PENSAMENTOS PARA UM "NOVO NORMAL"

PENSAMENTOS PARA UM "NOVO NORMAL" Psicologia Junguiana

Com três meses de isolamento por causa do coronavírus, vivemos nesse momento muitas incertezas provocadas por essa pandemia que trouxe consigo adoecimento, morte e dificuldades financeiras. É uma fase de mudanças na vida de todas as pessoas, mas o que todos têm se perguntado ultimamente é, será que essas mudanças vieram para ficar ou voltaremos ao normal do passado? Que normal passaremos a viver? Será que o que vivemos não é o fim de uma fase e o início de outra?

Estamos sendo praticamente obrigados a refletir que tipo de vida estávamos vivendo, que vida é essa que não considera o outro, onde procuramos proteger a economia, pois CNPJs são mais importantes do que CPFs, como se a economia não fosse também formada por pessoas. Temos vivido uma tensão política muito grande devido a insensibilidade e a falta de orientação do nosso presidente, que se desdobra em vários comentários infelizes, ampliando a indignidade em relação a tudo que está sendo perdido nessa pandemia.

A cultura, expressão maior de um povo, também está sendo desqualificada. E o pior, as inúmeras mortes que assistimos, de pessoas que foram praticamente sacrificadas, dado que ficaram sem o cuidado, empatia e respeito que se espera da liderança do país. Esses são alguns poucos exemplos de como o trato político irresponsável nos desgoverna e agrava a tensão num momento que já é, por si só, extremamente delicado.

 

Mas já vivemos há muito tempo essa realidade de dissociação e agora é que ela está sendo percebida com toda sua força, colocada no seu volume máximo, certamente para nos chamar a atenção de alguma coisa. Algo deve ser percebido pela humanidade, que acredito ser essa falta de sensibilidade e empatia, onde o excesso de racionalidade desafia com arrogância até a própria ciência, que é onde a razão deve ser utilizada com bom senso na busca por resultados. Atualmente, a dissociação é tão grande, que o líder do país acredita que um medicamento, mesmo sendo largamente desaprovado pela grande maioria da comunidade médica científica mundial, deve ser usado como parte de um protocolo de tratamento para nossa população.

 

Não podemos negar que a nossa época é um tempo de dissociação e doença. As condições políticas e sociais, a fragmentação religiosa e filosófica, a arte e psicologia modernas, tudo dá a entender a mesma coisa. Será que existe alguém, mesmo tendo só um pouquinho de sentimento de responsabilidade, que se sinta bem com este estado de coisas? Se formos honestos, temos que reconhecer que ninguém mais se sente totalmente bem no mundo atual; aliás o mal-estar vai aumentando. (JUNG OC vol 10/3 par. 290)

Jung escreveu essas palavras décadas atrás e elas continuam tão atuais que parecem ter sido escritas ontem. O que ele mostra é que não é de hoje que temos esse problema.

A vida foi colocada de lado em função da busca pelo poder, pelo ter e consumir. As pessoas se tornaram viciadas em comprar e o ter se tornou mais importante que o ser, mas as necessidades do coração não podem ser encontradas somente no dinheiro e no poder.

O resultado, é bem verdade, pouco tem a ver com problemas cotidianos como vender ou comprar. Mas o sentido da vida não está de todo explicado pela nossa atividade econômica, nem os anseios mais íntimos do coração humano atendidos por uma conta bancária...Nossas vidas são agora dominadas por uma deusa, a razão, que é a nossa ilusão maior e mais trágica, é com a ajuda dela que acreditamos ter "conquistado a natureza"....O mais importante instrumento do homem, a sua psique, recebe pouca atenção e é muitas vezes tratado com desconfiança e desprezo. "É apenas psicológico" é uma expressão que significa, habitualmente: "Não é nada."  (JUNG - O Homem e seus Símbolos pgs. 101 e 102)

Observamos na citação de Jung o alerta que ele repete muitas vezes sobre a desvalorização da subjetividade. As pessoas não se conhecem e não tem o menor incentivo para fazer isso. A falta de reflexão do homem por si próprio e pela vida o mantém preso na ignorância, levando-o a agir com medo e egoísmo, de forma narcísica, sem perceber as outras pessoas.

O sentir deixado de lado nos leva principalmente ao absurdo do racismo, por exemplo, que explode agora com toda força e que parece aos que não tem sofrido desse mal que ele não existe, mas todos estamos afundados nisso, na profundidade do racismo estrutural e o encontramos em toda parte. É responsabilidade de todos aprender a lidar consigo e com o outro, lidar com o que não nos é familiar e mesmo assim permitir a todos ser quem são. Lidar com o outro em nós mesmos, com nossos preconceitos em relação ao que nos é diferente, nos obriga a ver a diversidade da existência. Esse trabalho de olhar para nossa sombra é bem desafiador, mas traz consciência para o ego sobre a multiplicidade de mundos que podem e devem coexistir nas almas das pessoas.

Quando os sentimentos e as emoções são deixados de lado, esse material pessoal cria uma espécie de bloqueio das funções normais e coletivas dos complexos, fazendo com que possam irromper em algum momento, quer a pessoa queria ou não, podendo até criar sintomas e doenças. O reconhecimento, compreensão, enfrentamento e integração do material pessoal sombrio, equilibra a energia psíquica, retirando a autonomia dos complexos e levando-os ao seu funcionamento normal.

