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O tédio nosso de cada dia: um sintoma da vida contemporânea. *

Cada momento histórico reflete questões relativas ao zeitgeist dominante. Nesse sentido, é interessante refletir sobre um fenômeno que se apresenta cada vez com mais frequência na vida contemporânea. Observo, seja em minha própria prática clínica, seja em casos discutidos em supervisão, assim como em aulas, e na própria mídia, a aparição do tédio no relato de pacientes e terapeutas, quase na mesma frequência que outros termos, como o famigerado e onipresente TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade). 

Tão paradoxal o relato cotidiano de vários pacientes que, com frequência, se sentem estranhos, pois ao mesmo tempo que se percebem ansiosos por fazer coisas, estão entediados, "sem vontade pra nada"(sic). Entretanto, eles não se encontram deprimidos, apenas cansados de tantas coisas para fazer, tantos compromissos para comparecer, tantas emoções para sentir neste admirável novo mundo em que o ócio tornou-se vergonhoso, carregado de culpa, sendo raro e caro!  Afinal, quem não conhece pessoas que trabalham como máquinas ao longo de um ano inteiro para tirar apenas alguns dias de férias? Ou famílias em que os pais pouco convivem com os filhos, embora estejam empenhados em dar conta de rotinas e metas de trabalho hercúleas que serviriam, ironicamente, para oferecer bem-estar aos filhos, aqui entendido como estudos, passeios, viagens, etc?

Em conjunto com a depressão e a ansiedade, observo o tédio como um terceiro elemento que muitas vezes aparece difusamente associado aos dois primeiros. Entretanto, cabe-nos diferenciá-lo buscando sua especificidade sintomática, que reflete tanto questões intrasubjetivas como intersubjetivas do indivíduo no contexto atual. Então, como podemos definir o tédio, em termos psicológicos? Conforme os parâmetros teóricos da psicologia analítica, melhor seria personificá-lo e indagar-lhe: qual o motivo e/ou finalidade de sua aparição contraditória na subjetividade de indivíduos que vivem num mundo tão excitante, cheio de convites que não podem ser recusados, e prazeres que deveriam ser prontamente aceitos? Em resposta, podemos pensar que, diante de um banquete tão farto de estímulos falta lugar nas antiquadas - porém imperativas categorias de espaço e tempo -, para o sujeito se dar conta do sabor das iguarias abocanhadas, pelas quais ele paga caro - senão em espécie, de outro modo, simbólico, psicossomático -, em sintomas que vão desde a insônia ao self-cutting

Estaria o tédio, em meio a outros sintomas contemporâneos, apontando para algum sentido de exaustão dos sujeitos diante do referido banquete? Seria o tédio um modo de recusa, como se - enfastiado depois de tanto consumir bens, serviços, pessoas, comida, bebida, drogas, sexo, religião, ciência, filosofia, etc -, o sujeito, apesar de ter o estômago cheio, porém se deparando com a alma vazia, estivesse sendo obrigado a digerir um alimento de cada vez? Pode soar démodé aventar a ideia de saborear uma coisa de cada vez nos dias atuais, mas, nesses tempos ultramodernos, em que o sujeito se gaba de acessar pelo menos dois equipamentos eletrônicos e de estar em tantos lugares diferentes, virtualmente, ao mesmo tempo - quando tomado, paradoxalmente, pelo tédio -, acaba sendo arrastado para uma pausa, ainda que forçada.

Tempo! Ah, o mítico tempo! Seja refletido na boca devoradora de Cronos, ou na face kairotica que revela um momento significativo e oportuno para alguma experiência, as pessoas se queixam da falta: de tempo, de um momento, de sentido, de sentir-se: competente, destacado, "facebookado", enfim, de ser visto como uma pessoa de sucesso! Esse sujeito agonizante, ansioso, deprimido, irritado, enfastiado, teria, enfim, se tornado entediado? O tédio seria um sinal de que até mesmo para se angustiar o sujeito precisa abrir espaço para sentir a dor e a delícia de experimentar o que é, e claro, se haver com tudo o mais que não pode ser: nem nele, nem ao seu redor, nem dentro, nem fora de si?! Finalmente, o tédio estaria personificando a difícil, porém imperiosa notícia de um vazio que, por mais que seja rejeitado, retorna, eternamente, ao sujeito?

Ser ou não-ser deixou de ser a questão, já que o sujeito contemporâneo pode se ver refletido em diferentes dispositivos eletrônicos simultaneamente! Pode estar na mesa do restaurante e ao mesmo tempo no whatsapp, no facebook, no youtube, no instagram, lendo um texto enquanto ouve uma música e também assiste a um filme, estar com amigos na mesa do bar, mas pregado com os olhos na tela do celular, teclando sem parar com qualquer outra pessoa no mundo. Parece-me que a questão, então, foi deslocada do "ser ou não ser?" para "estar ou não estar presente" na experiência vivida em diferentes lugares que ele pode visitar ou para onde pode se transpor, ainda que virtualmente, em simultâneos "touches".

A individuação em tempos narcísicos.

C.G.Jung, fortemente inspirado pelo romantismo alemão, teorizou sobre a possibilidade de lidar com a tensão entre opostos da vida e da condição humana a partir do conceito "processo de individuação". O próprio autor afirma que tal conceito é central na psicologia analítica.

O conceito de individuação desempenha papel não pequeno em nossa psicologia. A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual (JUNG, 1921/1991, §853:426).

Preocupado em discutir o sofrimento do indivíduo de sua época - em sua opinião, massificado, que não conseguia se conectar com a própria alma ou mundo psíquico -, Jung alertou para a necessidade de estabelecer um diálogo simétrico entre consciente e inconsciente, que é ao mesmo tempo intrapsíquico e interpsíquico, pois "A individuação não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba" (JUNG, 1946/1984, §432:230).

Então, como pensar a individuação neste início do século XXI? Bernardi (2003) propôs uma leitura deste conceito à luz das ideias de Jung e do filósofo Jacques Derrida, propondo a individuação no sentido de um diálogo com aquilo que se apresenta como estranho ou estrangeiro ao indivíduo na perspectiva consciente de seu ego. Nesse sentido, o autor fala de indiviDOAÇÃO, o que permite ampliar a questão da individuação entendida nos termos de uma autorrealização ou autoconhecimento pessoal que leva a alcançar "aquilo que o indivíduo realmente é", para uma questão urgente e ética da responsabilidade do sujeito em relação ao modo como se coloca no mundo e nas relações intersubjetivas. Trata-se da "individoação" como possibilidade de acolher tudo o que desafia o narcisismo e o subjetivismo psicológico para estar no aqui-agora de modo mais integrado consigo e com o outro, suportando estar conectado com aquilo que pode trazer algum desprazer, mas também inaugurar novas perspectivas, já que convoca o sujeito para fora de si em direção ao mundo.

Conectado é um termo com novas conotações no contexto histórico atual: ele remete a redes, interações imediatas, e definitivamente se tornou uma nova modalidade subjetiva - é só questionar quantas pessoas não utilizam um aparelho celular ou não estão conectadas a uma conta de e-mail, ou a diferentes aplicativos que permitem entrar em contato virtualmente! Todos sabemos, imperativos não faltam ao homem desde que o mundo é mundo e desde que ele busca sobreviver. Mas diante de uma aceleração tão intensa da vida cotidiana há de se perguntar: como o sujeito pode proteger suas fronteiras de tamanha invasão das demandas externas, profissionais, sociais, e fundamentalmente, do autoritarismo da própria persona, que precisa ser confirmada incessantemente pelo recebimento de "likes" em redes sociais? Paradoxalmente, como tal sujeito pode estabelecer laços mais pessoais nas situações que vive em cada um desses planos da vida? Dito de outro modo, como ele pode resistir - embora tenha de estar conectado - à massificação dos bites e bytes, que embora tenha seu valor social, econômico, cultural, contribui de modo intenso para a alienação do sujeito num mundo que se reduz cada vez mais às telas de dispositivos eletrônicos? Seria o tédio, afinal, uma resposta - ainda que provisória e aparentemente sintomática - de um sujeito que se recusa a estar "100% disposto" e disponível para o trabalho e para a persona socialmente imposta? Um sujeito que se entrega e suporta abrir espaço para se deparar com a exaustão causada pela excitação, e, enfim, se dar conta do gosto amargo da solidão e dos sentimentos de fracasso? Como nós, psicoterapeutas, lidamos com esse novo sintoma, de que recursos dispomos para acolher o tédio que envolve os pacientes, e por vezes paralisa o encontro terapêutico, tornando a própria sessão um encontro estagnado? Não se trata de adotar uma postura heroica, de combate ao tédio, tampouco de fazer vistas grossas a ele. Muitos terapeutas se tornam ansiosos e invasivos, tentando penetrar falicamente o tédio, como se tivessem de "fazer algo" para mobilizar o paciente, pois lidam mal com sentimentos contratransferenciais de impotência, rejeição ou solidão. Há, pelo contrário - como no manejo de todo sintoma - de ir em direção ao tédio oferecendo a este fenômeno um locus imaginal, de indagar do sujeito que ali está o que o tédio está lhe dizendo ou constelando em sua vida, que convite pode estar lhe fazendo, metaforicamente? Recursos expressivos, nestas situações, são muito bem vindos, pois permitem o surgimento de imagens, formas e novos sentidos, já que muitas vezes os próprios pacientes se encontram demasiadamente angustiados para dar voz ao sentimentos e ideias associados ao tédio que lhes toma conta. Nisto, a clínica junguiana é salutar, oferecendo uma diversidade de linguagens plásticas para dar corpo, simbolicamente, ao tédio, de modo que ele possa enfim ganhar contornos numa narrativa poética e imaginal (OLIVEIRA, 2006). O maior desafio, possivelmente, é suportar, junto do paciente, o vazio e o aborrecimento constelados pelo tédio, de modo que este afeto tenha, finalmente, um lugar de pertencimento na experiência subjetiva do indivíduo, já que isso está cada vez mais impedido no mundo social. Se o tédio puder fazer parte, pelo menos de uma sessão terapêutica, quem sabe possa, também, ser vivido e integrado à vida cotidiana do indivíduo, sem que este se debata ou resista tanto aos sentidos associados a este fenômeno psicológico. Poderá, finalmente, jogar ou conversar nos aplicativos, mas também se reconectar a outros objetos, pessoas, situações onde ele possa, efetivamente, se presentificar como uma pessoa e não como mero avatar de si.

 *Santina Rodrigues, Psicóloga clínica e Arteterapeuta. Mestre pelo Instituto de Psicologia da USP. Professora e supervisora do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. (santina.rodrigues.oliveira@gmail.com)

 REFERÊNCIAS:

BERNARDI, C. Individoação: Do eu para o Outro, Eticamente. 2003. http://www.rubedo.psc.br/artigosb/jgetiind.htm (consultado em 01.07.2004). 

JUNG, C.G. (1946). Considerações teóricas sobre a natureza do psíquico. In: ______. A dinâmica do inconsciente. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho da Rocha. Petrópolis: Vozes, 1984e. p.166-239. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 8).

_________. (1921). Tipos psicológicos. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. 558 p. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 6).

OLIVEIRA. S.R. Reflexões sobre a materialidade numa abordagem imagético-apresentativa: narrativa de um percurso teórico e prático à luz da psicologia analítica. Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2006.

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