PÃ, O ENVIADO DE GAIA

Pã, o enviado de Gaia Psicologia Junguiana

Dedicado a todos os animais silvestres que saltitam livres pelas ruas das cidades mundo afora e a todos os animais domésticos que cuidam de nós em nosso recolhimento.

A imagem de Pã é conhecida na sociedade ocidental como a face do Diabo. Nas cartas de tarô ou no imaginário popular a figura do Diabo sempre se aproxima da iconografia pela qual vimos Pã ser representado, a partir das descrições que dele fazem as narrativas míticas.

Essa associação de Pã com o Diabo se constrói tardiamente no Cristianismo, sobretudo em função do ataque da igreja católica ao paganismo, que resistia para muito além do desejado no novo mundo cristão. Como sabemos, o termo pagão vem de “pagus”, que significa pedaço de terra arado, o que nos leva a compreender que, enfim, o pagão era o camponês, o homem que vivia na terra, da terra e para a terra. Pagãos eram as benzedeiras que faziam suas rezas com ervas, água, sal, os curandeiros que conheciam os segredos das ervas e beberagens, os agricultores que seguiam os segredos das lunações para plantar e colher, os criadores de animais que se orientavam pelos calendários lunares para acompanhamento do nascimento das novas crias... enfim, todos que organicamente se pautavam pela temporalidade e pelos ritmos naturais. Logo, a matéria concreta era o universo de onde emanava toda a vida. Estávamos no tempo do mundo encantado. E não foi fácil para o mundo cristão afastar os homens desse mundo, foram vários séculos de constantes ataques e, no entanto, só se obteve sucesso com o Protestantismo e a criação do Capitalismo, conforme apresentou Max Weber. 

 

Imagem

https://twitter.com/okadennis/status/1234242542465536000/photo/1

 

https://www.vix.com/pt/mundo/584520/cachorrinha-vira-terapeuta-e-conforta-profissionais-de-saude-que-lutam-contra-coronavirus

Pã era exatamente um legítimo representante desse mundo, um deus do grotesco, que significa “da gruta”, ou seja, um deus que habita o interior das cavernas, das grutas, no útero da Grande Mãe Terra. Sua forma híbrida, metade homem, metade cabra, simboliza justamente essa proximidade com o mundo animal, com o mundo vivo e pulsante dos campos, dos prados, das plantações.  

Sobre Pã, Junito Brandão afirma: “Pã, o velho filósofo, o sábio, um ‘simples pastor’, apegado à terra, aos animais e à natureza, possuindo também poder divinatório...” (BRANDÃO: pg. 237).

De sábio e vidente, filósofo, como descrito no mito, associamos hoje Pã ao Diabo e a uma terrível doença, o pânico. O pânico justamente poderia ser compreendido como sintoma da dissociação entre o homem e o mundo que Pã simboliza. Mas isso leva nossa reflexão por um outro caminho, que pode ser retomado em outra ocasião.

Por agora, é sobre sua relação com a ideia de pandemia que queremos pensar. Pã traz em seu nome o sentido do “tudo ao mesmo tempo aqui e agora”, resgatando a ideia de todo, de “holos”, de “organum”, ou seja, daquilo que deve ser considerado em seu aspecto global, aquilo que não se submete a divisões, esfacelamentos, aparentes classificações.

Nada para mim remete mais a Pã do que essa impossibilidade de dividirmos a vida em áreas de saber, em classes econômicas, em setores de produção, esse fatiamento do mundo sempre realizado com o intuito de despotencializar a vida e dominar as forças vitais.

E é esse caráter unificador de uma pandemia – todos somos vulneráveis, ninguém pode se blindar, não importa quanto dinheiro ou poder tenha – que me parece representar claramente Pã.

O longo processo civilizatório que trouxe muitos ganhos nos cobrou, no entanto, o apagamento da nossa raiz comum, a nossa humanidade tão bem representada pela nossa natureza biológica, pela nossa mortalidade, pela nossa sujeição ao alimento e pela nossa fragilidade como indivíduo.

