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De Hércules à Parsifal: venturas e desventuras do trabalho monográfico.

 

Nesse breve ensaio, proponho algumas reflexões sobre desafios, impasses e transformações vividos pelo aluno/pesquisador quando precisa lidar com a elaboração de uma monografia, requisito parcial para obtenção do certificado de conclusão dos cursos de pós-graduação latu sensu.

Todos sabemos que na escrita de um texto vislumbramos algo da personalidade do autor. Considerando isto, torna-se fácil compreender o alto grau de ansiedade que se constela, em geral, nos alunos quando se veem diante da tarefa de elaborar uma monografia. Mas por que será que para um grupo de pessoas essa "confissão subjetiva", como dizia Jung (1963/1975), pode gerar tantos conflitos e ameaças, a ponto de bloquear o pensamento e a escrita? Tal qual o pintor, diante da tela em branco, alguns alunos sofrem, se debatem, e por vezes chegam a abandonar os cursos em que estão matriculados, tomados pelo desânimo ou pelo pânico, como alguém que tem uma arma apontada para a cabeça.

Bem, se alguém se sente ameaçado, há que se perguntar "QUEM" ali está apavorado? Possivelmente, seja o ego, sujeito da consciência, mas com qual complexo ele estaria identificado para sofrer e ficar tão paralisado? Vejamos, não é raro que diante da tarefa de escrever uma monografia surjam dúvidas. Estas têm relação com o próprio tema, ou sobre como propor um recorte para ele. Surgem dúvidas, também, sobre o método, que soa quase como um palavrão aos ouvidos de um pesquisador iniciante. Método é simplesmente o caminho - conforme a etimologia do termo indica -, para ajudar o pesquisador a responder uma pergunta, que, por sua vez, advém de um problema de pesquisa e de uma hipótese. Diante desses termos científicos, nos vemos na perspectiva de uma fantasia, como explica Hillman (2011), neste caso, de caráter científico. Já dizem os pedagogos que nascemos todos cientistas, pois a criança mantém com o mundo que a cerca uma atitude de curiosidade, investigação e busca de resolução de problemas. Talvez, os termos ligados ao universo da escrita de uma monografia constelam ansiedades imediatas por remeterem à fantasia estereotipada do teórico/cientista que não pode errar, sob o risco de ser alvo de chacotas e desvalorização social. Uma fantasia que tem num polo a imagem do inventor maluco, como o Prof. Pardal, que só cria "coisas birutas", e no outro, a imagem do cientista megalomaníaco, como o camundongo "Cérebro", ridicularizado pelo tamanho da cabeça que só é proporcional à sua inflação egóica, assim como à frustração pelos fracassos de suas tentativas de dominar o mundo.

Ironicamente, chegamos ao "coração" do problema. Ao se deparar com o labor da monografia, que pode ser vivida como uma aventura cheia de emoções e descobertas sobre algum assunto que atrai ou inquieta, a maioria dos alunos é remetida a traumas estudantis e talvez a sentimentos de inferioridade. O Senhor "cérebro" pode personificar algum(a) professor(a) extremamente crítico(a) e exigente, ou remeter a rivalidades e invejas daquele colega que era um "crânio" na escola. Então, o coração dispara e denuncia com sinais de ansiedade, que o medo chegou e abriu a porta sem bater. Mas e se fosse possível negociar com as lembranças sofridas? Se fosse possível guardar alguma distancia do excesso de cobranças e simplesmente começar a escrever ou digitar livremente o que viesse à cabeça e ao coração? E se as ideias pudessem brincar de "can-can", aparecendo, dançando, fazendo o maior alvoroço e graça sobre o papel? Não custa enfatizar que esse fluxo criativo depende diretamente das leituras empreendidas sobre o tema de interesse, antes e durante toda a elaboração da monografia. E, claro, elas se mostram fundamentais para que surjam 10 ou 1000 "palavras-dançarinas", e também para que a dança delas seja mais empolgante.

