(11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

TEMPOS PANÓPTICOS: SOBRE O PODER ASFIXIANTE DO CONTROLE INVISÍVEL NAS REDES SOCIAIS

 

 

"Somos bem menos gregos do que pensamos.

Não estamos nem nas arquibancadas nem no palco,

mas na máquina panóptica, investidos por seus efeitos

de poder que nós mesmos renovamos,

pois somos suas engrenagens" - (Michel Foucault, Vigiar e Punir)

 


Todos nós, pelo menos os que vivem conectados à internet e transitam em redes sociais, nos deparamos cotidianamente com inúmeras postagens, das mais prosaicas às mais profundas, das mais dialéticas às mais autoritárias. Usuários que transitam no Facebook, por exemplo, podem fazer de tudo um pouco: desde se divertirem com imagens e situações banais, até ler, discutir e aprender sobre temas profissionais. E, possivelmente, alguns já tenham passado por situações de constrangimento ou desconforto com mal-entendidos advindos do embate, e por vezes, da incompreensão, com leitores que, justamente por estarem do outro lado da tela, podem fazer a leitura do que está escrito conforme a lente dos próprios complexos. Assim como nós, que também conversamos com alguém que nem sabemos ao certo quem é, ou de onde vem, reagimos a seus comentários e conclusões a partir dos nossos complexos!


Mas o que fazer quando surgem na internet posts com menção ao trabalho analítico realizado entre as quatro paredes de um consultório de psicologia, vivido e testemunhado normalmente por apenas dois parceiros, considerando a análise individual como pratica preponderante na área da psicologia clínica? Normalmente, o que encontramos nessas postagens não são propriamente estudos de caso, com dados pessoais dos pacientes atendidos, como nome, profissão, idade, local de residência ou de trabalho, entre outros aspectos que poderiam levar à sua identificação, coisa aliás, proibida pelo código que regulamenta nossa profissão. Mas, quantos posts trazem reflexões de terapeutas a partir de algum fato encantador, curioso ou difícil de manejar numa sessão terapêutica? Seria o caso de rotular o autor de tais postagens como antiéticos, de condená-los à fogueira, ou mesmo, de denunciá-los aos órgãos institucionais competentes?


Nesse artigo, recorro a uma noção basilar do trabalho psicológico, a partir dos princípios da psicologia analítica, mais especificamente das ideias apresentadas por James Hillman (2010), no livro "Ficções que curam", para ampliar nossas reflexões, e quem sabe, ajudar a elaborar alguns parâmetros para lidar com o que ocorre nesse vasto território chamado internet, quando se trata de ler e lidar com questões que aludem à prática clínica.

Nas palavras do tradutor desse livro, logo no prefácio, nos deparamos com uma ideia que pode parecer intrigante para aqueles que são alheios ao universo da psicologia:


Essa revisão (do tema) pretende, acima de tudo, mostrar que nossa vida psíquica é inteiramente ficcional: contamos histórias e somos as histórias que contamos. Mais que isso, somos a maneira como contamos nossa história. Aqueles pioneiros (Freud, Jung, entre outros) sabiam disso. Esse sentido ficcional em tudo que é psicológico - e que ajudou Freud a ‘inventar o gênero da história de caso, como nos mostra Hillman - nunca abandona a terapia, mas se torna, nela mesma, um método. (BARCELLOS, 2010, pag. 7 - grifo meu)


Complementaria esta ideia com a declaração de Jung, de que a personalidade do analista se reflete no próprio método, e que todo trabalho analítico e/ou teórico, assim como tudo que um sujeito produz no mundo pode ser visto como uma confissão subjetiva (JUNG, 1964/1996; JUNG, 2000a).


