SHERASZADE E A PRODUÇÃO ARTÍSTICA E CULTURAL COMO IMPORTANTE RECURSO DE CONTATO COM O SIMBÓLICO E FORMA DE MANUTENÇÃO DE UMA VIDA MAIS SAUDÁVEL

Sheraszade e a produção artística e cultural como importante recurso de contato com o simbólico e forma de manutenção de uma vida mais saudável SIMBOLISMO NAS ARTES

No conto das Mil e uma Noites, o rei é salvo da sua conduta arbitrária e assassina pelo simbólico das histórias que ouve, assim como, a própria Sheraszade se salva da morte iminente ao usar como recurso aquilo que fazia melhor, se expressar através da arte. Ela estava tão segura do poder que tinha, que se oferece para se casar com o rei tirano e graças a isso, como todo bom conto de fadas, o amor e o bem vencem o mal, neste caso, a partir da possibilidade do encantamento de ouvir e contar histórias. Assim, devido a isso, ambos podem prosseguir para o seu desenvolvimento saudável de amar, reinar e constituir uma família. Esse rei literal, que ao ser traído passa a matar, pode facilmente ser utilizado como referencial para a discussão aqui proposta de que a falta de acesso a arte, ao simbólico nos torna menos saudáveis.

Arnaldo Antunes, cantor e compositor brasileiro, escreve os seguintes versos em sua música Comida, “A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte; A gente não quer só comida/A gente quer bebida, diversão, balé.” Considerando o que o compositor aborda, fica a questão, só o alimento objetivo, o que mata a fome física, objetiva, é suficiente para um desenvolvimento saudável do ser humano? Certamente não, pois quando se é privado do acesso aos bens culturais imateriais também se é privado da possibilidade de ampliação do conhecimento de mundo, se é privado da possibilidade de simbolização do mundo que nos cerca. Sendo assim, essa privação também afeta de forma significativa o desenvolvimento e consequentemente a nossa saúde.

De acordo com a Psicologia Analítica, teoria desenvolvida por Carl Gustav Jung (2013) não é possível separar o corpo da “alma”, portanto não basta alimentar o físico se não se alimentar também o espírito, porque estes são fenômenos interrelacionados e a única forma de transcender a dicotomia matéria e espírito é através dos símbolos, elementos fundantes na construção evolutiva do ser humano. Ou seja, a produção artística, a possibilidade de simbolização é o alimento para a alma.

Yuval N. H. (2015) coloca que, as manifestações artísticas como lendas, mitos, deuses e tantas outras surgiram com a Revolução Cognitiva que diferenciou definitivamente o Homo Sapiens de outras espécies Homo que eram capazes de comunicar “Cuidado! Leão!” Mas, ainda não eram capazes de transformar esse leão em símbolo como, “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. É também relevante ressaltar que, não apenas falar, mas compreender a mensagem, com todo o seu potencial simbólico, foi o que oportunizou o grande salto evolutivo humano.

A produção cultural, artística, perpassa a humanidade desde tempos imemoriais, sendo assim, é possível supor também que o homem tenha se tornado homem e adquirido consciência quando elaborou o seu primeiro desenho rupestre, assim simbolizando sua ação e transmitindo para as gerações futuras o subjetivo, o sentimento da ação. Ao simbolizar, transformar o leão em símbolo, metaforizar o leão e compreender o sentido dessa metaforização, ao expressar seus sentimentos através de um desenho, ao bater um osso em outro para produzir um som ritmado, o homem se diferenciou dos outros animais. E, de lá para cá, a produção e expressão simbólica expressa principalmente pela produção artística cresceu e vem se transformando a cada dia, não surge do nada e para o nada.

A partir disso, não é possível descartar a importância que tem o contar e ouvir histórias para se manter saudável e humano, entende-se aqui que toda a expressão artística conta uma história seja esta expressão música, literatura, dança, teatro, cinema, manifestações folclóricas e religiosas etc. Considera-se, portanto, Bordieu (2007), quando afirma serem os diferentes objetos simbólicos como mito, língua, arte, ciência instrumentos de conhecimento e construção do mundo dos objetos.

De acordo com Tolstói (2019) um enorme esforço é realizado por diversos cidadãos no mundo para satisfazer as demandas da arte. Mas, a questão que fica é, todos têm acesso de forma igualitária aos bens produzidos? É importante ter acesso a esses bens? Não ter acesso compromete a capacidade de simbolização do indivíduo? Isso compromete o desenvolvimento saudável? A resposta a essas perguntas é, a arte por ter se tornado também um produto do capitalismo, deixou de ser acessível a todos de forma igualitária e sim, essa diferenciação compromete a vida saudável dos indivíduos que se tornam literais e assim como o rei Sharyar, da história das mil e uma noites se tornam adoecidos.

