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O significado do envelhecimento e as etapas da vida

Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.

Carl Jung

 

Para envelhecermos tivemos de nascer e viver mais de 60-65 anos. A chegada à extrema velhice é o coroamento de uma longa trajetória e pressupõe a vivência de uma série de experiências, emoções, controlar ou não impulsos, passar por conflitos e ser afetado por várias situações internas e externas. Enquanto vivos, sempre temos tempo para as transformações mais importantes, as que se referem às nossas tomadas de consciência, porém algumas outras possibilidades o tempo já nos tirou.

 

Durante o desenvolvimento da personalidade na criança, algo anterior ao ego dá significado, organiza, encaminha, cria um padrão para essa consciência fragmentária do ego que está nascendo, chama-se Self. Neumann explica este processo dizendo que a partir da totalidade, "o Self estabelece um "derivado" de si próprio, uma "autoridade", o ego, cujo papel é representar os interesses da totalidade, defendendo-os das demandas particulares do mundo interior e do meio ambiente. Simbolicamente, a relação do ego com o centro da totalidade é uma relação de filho. (NEUMANN, 1995, p. 10). Mas nem sempre o ego representa bem a totalidade e muitos conflitos vão aparecendo ao longo da vida. Caso esses conflitos não sejam absorvidos e assimilados de forma sábia, a velhice será um tempo de mais rabugices do que de sabedoria. Jung fala sobre o sentido, o significado de uma vida plena.

 

Ele usa a comparação com o curso diário do sol para nos aproximar do que acontece nas etapas da vida.

 

"Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente e olha para a vastidão do mundo colorido que se torna tanto mais amplo, quanto mais alto ele ascende no firmamento. O Sol descobrirá sua significação nessa extensão cada vez maior de seu campo de ação produzida pela ascensão e se dará conta de que seu objetivo supremo está em alcançar a maior altura possível e, consequentemente, a mais ampla disseminação possível de suas bênçãos sobre a terra. Apoiado nesta convicção, ele se encaminha para o zênite imprevisto - imprevisto, porque sua existência individual e única é incapaz de prever o seu ponto culminante. Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã. O Sol torna-se, então, contraditório consigo mesmo. É como se recolhesse dentro de si seus próprios raios, em vez de emiti-los. A luz e o calor diminuem e por fim se extinguem". (JUNG, 1984, p. 346-347)


Para Jung, o nascimento psíquico de um indivíduo se dá a partir da diferenciação consciente em relação aos pais, na Puberdade, e com o brotar da sexualidade. A inundação dos hormônios, "a mudança fisiológica, é acompanhada também de uma revolução espiritual" (JUNG, 1984, p. 340). Os instintos, os ensinamentos e os valores do universo dos pais que trouxeram o indivíduo até a Puberdade, não serão suficientes para esta nova parte da jornada. As limitações externas que se contrapõem aos impulsos do sujeito provocam uma cisão interior do próprio indivíduo, uma dualidade. Esta segunda etapa da vida vai da puberdade até o meio da vida, entre os 35 e os 40 anos.

As questões externas, como a passagem para a vida profissional, que interrompem as peraltices da adolescência, podem gerar problemas. Encarar as exigências da vida com muito otimismo ou com excesso de pessimismo geram ilusões difíceis de romper. Impulsos internos também podem gerar problemas, como os instintos sexuais, que causam desiquilíbrio psíquico. Um sentimento de inferioridade pode trazer dificuldade de adaptação e causar sofrimento psíquico. Um apego maior ou menor ao primeiro estágio, o da consciência infantil e uma resistência às forças fatais existentes dentro e fora de nós e que nos chamam para o mundo, são o fatores comuns que encontramos neste período. A eficiência, a utilidade constituem os ideais que nos tiram dos problemas apontando um caminho.

O terceiro estágio surge com depressões mentais nos homens por volta dos quarenta anos e com dificuldades neuróticas nas mulheres um pouco mais cedo - uma mudança importante está sendo gestada que parece começar no inconsciente. Essas mudanças podem acontecer de maneira lenta no caráter da pessoa; outras vezes são traços antigos que, desaparecidos deste a infância, retornam; de forma contrária, são traços anteriores que começam a diminuir e são substituídos por novos; ou ainda convicções e princípios seguidos até agora, principalmente os de ordem moral, que podem enrijecerem-se.

Da mesma forma como o indivíduo pode ficar preso à infância, assim também pode reagir em relação à juventude. Tendo medo da velhice que se aproxima e com a perspectiva de futuro apresentando-se sombria, o indivíduo recua assustado das tarefas desconhecidas e perigosas e das ameaças e perdas que terá de assumir. Pela experiência de Jung parece-lhe pouco provável que seja o medo da morte, que para o indivíduo ainda parece muito distante e abstrata, a causa fundamental de todas as dificuldades desta fase de transição, mas sim, uma mudança singular que se processa no fundo da alma. Embora alterações físicas concretas acompanhem esta fase da vida, é no domínio psíquico que as transformações se apresentam mais preponderantes: muitas das vezes o homem abandona seu negócio entre os 45 e 50 anos, a mulher abre um pequeno negócio depois dos 40. No mundo dos business é relativamente comum o burnout ou um colapso nervoso. Muitas vezes essas mudanças são acompanhadas de crises matrimoniais e separações, bem como novos casamentos. Deste mergulho no inconsciente, as mulheres retornam mais envolvidas com elas mesmas, mais lógicas, competitivas e firmes; já os homens retornam mostrando-se compassivos, sentimentais e desejosos de unidade e tolerância.

No quarto estágio no curso da vida, a "extrema velhice", quando novamente a energia psíquica mergulha no inconsciente, essa fase vai desde os 60-65 anos até a morte. Jung não se detém no estudo desta fase e justifica isso dizendo que "a infância e a extrema velhice são estados da vida sem qualquer problema consciente" (JUNG, 1984, p. 353) para o indivíduo e sim para os outros.

Porém, com o aumento da longevidade humana, outros estudiosos vem buscando entender as alterações psíquicas que tem ocorrido com uma expectativa de vida cada vez mais perto do 100 anos. Prétat (1997, p. 10) chama esta fase de "anos de declínio", os anos em que começamos a envelhecer. Somos uma das primeiras gerações em que permanecemos por 20 ou 25 anos sem sermos jovens nem velhos, quando não estamos mais na flor da idade mas ainda não ficamos ‘definitivamente velhos. Entre os 50 e 60 anos, a perspectiva das pessoas é de viverem mais 10, 20, 30 anos, acompanhados de um rosto e corpo não mais jovens, com rebaixamento da acuidade mental, com a resistência e a flexibilidade do corpo desaparecendo e com o encanto sexual não sendo mais o mesmo. Para Stein se os estudos sobre a meia-idade estão engatinhando, aqueles sobre as crises dos 55, dos 75 anos ainda nem tiveram início. (Cf. STEIN, 2007, p. 13).

Para Jung "os grandes problemas da vida nunca são resolvidos de maneira definitiva e total" (JUNG, 1984, p. 344). E mesmo que assim tenham sido, não o foram sem a transcendência que através de um terceiro momento transformou os 2 primeiros anteriores, gerando estresse, perdas e trazendo uma força motriz no sentido de par cima, pra frente e pra fora. Encher a taça da vida até transbordar e tomá-la até o fim, é o que entendo que Jung chama de o ‘sentido da vida plena, para que nas etapas seguintes não tenhamos saudades e perdas que não possam ser retomadas. Desde que nascemos sabemos que a morte é o sentido da vida, embora não saibamos nem quando nem como. O viver em plenitude incorpora a convivência com os símbolos de vida e morte, integrá-los em nossa jornada. Retornar sempre que necessário a essas imagens é a sabedoria para a travessia, em especial, para a última etapa da vida.

 

Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação do IJEP. mauraselva@gmail.com

 

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 1984.

NEUMANN, Erich. A Criança: estrutura e dinâmica da personalidade em desenvolvimento desde o início de sua formação. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 7-47.

PRÉTAT, Jane R. Envelhecer: os anos de declínio e a transformação da última fase da vida. São Paulo: Paulus, 1997.

STEIN, Murray. No Meio da Vida: uma perspectiva junguiana. São Paulo: Paulus, 2007.

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