E já que tocamos nos nomes desses grandes pensadores, precursores da psicologia profunda, podemos perguntar: será que Freud seria penalizado pela publicação de seus diversos casos clínicos, riquíssimos em detalhes pessoais e familiares dos pacientes que atendia e a partir dos quais escrevia e fundamentava as ideias em seus textos? Será que Jung seria penalizado por ter publicado inúmeros relatos de casos clínicos, na maior parte das vezes, de pacientes que se encontravam internados por crises psicóticas ou histéricas graves, em vários de seus livros?i Chegando mais perto de nós, será que Nise da Silveira (1981) seria penalizada por ter publicado um livro com nada menos que 4 extensos casos clínicos de pacientes esquizofrênicos, incluindo desenhos e outros trabalhos feitos por eles, e comentando detalhes pessoais e familiares deles nestes textos?ii  Será que Freud, Jung, Nise (e tantos outros analistas/autores) pediram autorização por escrito a todos os pacientes que atenderam e sobre os quais escreveram e publicaram? Será que o fato de sabermos que Berta Pappenheim é o verdadeiro nome da paciente personificada sob um dos pseudônimos mais famosos da história da psicanálise, Ana O., poderia nos levar, precipitadamente, a perder de vista o propósito maior da escrita de Freud nos "Estudos sobre a Histeria" (BREUER;FREUD, 1895/1990)? Será que todos os professores dos cursos de psicologia seriam penalizados, por relatarem constantemente em suas aulas situações vividas rotineiramente em sua pratica clínica? Arrisco dizer que se isso ocorresse seria um pecado, pois tais relatos sempre ajudaram muito a dar corpo, por assim dizer, às teorias psicológicas que eles ensinam aos alunos!


Portanto, vale à pena enfatizar que, na leitura ou escuta de um relato de caso, seja em supervisão, sala de aula, leitura de um livro, artigo, e por que não dizer, também na internet, temos de estar cientes que:


Nos duplos dilemas entre história e ficção, entre exterior e interior (...) o foco de nosso interesse se move imperceptivelmente de um sujeito (paciente) sendo revelado para um objeto sendo exibido, do estudo do caráter para a análise do caráter. (...) Assim, Freud (e Jung) nos conta(m) menos sobre a pessoa do paciente do que sobre os sonhos dele, sobre o material dele (paciente). Nosso interesse pode ser capturado pelo que acontece a seguir e mantido pelas sutilezas da técnica (narrativa) do autor, porém não é com a história que o autor está mais preocupado (se aquilo é ou não real) - mas com a trama. (HILLMAN, 2010, pag.17  - grifo meu)


Algumas vozes poderão se levantar contrariamente a estes argumentos, apontando que naquela época esses autores não publicavam artigos no Facebook ou em outros sites da internet, o que é verdade, a internet é bem mais contemporânea! Mas podemos nos perguntar, será que o que é lido nos livros, desde que são impressos, vendidos e publicados há séculos, não é propagado mundo afora, tanto quanto o que é publicado na internet? Será que o que é ouvido numa aula por um aluno não pode ser comentado em casa ou numa roda de amigos? Quem garantirá que tais informações relativas ao recorte de um caso clínico comentado numa aula, ou um extenso estudo de caso publicado em livro, permanecerão no mais absoluto sigilo? E, claro, temos de respeitar todos os princípios éticos da profissão. Temos de prezar e cumprir os protocolos de estudos de casos que exigem uma série de cuidados para publicação de casos clínicos, e que, obviamente, por sua extensão e propósito teórico e didático, não devem ser publicados no Facebook. Mas, lembremos:


(...) A história (do caso) poderia continuar também com qualquer outra pessoa. Tanto o paciente como o médico poderiam ser substituídos por outro paciente e outro médico em outra cidade ou em outra década, e de fato eles são, e por isso a psicanálise é como um método cientifico. (HILLMAN, 2010, pag.17/18)


Portanto, temos de admitir que nós, terapeutas da alma, vulgo analistas, psicólogos ou psicanalistas, estamos inseridos numa longa tradição de pensadores e clínicos que constituíram sua praxis, e a própria história da psicologia profunda, por terem compartilhado sua experiência clínica com seus pares, em seminários, congressos, artigos, livros - pois naquela época eram os meios que tinham à sua disposição.


Neste caso, temos de nos perguntar: Será que todos os precursores da psicoterapia/análise do inconsciente teriam feito as publicações que fizeram se fosse nos dias atuais, em que parece reinar uma lógica politicamente correta para tudo e acima de qualquer coisa que possa lembrar os preceitos do mero bom senso, mais que necessário para se viver neste mundo?


Uma conclusão possível é que, se tivesse preponderado sobre esses analistas/autores tal lógica panóptica do controle invisível entre seus pares de profissão, a própria história da psicologia profunda teria perdido muito, caso esses grandes autores (e por que não dizer, também, os "menores", como nós?) tivessem sido proibidos de compartilhar ideias a partir de situações vividas em sua pratica clínica. E mesmo alguns de nós, que encontram algo positivo em discussões pela internet, como espero que aconteça com este artigo, não teríamos tido a oportunidade de refletir sobre questões tão fundamentais para nossas trocas no mundo virtual. O cuidado ético é mais que bem-vindo, mas o policiamento excessivo pode nos levar a viver como se estivéssemos dentro de um asfixiante panóptico, nos termos do controle, retaliação e ameaças de poder já denunciados por Foucault. Temos de ficar mais atentos aos sentidos mais amplos de nossas reações, especialmente no mundo virtual, pois:


(...) a terapia que negligencia a consciência da ficção na qual e com a qual trabalha está fadada aos literalismos aprisionantes de doença e cura, bem e mal, dentro e fora, ficção e realidade, enxergando muito pouco da alma vasta e paradoxal. (BARCELLOS, 2010, pag. 8)


Na psicologia analítica, primamos pelo olhar arquetípico, portanto, privilegiamos a base objetiva/impessoal em relação aos personagens imaginais que aparecem em nossas teorizações sobre a prática clínica, assumindo que:

O caso é meramente uma ilustração, portanto a personagem não tem permissão, não tem capacidade de afetar a ação. Não é a personagem e a história ou a ação que revelam o que está acontecendo, é o enredo da psicodinâmica narrada. Os personagens são incidentes de um enredo da psicodinâmica, e como tal, relativamente incidentais. (HILLMAN, 2010, pag.18  - grifo meu)


Para finalizar, podemos nos inspirar nas conclusões que surgiram do diálogo dramático vivido por Jung junto de sua anima (JUNG, 1964/1996): o que fazemos talvez resvale mais para o campo poético da arte e da imaginação, do que das teorias cientificas embasadas em fatos objetivamente comprováveis em laboratórios e tubos de ensaio, que poderiam facilmente aprisionar corações e mentes em estreitamentos literais impeditivos para a opus analítica.


Referências:

BARCELLOS, G. Prefácio. In: HILLMAN, J. Ficções que curam: psicoterapia e  imaginação em Freud, Jung e Adler. Campinas: Verus Ed., 2010.

BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (vol. 2). Rio de Janeiro: Imago, 1990.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

HILLMAN, J. Ficções que curam: psicoterapia e  imaginação em Freud, Jung e Adler. Campinas: Verus Ed., 2010.

JUNG, C.G. A prática da psicoterapia. (OC, vol. 16). Petrópolis: Vozes, 2000a.

__________. (1964). Confronto com o inconsciente. In: Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1996.

__________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. (OC, vol. 16). Petrópolis: Vozes, 2000b.

__________. Psicogênese das doenças mentais. (OC, vol. 3) Petrópolis: Vozes, 1986.

SILVEIRA, N. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro, Alhambra, 1981. 

 

Santina Rodrigues, Psicóloga clínica e Arteterapeuta. Mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. Professora e supervisora do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. (santina.rodrigues.oliveira@gmail.com)


i Cito aqui apenas alguns: o capítulo "Atividade Psiquiátrica" no livro "Memórias, sonhos, reflexões (JUNG, 1964/1996), em que Jung apresenta mais de 10 relatos de situações vividas junto de seus pacientes; ver, também, o capítulo "estudo empírico de um processo de individuação", no livro "Os arquétipos e o inconsciente coletivo" (JUNG, 2000b - OC 9) , em que Jung narra a história pessoal de uma paciente, seus sonhos e discute cerca de 15 mandalas detalhadamente - aliás, um dos estudos de caso mais ricos feito por ele; por fim, todos os diálogos mantidos com pacientes durante atendimentos no Hospital Burghölzli, que foram transcritos como diálogos e constam em alguns capítulos do livro "Psicogênse das doenças mentais" (JUNG, 1986, vol. 3), entre tantos outros.


ii Agradeço aos colegas do IJEP, especialmente ao Prof. Waldemar Magaldi, que apontou Nise da Silveira como exemplo numa discussão sobre questões éticas na produção de textos pelos alunos dos cursos de especialização do IJEP, em uma reunião da equipe de professores do Instituto.

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros