(11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

Black Mirror: a tecnologia, o sombrio e a individuação

 

Séries de TV em geral passaram a fazer parte de nosso cotidiano; os amigos recomendam, os pacientes se identificam com personagens. Há uma enorme quantidade delas disponível, desde as chamadas água com açúcar até as de temáticas mais pesadas, passando pelas românticas e adolescentes. Há as baseadas em fatos reais e as totalmente ficcionais. O fato é que elas estão em nosso arcabouço cultural atual, mais do que o cinema. Neste artigo gostaria de tecer algumas reflexões sobre um episódio da série britânica Black Mirror, bastante conhecida e comentada.

            A série possui episódios independentes, não se trata de uma história narrada em várias partes. Um deles, dos mais famosos, é intitulado "Queda livre" (Nosedive), e logo de cara nos parece bastante familiar devido à temática do uso compulsivo e magnético das redes sociais nos celulares. A ideia de viver em busca dos likes é levada ao extremo no episódio, pois o aplicativo (futurista mas nem tanto) usado por todos permite dar uma nota para qualquer pessoa que cruze seu dia, conhecido ou desconhecido, do motorista do táxi à secretária do consultório ou ao colega de trabalho. A partir desta nota, cada um vai obtendo um ranking, que indica o status do cidadão, chegando a ser o parâmetro para se ter acesso a produtos exclusivos ou ambientes mais sofisticados - torna-se assim uma espécie de moeda social.

            Desta forma, os likes convertidos em números não apenas dizem respeito ao narcisismo de cada um, mas qualifica sua posição social, operando como mecanismo de segmentação. A personagem principal, Lacie, uma jovem de cerca de 30 anos, é bastante ativa no jogo de conseguir boa pontuação, como a maioria das pessoas. Sempre sorridente e amável, vai aos poucos progredindo. Seu entusiasmo cresce vorazmente quando se interessa por comprar uma casa num condomínio bem cotado, mas a facilidade de compra aumentaria bastante caso sua nota atual subisse - tarefa árdua em curto prazo. Diga-se de passagem, a campanha publicitária do imóvel envolve uma certa promessa de ótimo círculo social e possibilidade de conhecer um grande amor. A personagem não parece ter amigos reais ou vínculos amorosos, sendo assim boa presa para este tipo de negócio.

            Lacie então - como quem não quer nada - faz contato com uma antiga amiga do colégio, Naomie, que possui boa pontuação. É convidada por ela para seu casamento, o que ela então enxerga como excelente oportunidade de fazer mais contatos com pessoas de alto nível social, ser bem avaliada por eles e chegar na desejada pontuação. Ela contrata até um consultor para criar estratégias de aumento de pontos, e o mesmo diz que essa é de fato uma chance rara de subir rapidamente.

            Bem, não é difícil enxergar o poder da identificação com a persona e a força do ultra narcisismo que, impulsionados pela tecnologia, movem os sujeitos em direção a uma vida de trocas sociais baseadas no interesse - seja para se sentir (ilusoriamente) amado, seja para ter maiores possibilidades financeira e de acesso. Um alpinista social como Lacie precisa buscar oportunidades para o fortalecimento da persona, processo que em geral faz com que a pessoa ignore seus aspectos sombrios e invista energia psíquica na manutenção daquilo que ela acredita ser. A sustentação da máscara é penosa para o sujeito, como aponta Jung (1987).

            A personagem mantém contato com a "amiga", até se aproximar o dia do casamento. O irmão de Lacie, alguém aparentemente menos apegado ao jogo de personas, a critica, lembrando que Naomie no passado havia tido algo com o namorado de Lacie, em atitude traidora - o que ela simplesmente nega. Ao falar com Naomie, que mostra sua casa enorme com piscina, Lacie dá risadinhas de suposta alegria, nitidamente um invólucro que esconde inveja e/ou desprezo.

            Entretanto, a trama começa a mudar no trajeto de ida de Lacie ao casamento (ela pegaria um avião), como se certas artimanhas do destino passassem a operar contra ela, ou melhor, contra sua persona tão bem assistida. Ao sair de casa para se dirigir ao aeroporto, há uma cena aparentemente banal, mas bastante simbólica. A personagem esbarra numa pessoa passando pela calçada - pessoa esta com alto ranking e que fica irritada, dando a ela má avaliação. Dentro do táxi, fala com Naomie proferindo gritinhos alegres e escandalosos (além de falsos) a respeito do grande dia que está chegando, algo que incomoda o motorista, que também dá a ela uma nota ruim.

            Lacie então se dirige ao guichê da companhia aérea, e descobre que o voo foi cancelado. Para seu desespero, ela não consegue ser realocada para um próximo voo no mesmo dia por não possuir a pontuação mínima de cliente especial (por conta das duas últimas más avaliações, ela fica com centésimos a menos do necessário). Finalmente nossa alpinista social sai do sério e demonstra ódio - o que a rende uma expulsão do aeroporto conduzida amigavelmente pelo segurança. Contudo, o pior castigo está por vir: pelo comportamento no aeroporto, Lacie perde um ponto inteiro temporariamente, e cada avaliação negativa a partir disso lhe renderá o dobro de queda no ranking.

            Sem se desesperar totalmente, ela ainda aluga um carro a fim de dirigir 9 horas em direção à sua grande oportunidade de ascensão social. E então a desgraça se faz completar. O carro fica sem energia (sendo um modelo antigo, único disponível para sua categoria social, os postos não possuem plugs antigos adequados a ele). Ela parte para tentar carona na estrada e, após penar, pois sua pontuação não a ajuda, uma curiosa personagem surge na trama. Trata-se de uma motorista de caminhão, de cerca de 60 anos de idade. Ela espontaneamente oferece carona em seu velho veículo; Lacie hesita, mas entra.

            Na conversa travada entre as duas, a senhora conta que já pertencera à elite dos 4,6 pontos e dava duro nas redes sociais; entretanto, após a morte de seu marido - que não conseguiu tratamento avançado de câncer por ter menor score que outras pessoas - mudou radicalmente de vida e passou a falar o que realmente pensa. A sinceridade custou-lhe muitas amizades e oportunidades, mas a fez mais livre por outro lado. Lacie parece ficar pensativa, e adormece. A carona chega ao fim, ela estava próxima ao local de casamento; despede-se da velha caminhoneira, que ainda dá a ela uma garrafa com uísque, caso precisasse.

            A personagem principal ainda crê em sua missão, mas vai abandoando-a ao longo da travessia final, sobretudo quando Naomi a liga para pedir que desista e volte para casa. Lacie contava com menos de 2 pontos e a "amiga" abre o jogo: não podia passar pelo vexame de ter uma madrinha deste nível. Trava-se então um diálogo muito franco e agressivo, pois uma explicita para a outra que não se tratava de amizade, carinho, história de vida, e sim de status e aparência. Finalmente Lacie se transfigura, bebe o uísque, pula o muro do condomínio onde ocorria a festa (não se permitia a entrada de pessoas com baixa pontuação) e faz seu discurso - obviamente não o planejado, mas um outro, mais real, apontando sua própria insegurança e submissão, além do lado mesquinho e egoísta da noiva, mas sem deixar de elogiá-la quanto ao lado solidário; até termina dizendo que a ama, já carregada por policiais que a conduzem à delegacia.

            Encarcerada, ocorre a última cena, na qual ela e um homem na cela a sua frente começam a se provocar e a se ofender, num misto de raiva e satisfação por poder simplesmente xingar alguém. A mensagem neste ponto é clara e quase clichê: a sinceridade dos sentimentos nesta sociedade só pode ser demonstrada num presídio.

O ponto mais interessante do episódio, a meu ver, é a passagem de uma mulher impecável na aparência - iludida pelas redes sociais e pelas promessas de consumo de felicidade -, para uma mulher suja, meio bêbada e agressivamente sincera, conectada com suas frustrações e ódios. Esta passagem se dá na estrada, a travessia noturna na qual surge uma figura quase messiânica, uma espécie de psicopompo que a conduz aos conteúdos sombrios não visitados pela persona. Vale lembrar que o problema da identificação com persona é a pouca escuta à multiplicidade do mundo inconsciente, que tende a retornar de forma contundente em ocasiões favoráveis.

            O self coloca Lacie numa situação de desgraça, talvez a única forma com que uma pessoa tão identificada com a persona - que afinal a deixa num lugar vazio de relações afetivas - possa se deparar com a gigantesca sombra formada diante deste quadro. Afinal, Jung enfatizava que o self "[...] deveria ser comparado a um demônio, um poder determinante sem consciência; as decisões éticas são relegadas ao homem. Acompanhando Jung conceitualmente, o self pode ser definido como uma incitação arquetípica para coordenar, relativizar e intermediar a tensão dos opostos. Por meio do self, é-se posto em confronto com a polaridade de bem e mal, humano e divino. A  interação exige um exercício da liberdade humana máxima perante solicitações   aparentemente incompatíveis da vida; o único, exclusivo e decisivo árbitro é a descoberta do significado (Samuels; Shorter; Plaut, 1988, p.194). 

            Qual o inferno de Lacie? A prisão virtual da (super)identificação com a persona? Ou a sombra da agressividade e da sinceridade atroz? Possivelmente ambas, já que a primeira evoca a segunda. Não sabemos o destino da personagem, e se ela conseguirá fazer um equilíbrio a partir da vivência dos opostos. Em todo caso, o perigo da tecnologia - que obviamente por um lado traz facilidades e qualidades positivas - está dado para todos os que a utilizam; algo alarmante em nossos dias. Porém, o self sempre se fará presente, muitas vezes cobrando seu preço, dada sua feroz natureza teleológica.

Dr. Guilherme Scandiucci

Membro Analista em Formação e professor do IJEP


Referências

JUNG, C.G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1987. (Obras completas de C.G. Jung, v.7/2).

SAMUELS, A., SHORTER, B., PLAUT, F. Dicionário crítico de análise junguiana. Rio de Janeiro: Imago, 1988.


 



 

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros