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O feminino e a dependência química

A motivação para escrever esse texto veio da necessidade de saber mais sobre o que está por trás da dependência química feminina. Até há algum tempo, não havia propósito na discussão sobre dependência química entre mulheres. Era um assunto do mundo masculino. Porém, cada vez mais, na prática de consultório, mulheres procuram ajuda para questões relacionadas à clínica de álcool e outras drogas. Dados epidemiológicos revelam que o consumo de álcool, maconha e cocaína aumenta de modo progressivo entre mulheres. (SOARES e cols, 2013). O uso indevido de benzodiazepínicos (ansiolíticos) é imensamente maior entre a população feminina. Lidar com ansiedade e problemas pessoais são os principais motivos para esse uso crônico (SOARES e cols, 2013) (GALDUROZ e cols, 2001).

 

Segundo a teoria junguiana, a tendência a adicção é maior entre os homens. A explicação para isso seria uma fragilidade na ânima, na noiva interior, responsável pelo mundo das emoções, da espiritualidade e pelo caminho para o inconsciente (JUNG,2011). Entre as mulheres, habitualmente mais propensas a lidar com o universo emocional, essa disposição interior é masculina. O ânimus, relacionado ao intelecto, ao logos  à praxis e também a espiritualidade, justifica a maior resistência feminina aos golpes da vida e a menor vulnerabilidade às adicções. Porém, algo novo parece se manifestar. O que justificaria essa mudança no padrão do adoecimento?

As conquistas profissionais e acadêmicas se tornaram parte da vida das mulheres. Ainda com dificuldades, salários mais baixos em relação aos homens, sob o medo constante da violência física e sexual. Ainda assim, barreiras são rompidas. Por outro lado, valores patriarcais ainda imperam e cobram um preço alto. Aspectos femininos são "guardados na gaveta", incompatíveis com o novo padrão de sucesso.

 

Ampliar a atuação da mulher na sociedade foi uma grande vitória e é luta constante. Não é fácil escapar dos opostos tão reforçados pela cultura judaico-cristã: virgem/prostituta, esposa/ amante. Incluir a "amazona" enquanto possibilidade é ganho e, ao mesmo tempo, armadilha, pois tantos outros matizes femininos ficam de fora. Bem sucedida e ainda empobrecida, essa nova mulher é perfeita profissionalmente, afinal de contas, precisa superar qualquer homem. Distante afetivamente, não inspira intimidade. É dominada pelo ânimus, que se transforma em um tirano escravizador. Cria a fantasia de que, para ser levada a sério, precisa abrir mão da essência feminina. Em tal cenário, essa mulher seria atingida por fragilidades masculinas? Esse ânimus dominante traria em si a fragilidade da disposição interna masculina? Seria essa uma das respostas para o aumento de casos de dependência entre mulheres?

 

É sabido que o ânimus é configurado a partir do ânimus materno. O masculino é herdado da mãe. Ou seja, as vivências e a visão materna sobre o masculino interferem , tocam e atuam sobre a filha. Desse modo, o novo padrão "aceitável" de mulher bem sucedida é uma consequência de várias gerações. A perda e a desvalorização do feminino que se manifesta agora, começou com transformações psíquicas em avós e bisavós.

 

As gerações que nos antecederam assistiram  a conquista do voto feminino, a inserção feminina no trabalho e a luta por direitos. O feminismo ganhou voz no século XX. No entanto, padrões estéticos aprisionadores e antigos valores sexistas conviveram e convivem com essas mudanças. As últimas gerações viveram essa dicotomia. Imprimiram na psique a ambivalência.

Para compreender a dependência química entre mulheres, é  preciso entender o contexto histórico, visitar essas mães e avós. Estabelecer ligações entre a menina criada para ser esposa e mãe, a quem o intelecto era negado e  a mulher atual multifuncional, pressionada no trabalho e em casa . O que ficou pelo caminho?

 

A vida moderna exige demais. Corpo perfeito e mente ativa. Prazos a cumprir. Necessidades dos filhos a serem supridas, casa arrumada e perfumada. Estar num relacionamento é sempre uma vitória... O mundo das avós se mistura com interesses anteriormente masculinos! Porém, a persona endureceu. Pouco espaço para ser acolhedora e para acolher, para ponderar e esperar. Traços da atitude tipicamente feminina. Aumentam as cobranças conforme passam as décadas. Porém, sem a conexão com o feminino, perde-se algo essencial, a "fonte de força" que sempre fez com que as mulheres resistissem mais às vicissitudes.

 

A reação à opressão do patriarcado pode ter feito com que as gerações anteriores projetassem nas filhas suas vingadoras, as transformando em pequenos homens prontos para qualquer guerra no mundo competitivo. Mas isso também é opressão! Esse ânimus tirano cria "gigantas de pés de barro". Donas da verdade deprimidas, com insônia e ansiedade. Incapazes de perceber o quanto enfraquecem e se desrespeitam. Podem assumir a atitude masculina de não pedir ajuda. Nesse desamparo, benzodiazepínicos, álcool e drogas ilícitas conferem a sensação transitória de alívio.

 

Filhas não são anjos vingadores de suas ancestrais que ousaram levantar a voz e questionar o papel feminino. São mulheres, seres humanos em seus processos individuais de desenvolvimento. Caso consigam romper com o feitiço podem transformar o carcereiro interno num grande amigo, que convida a voos intelectuais transformadores e à profundidade espiritual. Assim, essas novas mulheres poderão ser mães, profissionais, esposas e o que mais quiserem ser, mantendo a força interior que caracteriza as mulheres desde tempos imemoriais. Protegidas pela Grande Mãe em toda sua glória.

 

Dra. Marissol Hermann, Médica Psiquiatra, Analsita Junguiana em Formação IJEP

 

Referências

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicoógicos. Obras Completas. Editora Vozes. 2011.

GALDUROZ JCF, NOTO AR, NAPPO SA, CARLINI EA. Uso de drogas psicotrópicas no Brasil: pesquisa domiciliar envolvendo as 107 maiores cidades do país - 2001. Rev Latino-am Enfermagem 2005 setembro-outubro; 13(número especial):888-95.

SOARES, Larissa Cecília Oliveira, PEREIRA, Andrea Ruzzi, PEREIRA, Paulo Estêvão, SOUZA, Alessandra Cavalcanti, ANDRADE, Valéria Sousa. Papéis ocupacionais de mulheres que fazem uso abusivo. Rev Ter Ocup Univ São Paulo. 2013 set.-dez;24(3):199-207

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