OS CONTOS DE FADAS COMO CAMINHO

Os Contos de Fadas como Caminho Psicologia Junguiana

“Era uma vez...” Essa é a tradicional expressão com que se iniciam os contos de fadas, não é? Só que a expressão “era uma vez...”, na verdade, se apresenta “milhares de vezes” na longa história da humanidade, pois os contos de fadas nos contam histórias que sobreviveram por muitos anos e que contêm símbolos universais originários do inconsciente coletivo. O inconsciente coletivo, segundo Jung, é um nível mais profundo da psique que contém os registros arcaicos herdados das espécies humanas e pré-humanas, a camada mais profunda e objetiva do inconsciente: 

A camada mais profunda que conseguimos atingir na mente inconsciente é aquela em que o homem perde a sua individualidade particular, mas onde sua mente se alarga mergulhando na mente da humanidade – não a consciência – mas o inconsciente, onde somos todos iguais. (JUNG, 2015,vol XVIII/1).

 

Podemos considerar que os conteúdos dos contos de fadas pertencem ao mundo arquetípico. Os arquétipos são para Jung "formas de apreensão à priori" - isto é, padrões de percepção e compreensão psíquicas comuns a todos os seres humanos, como membros de uma só espécie. Os arquétipos conferem sentido e significado anímico à vida psíquica, aparecendo nas experiências humanas individuais e coletivas e por esse motivo podemos ver suas manifestações em todas as culturas. A expressão “Era uma vez”, então, nos remete à sensação de que a história não se restringe a um tempo e espaço definidos. A história se repete, podendo migrar, mas a sua estrutura básica, seu núcleo arquetípico se mantém preservado.

 

Na psicologia arquetípica contida nos contos de fadas, consideramos os personagens como descrições simbólicas de aspectos da psique que estão personificados em heróis ou heroínas, entre outros personagens. Estes aspectos psicológicos encarnados enfrentam obstáculos, recebem ensinamentos, lições para se desenvolverem ao longo de um processo, provendo em nós uma identificação e atração emocional, nos quais nossos próprios dramas pessoais se veem refletidos. Esses heróis e heroínas representam o modelo arquetípico do funcionamento de uma psique mais integrada, onde o ego estaria se relacionando de modo mais equilibrado com as demandas do Self.  Para isso, eles percorrem uma jornada iniciática, de separação e integração de aspectos inconscientes, entre eles a sombra, o animus e a anima. Jung nos explica que a anima é a personificação das tendências psicológicas femininas inconscientes na psique do homem, enquanto o animus é a personificação masculina inconsciente na psique da mulher, e ambos podem apresentar aspectos positivos ou negativos (JUNG, 2014, Vol VII/2)

 

Os contos de fadas, através de sua linguagem metafórica, mostram um caminho para a individuação, um caminho de conexão com a alma, um caminho de encontro com o Self, e por este motivo são tão terapêuticos e irresistivelmente atraentes. Eles ajudam no desenvolvimento de partes da personalidade que talvez ainda não estejam constituídos, mas que podem estar em vias de realização.

 

O uso dos contos de fadas pode fazer parte da prática terapêutica durante a análise Junguiana. Por se tratar de conteúdos universais, o terapeuta pode se tornar capaz de descobrir, no devido tempo, um conto de fadas condutor do processo de um paciente e, utilizando a história como se fosse metaforicamente um remédio, ajudá-lo no seu desenvolvimento psíquico, através da amplificação simbólica dos desdobramentos da história.

 

Originalmente, os conteúdos dos contos de fadas eram elaborados para um público adulto, mas como tais conteúdos (assim como os sonhos) são muitas vezes de difícil compreensão simbólica, sua essência acabou sendo esvaziada e o seus conteúdos infantilizados em nossa cultura.

 

Além disso, acredita-se que grande parte do conteúdo original dos contos tenha sido adaptada ao longo do tempo. Os estudiosos dos contos de fadas suspeitam que antigos símbolos pagãos tenham sido encobertos por outros, cristãos, e dessa forma, muitos dos contos que continham referências sobre sexo, amor, dinheiro, casamento, parto, morte e transformação foram deturpados, “expurgando tudo o que fosse escatológico, sexual, perverso, pré-cristão, feminino, iniciático, ou que se relacionasse às deusas; que representasse a cura para vários males psicológicos e que desse orientação para alcançar êxtases espirituais”, conforme esclarece (ESTÉS, 1994, pag.16).

 

No entanto, eles não estão perdidos para sempre pois em cada fragmento de história permanece a estrutura do todo, que conhecemos como mitologema. Acredito que nós, terapeutas Junguianos, possamos ser os guardiões de conteúdos tão preciosos, estudando-os e compartilhando-os em nossos atendimentos, e que possamos, em meio a tanta superficialidade imposta pela cultura contemporânea, nos aprofundar e trazer à luz motivos e conteúdos que ajudem tanto num nível individual, quanto coletivo, a conscientização e integração de aspectos sombrios para construirmos uma sociedade melhor.

 

Erika Mendel - Analista em Formação pelo IJEP/RJ

erika_mendel@hotmail.com

 

Referências Bibliográficas:

 

ESTÉS, Clarissa. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro, Rocco, 1994

JUNG, C.G. A natureza da psique, Vol VIII/2. Petrópolis, Vozes, 2014

JUNG, C.G. O eu e o inconsciente, Vol VII/2. Petrópolis, Vozes, 2014

JUNG, C.G. A vida simbólica, Vol XVIII/1. Petrópolis, Vozes, 2015

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fadas. São Paulo, Paulus, 2005

VON FRANZ, M.L. A individuação nos contos de fadas. São Paulo, Paulus, 2003 


Erika Mendel - 18/12/2020