Tem sido interessante observar como muitas pessoas hoje parecem surpresas com a constatação da codependência na qual a pandemia as colocou, como se não fôssemos todos tão codependentes das redes de sociabilidade e dos vínculos primordiais desde sempre, como espécie. Não falo aqui daquela codependência patológica, clínica, falo dessa codependência própria de todos os seres que habitam o mesmo bioma. Em nosso caso, esse bioma, a casa comum, é o planeta Terra.

Enquanto Pã nos lembra de nossa natureza animal, mortal, frágil e codependente, a Terra se regenera. Há dados abundantes na internet de como rios, lagos, bosques, atmosfera, corais, enfim, quase todo o planeta se purifica, restabelece sua vitalidade constantemente destruída por essa espécie arrogante chamada humana.

Se Gaia tivesse que enviar alguém para conter a hybris humana, para alertar que nós somos da Terra – e não que a Terra é nossa, como temos na visão ocidental -, e que temos sido péssimos hóspedes, adoecendo gravemente a hospedeira, não imagino um deus melhor do que Pã.

Nossa reação de terror frente a Pã é tão maior quanto mais distante estamos da nossa natureza biológica, da nossa relação com a mãe Terra. Tê-lo transformado em nosso Diabo diz muito sobre nossos valores e sobre os deuses que temos adorado. Escolhemos os deuses do patriarcado: o dinheiro, o sucesso, a acumulação, a grandiosidade, a velocidade, enfim, tudo que se construiu sobre a destruição do equilíbrio natural planetário, tragédia para a qual temos sido alertados há décadas por James Lovelock.

Essa pandemia traz uma lição em seu nome, a necessidade de mudança dos valores humanos. Agora temos a chance de pararmos de negar o que sempre deveríamos ter considerado: somos uma única espécie, num planeta que nos acolhe gentilmente, uma espécie frágil, que só encontra sua força no estabelecimento de uma vida em comum.

As crianças e os adolescentes têm sempre uma enorme necessidade de se diferenciarem, de se destacarem, de provarem para os outros que são “especiais”. Adultos sabem que, no fim e ao cabo, a grande bênção é ser apenas um sujeito comum.

Está na hora de amadurecermos, de promovermos um salto de consciência e aceitarmos nossa condição de apenas mais uma espécie. Claro que com o diferencial da consciência, o que não é pouco; mas apenas mais uma espécie nesse lindo planeta que agora passa melhor do que antes da pandemia.

No momento em que é preciso que milhões morram e todos se recolham para que a Terra possa se regenerar, é porque realmente nossa arrogância enquanto espécie passou dos limites do tolerável faz tempo. E Pã, que veio nos visitar, talvez tenha vindo nos lembrar de nossos pés de cabra, da necessidade de pisarmos nessa Terra com a delicadeza dos animais.

Dra. Malena Segura Contrera - Membro Analista do IJEP

Referências:

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega, vol. 2. Petrópolis: Vozes, 1986

CONTRERA, M. S. Mídia e pânico - saturação da informação, violência e crise cultural na mídia. S. Paulo: Annablume, 2002.

Pode ser acessado integralmente no link:

https://ac0d5743-3bab-4d55-9a76-1d68bbe29ee7.filesusr.com/ugd/fd7fa6_e0bd2073e27f4153aa32a3e8c853db6b.pdf

HILLMAN, J. Cidade e Alma. S. Paulo: Studio Nobel, 1993.

JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 1993.

LOVELOCK, J. Gaia – alerta final. Rio de Janeiro: Ed. Intrínseca, 2010.

MORIN, E. e WULF, C. Planeta, a aventura desconhecida. S. Paulo: Unesp, 2003.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. S. Paulo: Cia. das Letras, 2004.

ZOJA, L. História da arrogância. São Paulo: Axis Mundi, 2000.


Dra. Malena Segura Contrera - 04/04/2020