(11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

Chico Buarque e a retórica da alma

            Sabemos que a arte tende a tocar profundezas por vias não racionais, e às vezes de forma arrebatadora. Pretendo aqui trazer algumas contribuições preciosas da música popular brasileira, especificamente encontradas na obra de Chico Buarque, mostrando como elas podem dialogar com a visão junguiana. 

A relação de Jung com o campo da arte é bastante importante. Basta lembrar que, num momento de crise em relação à natureza de seu trabalho, uma voz feminina afirmou-lhe que o que ele fazia era arte. A ideia de anima teria tido aí uma inspiração. Contudo, procurando se manter no meio científico, Jung (1922/2007) afirmava que arte e ciência não poderiam se confundir, pois seriam dois campos espirituais peculiares, cada qual com sua linguagem.

Mas ao fazer uma crítica à psicanálise freudiana, Jung propõe um novo entendimento da obra de arte poética. Esta não deveria ser interpretada a partir da biografia do artista, com as ferramentas teóricas da psicanálise. Esclarece ironicamente Jung (1922/2007, p.56): "Quando uma obra de arte é interpretada da mesma forma como uma neurose, de duas uma: ou a obra de arte é uma neurose ou a neurose é uma obra de arte". O psicólogo analítico, ao analisar a obra de arte, deve estar interessado no símbolo - enquanto expressão de uma concepção para a qual ainda não se encontrou outra - e não nos sinais ou sintomas.

Seria preciso, então, perguntar pelo sentido da obra, e não investigar as condições prévias que levaram a pessoa a realizá-la. "A insistência no pessoal, surgida da pergunta sobre a causalidade pessoal, é totalmente inadequada em relação à obra de arte, já que ela não é um ser humano mas algo suprapessoal" (p.60).

Jung afasta a psicologia do modelo científico causal-reducionista (ainda que não o negue), acrescentando uma visão finalista (a ideia de telos). Estabelece então uma analogia entre a arte e a psicologia: tal como na obra de arte, a psique pode também ser entendida finalisticamente - e não só a partir do modelo causa/efeito. Assim, não estou aqui interessado na relação entre a biografia de Chico Buarque e as letras que serão comentadas; deixemos que elas nos falem a que vieram como entidades autônomas que são, "livres" de seu autor.

Primeiramente, comentarei a clássica canção "O que será (à flor da terra)", presente no álbum Meus caros amigos, de 1976. Há uma certa aura de mistério nesta letra, que pergunta ao ouvinte sobre alguma coisa nunca definida:


O que será, que será?

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados que com certeza

Está na natureza


Será, que será?

O que não tem certeza nem nunca terá

O que não tem conserto nem nunca terá

O que não tem tamanho


O que será, que será?

Que vive nas ideias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia a dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos


Será, que será?

O que não tem decência nem nunca terá

O que não tem censura nem nunca terá

O que não faz sentido


O que será, que será?

Que todos os avisos não vão evitar

Por que todos os risos vão desafiar

Por que todos os sinos irão repicar

Por que todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno vai abençoar

O que não tem governo nem nunca terá

O que não tem vergonha nem nunca terá

O que não tem juízo


            Está claro que "isto" seria algo arrebatador, irrefreável, capturando toda gente. Pode ser o sexo, a paixão - já que não tem decência ou governo, está no dia a dia das meretrizes (e o Padre Eterno nunca foi lá). Pode ser a liberdade ou a resistência, haja visto que foi composta em meio à ditadura militar no país - já que não tem censura e que andam combinando às escondidas. Todo bom poema se oferece a interpretações variadas, afinal.

            A hipótese junguiana apontaria para as ações do self. Seriam de fato belas imagens acerca desta instância de difícil definição ou explicação redutiva. Mas esta coisa que nos assombra coletiva e individualmente, trazendo ora o céu ora o inferno, impondo-se em sua finalidade acima da escolha consciente e planejada, combina com as descrições do self feitas por Jung (não me alongarei neste espaço com elas). O self é divino e é demoníaco (no sentido do daemon).

A alma se faz notar de formas múltiplas, incluindo aquelas nas quais o ego sente horror, espanto, aflição. O sentido desta força, sua finalidade última, se for compreendido, será a posteriori. Num primeiro momento ela simplesmente se impõe, e pode aparecer em infinitas situações (na romaria, no boteco, entre os mutilados, na fantasia de infelizes, nos meninos desembestados...). É a consagração da vida em sentido amplo, com custo elevado, divinamente humano, sombriamente nítido. Quando o self se faz presente, não sabemos exatamente o que é (o que será?), mas sabemos que é - não há escapatória para o ego.

            Menos conhecida, mas igualmente potente é sua canção "Futuros amantes", presente no álbum Paratodos (1993). Obviamente a letra separada da melodia não tem o mesmo alcance, mas a reproduzo aqui:


Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios

No ar

E quem sabe, então

O Rio será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos

Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você

                    

            Esta letra nos lembra da ideia de arquétipo, ou melhor, ela reverbera nas tramas da herança deixada ao longo da história da humanidade. A (re)vivência do amor pode se dar em qualquer tempo; o amor que me visita no presente está embebido de experiências amorosas que estão há "milênios no ar". Ao mesmo tempo em que cada paixão reinventa o amor na singularidade do encontro, é como se o manto deste sentimento, presente nos detalhes concretos e simultaneamente eternizado na alma, visitasse o aqui agora dos apaixonados.

            O poeta vai no futuro distante, imaginando o que temos hoje algo de então difícil tradução, submerso, mergulhado numa espécie de esconderijo que possivelmente se revelará a insistentes curiosos. Se os sábios não decifram os restos de amor no fundo do mar, este amor ainda assim alimentará os amantes do presente? A resposta é sim, embora "sem saber"; ou seja, não sabemos de forma consciente mas nos afetamos pela sua potência presente em camadas profundas do inconsciente tal como ensinou Jung.

            Enfim, o psicoterapeuta, aquele que serve à alma, deve estar conectado com o campo da arte em geral, pois suas "lições" aguçam a sensibilidade. Em certos momentos deve-se ouvir um cliente como se fosse um poema, ou mesmo uma música, algo não dado pela palavra literal e de sentido único, mas sim uma fala que contenha algo potencialmente misterioso.

Dr.Guilherme Scandiucci

 

 Referência

JUNG, C.G. (1922) O Espírito Na Arte e Na Ciência.Vol.15. Petrópolis: Vozes, 2007.

Dr.Guilherme Scandiucci , professor do IJEP - www.ijep.com.br


 

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros