, Ediorial Galaxia, 1995

CHEVALIER, J; GHEERBRANDT. A. Dicionário dos símbolos. Rio de Janeiro, Editora Jose Olympio, 2015

ESTÉS, C. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro, Rocco, 1994

JUNG, C.G. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 1975

JUNG, C.G. Psicologia e alquimia, Vol. XII. Petrópolis, Vozes, 1991

GRAY, M. Lua Vermelha. São Paulo, Pensamento, 2017

TORO, R. Sexualidade. Apostila do Curso de Formação para Professores de Biodanza, Escola Modelo de Biodanza Sistema Rolando Toro, 2013

Von FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fadas. Rio de Janeiro, Paulus, 1990

Von FRANZ, M. L. Anima e animus nos contos de fadas. Campinas, Versus, 2010.

Von FRANZ, M. L. O significado psicológico dos motivos de redenção nos contos de fada. São Paulo, Cultrix, 1992

LEVY, E. “Os símbolos dos processos alquímicos e o sandplay” Artigo publicado no Journal of Sandplay Therapy, Vol. 20, nọ 2, pag. 41- 63, 2011, USA


Erika Mendel - 18/12/2020