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Vícios Orais e o Complexo Materno Atuante

Há vários tipos de vícios e o que os difere de um hábito comum, é o prejuízo que causam às pessoas. Mas se os vícios fazem tanto mal, quais os motivos que levam as pessoas a procurarem por estes artifícios? Por que beber, fumar, comer em excesso, usar drogas? Qual o benefício nisso? Qual a compensação, o ganho secundário? Por que as pessoas se viciam?

            Há muitos fatores que levam uma pessoa a desenvolver vícios, que vão desde a vida intrauterina até a velhice, dentre eles: emocionais/internos: sentimento de abandono, rejeição, reprovação, necessidade de aceitação, dificuldade em enfrentar e lidar com situações traumáticas, baixa autoestima, vazio interior, falta de limites (crianças que podem fazer tudo sem serem repreendidas), baixa resiliência, necessidade de fuga, inadequação no mundo, incapacidade em lidar com frustração, ansiedade, tristeza, solidão, repetição de comportamentos dos pais (bebidas, cigarros, drogas etc.), filhos de pais ausentes que compensam o amor com bens materiais etc. E, também, fatores externos, como influência da mídia, do comércio, da necessidade de status etc.

            Ao nascer, a criança tem em sua mãe, por meio da amamentação (seio/leite), tanto seu primeiro amor, como seu primeiro alimento. À medida em que o tempo passa, a criança vai sentindo como este amor (leite) lhe é oferecido: ternamente, relutante, negado... E, então, associa cada situação à mãe amorosa ou à mãe má. Essa percepção está presente no inconsciente do bebê, uma vez que ao nascer ele não possui estrutura de ego e está imerso no inconsciente coletivo e materno, portanto, age como uma extensão de sua mãe. "É a importância da boca que nessa idade tem uma significação exclusivamente nutritiva. A vontade e o prazer de ingerir alimentos estão aqui localizados (...) A ingestão de alimentos é uma atividade genuína e gratificante por si mesma e, como uma necessidade vital, a natureza lhe concedeu o prêmio do prazer". (JUNG, 2013, § 229, p. 193).

            De acordo com a percepção do bebê sobre o leite que recebe de sua mãe, poderá se estabelecer o complexo materno. E, quando este complexo se estabelece na primeira fase da vida, teremos a sua atuação, no futuro, sendo representado nas demais fases do desenvolvimento da criança/adolescente/adulto, dentre outras possibilidades, por vícios orais, caracterizando-se pela necessidade ou repulsa de alimento (compulsão alimentar, anorexia, bulimia), dependência de álcool (bebidas) e ou química (cigarros e drogas).

            Experimentamos o complexo materno como a necessidade de proteção e carinho, pois ele é a ideia de uma mãe carregada de afeto, existente em cada um de nós (arquétipo da Grande Mãe). Assim, se no início de nossa vida, nossa relação materna for satisfatoriamente boa, a vida também nos será, pois nos sentiremos protegidos e amados. Por outro lado, se esta experiência for ruim, vamos nos sentir inseguros, desamparados, desprotegidos ao longo de nossa vida. "Mãe é amor materno, é a minha vivência e o meu segredo. O que mais podemos dizer daquele ser humano a que se deu o nome de mãe, sem cair no exagero, na insuficiência ou na inadequação e mentira - poderíamos dizer - portadora casual da vivência que encerra ela mesma e a mim, toda humanidade e até mesmo toda criatura viva, que é e desaparece, da vivência da vida de que somos os filhos? " (JUNG, 2012, § 172, p. 98).

Percebendo o mundo pela boca, é interessante observarmos a reação do bebê quando está sendo amamentado: seus olhinhos parecem estar em êxtase, sendo alimentado de pleno amor. Também é curioso observarmos a reação da mãe e do bebê quando ele chora.  Primeiro ela vai tateando, experimentando, experienciando se ele está sujo, com dor etc. De ímpeto, troca sua fralda e suas roupinhas se estiverem sujas ou molhadas, mas, se continua a chorar, pega-o como que instantaneamente e o coloca de encontro ao peito (aos batimentos cardíacos) que, como todo movimento rítmico, vai acalmando-o e hipnotizando-o. Nesses instantes, o bebê se tranquiliza e, muitas vezes, para de chorar. Se ainda continuar chorando, então a mãe deduz que é fome e lhe dá o seio, enfim, o leite, o alimento e, finalmente, o bebê se aquieta, seus olhinhos parecem demonstrar toda satisfação daquele instante e, finalmente, adormece.

            Jung, em uma de suas referências ao complexo materno, diz "Segundo minha experiência, parece-me que a mãe sempre está ativamente presente na origem da perturbação, particularmente em neuroses infantis ou naquelas cuja etiologia recua até a primeira fase da infância". (JUNG, 2013, § 161, p. 90). Caminhando neste pensamento com Jung, podemos inferir que os vícios orais remetem o então adulto à sua experiência infantil e, nesses momentos, é como se ele pudesse novamente estar junto à mãe usufruindo de seu amor tantas vezes, recebido quando criança, de forma insegura, raivosa, obrigatória.

            Mas, em algum momento, para termos uma vida mais saudável e equilibrada, necessitamos nos libertar dos complexos (sejam eles maternos ou quaisquer outros) e, para isto, precisamos ressignificá-los e a psicoterapia junguiana (também conhecida como analítica) pode ser um tratamento psíquico de grande ajuda neste processo, pois Jung foi um grande estudioso dos complexos e suas manifestações, propondo caminhos para os identificarmos em nossas vidas e lidarmos como eles. Além disso, a psicologia analítica busca auxiliar o homem a tornar-se o mais inteiro possível, reconhecer-se, torna-se si mesmo de forma mais completa e integrada em suas polaridades de luz e sombra e a esse processo Jung deu o nome de individuação - processo de criar e ampliar a consciência na busca pelo sentido da vida. "O sentido e a meta do processo de individuação são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos". (JUNG, 2014, § 186, p. 123).

Em se tratando de vícios orais, além da carga psíquica (emocional), há ainda a química presente no organismo, logo o biológico também está afetado, de modo que além da psicoterapia, em muitas situações, um tratamento médico que também cuide dos aspectos da desintoxicação, é de grande valia para o alcance de um resultado satisfatório.

Recaídas poderão acontecer, até que o complexo perca sua energia e a química liberte o organismo, entretanto, nem sempre todos os resultados finais serão satisfatórios, pois dependerá de cada um, de sua prontidão e estrutura de ego para lidar com a situação naquele momento, mas, quem passar por este processo, de alguma forma estará no caminho e na busca de sua individuação.

Nesse processo de individuação, a busca pelo sentido da vida é fundamental e, encontrar esse sentido, significa viver o seu destino, estar mais próximo de si mesmo, de e de sua realização pessoal.  Libertar-se de vícios e de complexos é fundamental para quem quer individuar-se, tornar-se o mais pleno e realizado possível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOPCKE, Robert H. Guia para Completa de C. G. Jung. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

_______________. Civilização em Transição. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. O Eu e o Inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

_______________. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. Psicologia do Inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

_______________. Símbolos da Transformação, 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. Tipos Psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

Andreia Araujo -Analista Junguiana em Formação, Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com.

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