Não temos coragem de reconhecer que o caminho não é o do consumo que alimenta o ego somente, mas de uma forma respeitosa de consumo que perceba as necessidades da natureza. O planeta é um organismo vivo, que é a nossa casa, o lugar que precisamos manter e cuidar para que a vida possa ser preservada nas próximas gerações. Os índios americanos, por exemplo, pensavam no legado que deixariam até sete gerações depois, suas decisões então não poderiam ser baseadas somente no interesse mesquinho para o benefício de poucos.

O consumo do ego leva ao absurdo de pessoas que tem mais de 300 pares de sapato, enquanto que ainda só podemos usar um par de cada vez. E além disso, por causa do que estamos passando, acabamos por usar somente aquele velho chinelo gostoso ou até mesmo, andamos descalços em casa. Tudo que sempre foi supérfluo está sendo escancarado e deixado à mostra, para que possamos ver que para viver, se necessita muito menos. Esse exagero consumista é fruto do que foi citado acima e acaba criando muito lixo e desperdício dos recursos finitos da mãe natureza.

Mas o que é realmente necessário para nós?

A maioria dos economistas se preocupam em continuar a encontrar formas de fazer a economia crescer, mas sem refletir sobre as consequências, no longo prazo, o crescimento constante e sem fim do PIB, acaba por destruir a natureza e sustentar essa falta de autopercepção. Manter esse sistema mal elaborado em funcionamento, exige comprometimento e contribui para que as pessoas permaneçam alheias às suas almas. É preciso encontrar uma forma de coexistir com a natureza e isso pode vir através do reconhecimento da nossa própria subjetividade, ou seja, a sensibilidade dentro cada um de nós.

Segundo o dicionário, a definição de economia é a ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar. Nada diferente do sistema psíquico, que possui sua própria economia, onde o fluir de energia entre ego e inconsciente, possibilitam a expansão da consciência e a obtenção e autorização dos recursos subjetivos necessários para o nosso processo de individuação. E mais, diz Jung:

Essencial mesmo é apenas a vida subjetiva do indivíduo. Só ela faz história, somente nela acontecem em primeiro lugar as grandes transformações; todo o futuro e toda a história mundial brotam qual gigantesca soma dessas fontes ocultas do indivíduo. Em nossa vida mais privada e mais subjetiva somos não apenas os objetos passivos mas os fautores de uma época. Nossa época somos nós! (JUNG OC vol 10/3 par. 315)

Logo, conforme a citação de Jung acima, a subjetividade é o mais importante e se não olharmos para dentro, não vamos transformar a realidade de fora.

E assim, nos últimos anos, nosso conjunto de subjetividades vem formando coletivamente esse momento de grande polarização política, onde as pessoas se atacam e se defendem o tempo todo, se perdendo em discussões intermináveis, enquanto a vida continua e o país vai sendo levado em segundo plano. E o pior agora, com o vírus, a própria vida vai sendo deixada em segundo plano, pois nosso presidente se preocupa mais com ataques e defesas políticas, do que preservar a vida.

Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea. Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer. (JUNG OC 7/1 - prefácio)

Não são todos que tem condições de fazer essa reflexão, pois infelizmente precisam continuar trabalhando numa realidade ainda mais tensa e desafiadora para manter seu sustento. Muitos estão isolados mas continuam com seus empregos e trabalhando mais do que antes, outros sem ocupação, outros com tédio, outros em trabalhos essenciais que não podem parar. Mas quem conseguir fazer o encontro com a própria sombra, poderá contribuir para trazer mais consciência para todos nós.

Existe o postulado psicológico da compensação, encontrado nas tradições através dos opostos, quando uma cultura atinge o ponto mais alto vem a dissociação, aparentemente sem sentido e esperança, mas essa crise também traz no seu interior os germens de uma nova luz, de um novo tempo.

Então concluo procurando responder às perguntas do início do texto, mas que dependerão da forma como cada um encarar a situação de pandemia. Se for encarada apenas como crise, certamente não haverá mudança na vida de quem assim escolher, continuará a viver na ignorância que mantém as pessoas presas ao consumo irresponsável e ao sistema político polarizado e tirânico que tem se fortalecido nos últimos tempos.

Ao passo que, se aproveitarmos a oportunidade que a nossa época está nos oferecendo, compreendendo sua mensagem, assumindo nossa parcela de responsabilidade em nos desenvolver subjetivamente, acredito que poderemos dar fruto a um novo tempo. Transformação essa que deve ser feita individualmente, pois assim cria a base para a transformação coletiva que se faz tão necessária.

Portanto nosso "novo normal" dependerá de cada um de nós, cada um vai ter que dar sua própria resposta a essas perguntas.

Raphael Ruiz Amorim

Analista em formação pelo IJEP

[email protected]

Referências:

JUNG, C.G. Obras Completas vol. 10/3 - Civilização em Transição. Vozes, 2013.

JUNG, C.G. Obras Completas vol. 7/1 - Psicologia do Inconsciente. Vozes, 2014.

JUNG, C.G. O Homem e seus Símbolos. Vozes, 2016.

WHITMONT, E. A Busca do Símbolo. Cultrix, 1969.


Raphael Ruiz Amorim - 02/07/2020