O ser humano passa agora por um momento atípico, a humanidade foi acometida por uma pandemia que, para além de todo o resto, nos apresenta a realidade da necessidade do contar e ouvir histórias, de ouvir músicas, de estar mais próximos de produções artísticas que sequer percebíamos ou valorizávamos, já que essas produções estão sempre vinculadas ao tempo do ócio, da não produtividade. Mas, será mesmo que a arte é supérflua? Assim como se viu que o homem passou a ser homem quando iniciou a simbolizar, não teria a arte uma característica muito mais importante do que apenas divertir? Neste momento de pandemia, apesar de ser indiscutível a importância dessas manifestações, também vivemos o momento em que a arte é mais atacada e censurada, pelo menos no Brasil, especialmente no acesso a esta pelos menos favorecidos (não que fosse muito melhor antes da pandemia). De acordo com Bordieu (2007), a classe dominante legitima essas distinções no acesso aos bens culturais, o que confirma a ordem estabelecida e a divisão de classes. Mas, a questão que fica é, de fato é importante que se tenha acesso a esses bens, isso é vital? Afinal, é sabido que se pode viver sem ir ao cinema, mas não se pode viver sem comer ou beber. Tolstói (2019, p. 71) afirma que a arte “é um meio de intercâmbio humano, necessário para a vida e para o movimento em direção ao bem de cada homem e da humanidade, unindo-os em um mesmo sentimento.” A partir das falas de Yuval e Tolstói é possível supor que sem a arte e a simbolização, talvez fôssemos menos humanos.

Não há o que ser questionado sobre a necessidade do atendimento das necessidades básicas do indivíduo, como o acesso ao alimento e que este é responsável por um desenvolvimento biológico saudável. Contudo, certamente não basta só matar essa fome. Enquanto seres humanos não basta apenas o alimento, precisa-se de mais, e como afirma a música, citada anteriormente, “a gente não quer só comida”, a fome é de algo mais. Ou seja, apenas alimentar o corpo não resultará em satisfação das necessidades para um desenvolvimento saudável. O acesso ao simbólico, a fantasia, também são essenciais para o ser humano e quando se é privado desse acesso, o desenvolvimento fica prejudicado.

No geral, devido a situação de empobrecimento da nossa população e os problemas prementes do país, não se considera a arte como recurso significativo para o desenvolvimento de uma vida saudável. Boa parte dos cidadãos brasileiros têm baixa escolaridade e não têm a oportunidade de se desenvolver academicamente e, devido a isso, ocupam subempregos que mal dão conta do sustento individual necessário à moradia e alimentação. Portanto, a prioridade desses cidadãos é sobreviver. Tornando-se assim indivíduos que não têm acesso aos bens culturais produzidos pela própria sociedade da qual fazem parte, e têm o seu desenvolvimento cognitivo e emocional prejudicado, já que vivem na literalidade e lhes é negada a possibilidade de simbolizar a vida.

Para as classes menos favorecidas, a única possibilidade de ter acesso a esses objetos simbólicos seria através da educação, contudo a educação no nosso país, assim como os acessos a cultura, são excludentes e privilegiam a classe econômica dominante. Uma parte expressiva da população é alijada do acesso a esses bens, o que se agrava ainda mais na idade adulta, já que até mesmo os poucos projetos desenvolvidos sobre o tema são sempre destinados ao público infantil e adolescente. No geral, o cidadão adulto trabalha, aproximadamente, doze horas por dia, acrescidos a isso o tempo que passa no transporte público.

Contudo, a desvalorização da produção artística não afeta apenas as classes menos favorecidas, é possível ver atualmente no Brasil um descaso com essa produção, como se fosse descartável, supérflua, não necessária. O fim do Ministério da Cultura é um exemplo do quanto a produção cultural vem sendo desconsiderada. Assim, uma boa parcela da nossa população, mesmo aquela que tem a possibilidade e o recurso para ir a museus, frequentar teatros, assistir espetáculos de danças folclóricas etc. entendem que isso não é necessário. Devido a isso, não cobra que existam disciplinas de artes na escola, pelo contrário, entendem que estas são desnecessárias e apoiam candidatos que defendam a transformação dos currículos escolares para a exclusão dessas disciplinas, assim como não apoiam políticas públicas que incentivem a produção artística e cultural no país.

Sendo assim, fica fácil perceber o quanto a nossa sociedade se apresenta atualmente adoecida e literal como Sharyar, no olho por olho, na não reflexão e na não compreensão do outro, quase bestas que buscam resolver tudo na bala ou quem sabe, na pólvora. Talvez a relevância e a transformação dessa sociedade adoecida estejam no retorno a possibilidade de simbolização, de ouvir e contar 1001 noites de histórias.

Andrea Alencar, Membro Analista em formação pelo IJEP

Rio de Janeiro

 

Bourdieu, P. (2007) A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva

Harari, Y. N. (2015) Sapiens – Uma breve história da humanidade. Porto Alegre, RS: L&PM

Jung, C. G. (2013) A Natureza da Psique (10ª ed.). Petrópolis: Vozes

Tolstói. L. (2019) O que é arte? (4ª ed.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira

 

 

 


Andréa Alencar - 23/11/2020