Ler-ler-ler...escrever-escrever-escrever, sair para um passeio ou trabalho, respirar, dormir, se alimentar, amar. Voltar a escrever-ler-escrever-ler-escrever, num continuum que se retroalimenta e se mantém pulsante. Em se tratando de trabalhos que requerem a confecção de um texto relativamente complexo, não podemos jamais relativizar a importância da leitura e das várias sequencias de revisão do texto. É como fazer pão: temos de amassar muitas vezes aquela massa informe até que possamos deixá-la descansar para depois crescer, inchar, se expandir, enfim, para além dos próprios limites. Entre uma "sovada" e outra, no caso do pão, as mãos vão se tornando mais habilidosas. O mesmo paralelo pode ser feito com o trabalho criativo na argila. Como já disse em outro momento (OLIVEIRA, 2006), há que se deixar sujar, melecar, praticamente se misturar com ela, chegando num ponto que não se distingue mais a pele do barro, para que algo mais dinâmico tenha início e ganhe autonomia, a partir daí as formas começam a se plasmar e aparecer aos olhos, concretamente. Algo semelhante pode ser observado na escrita, quanto mais se lê e escreve, mais o pensamento floresce, num ritmo sincronizado de palavras e ideias que ocupam páginas e páginas. Seguindo essa analogia, num dado momento, o aluno/pesquisador e o objeto de estudo tornam-se uma coisa só, identificados, misturados, um não podendo viver sem o outro! Precisamos de coração, mente, e corpo dispostos para sofrer os efeitos da escrita de uma monografia! Porém, depois dessa forte identificação, precisamos nos distanciar, quem sabe pedir para algum colega, parente ou revisor ler o texto, dar seu parecer de outro lugar, menos apaixonado pelo que nasceu do período de imersão na escrita do trabalho.

Lembremos, o coração nos engana! Ou pelo menos seduz. Portanto, um tema sedutor não será necessariamente o mais fácil de pesquisar. Muitos alunos ficam "apaixonados" por determinado assunto, para em seguida - ao iniciarem a revisão bibliográfica -, se sentirem frustrados por não encontrarem nenhuma referência que os ajude a fundamentá-lo. Nesses casos, é possível até reavaliar o tema, o que não nos permite ceder ao impulso de abandoná-lo para pegar outro no meio do caminho, quando a sombra entra em cena e nos desvia, propondo atalhos teóricos aparentemente "mais interessantes". A questão a ser enfrentada, neste momento, é que por vezes, o tema que atrai é o mesmo que passa a gerar angustia, se não ganhar limites minimamente balizados que permitam um recorte mais específico para empreender o estudo. Todo tema pede a mais que esperada e já famosa "delimitação do tema", que permitirá ao "objeto de estudo" ser melhor delineado em seus próprios limites, com isso, poderá ser levado mais a sério e mais a fundo.

Se não entramos no mesmo rio duas vezes, como já alertou Heráclito, do mesmo modo, o tema de uma monografia nunca permanece o mesmo no processo de sua elaboração, assim como se espera que aconteça com seu autor. Quanto mais mergulhamos em suas águas, mais temos de nos entregar a novas ideias e indagações, aprendemos com isso a reconhecer suas especificidades, sua "temperatura", sua profundidade, a velocidade de suas águas. O texto é como um rio: por vezes, plácido e calmo, noutras, caudaloso e revolto. E é bom que seja assim, é bom que promova inquietação e até algum desespero, para somente depois conduzir a um rumo mais tranquilo. Assim, a experiência do trabalho monográfico "força", por assim dizer, o aluno/pesquisador a se debater com ideias, crenças, expectativas, frustrações, e até a boiar. Mas atenção: Não boicotar! Nem o tema, nem o ritmo do trabalho que está em curso, nem o esforço necessário para as leituras, e muito menos o da escrita. Nessas situações de boicote, pode ser que o aluno se torne excessivamente queixoso, projetando as próprias dificuldades em qualquer outro fator ligado ao desafio que esta vivendo, sem reconhecer a ação de um personagem sombrio. Mas como sabemos, o sabotador costuma viver ali bem pertinho, como um predador, na psique do próprio individuo, embora equivocadamente leve o aluno a brigar com amigos, normas da ABNT, regras gramaticais, entre outros, como se estes fossem seus verdadeiros inimigos.

O sintoma mais comum que mostra a proximidade do boicotador subjetivo é quando o aluno se sente "travado", quando "não sai nada" - notem como os termos, analogamente, lembram aqueles usados em  situações que crianças e adultos não conseguem evacuar. Isso mesmo, os termos, simbolicamente, remetem a traços obsessivos, associados a ideias de aprisionamento, retenção, recusa à separação e à entrega. Então, mais uma vez, há que se perguntar: QUEM ali travou? Qual fantasia está constelada em relação à entrega do trabalho para o mundo? E, mais importante, que leitor o autor tem em mente para o qual não quer dar acesso ao seu texto, de jeito nenhum? De outro modo, pode-se também, indagar: Que pedra ou árvore caiu nas águas do rio vindo a impedir seu livre fluxo? Pedra pesa, que peso é este que o exercício de escrever ganhou ao chegar neste ponto? O que impediu a fluidez no processo criativo da escrita? Muito provavelmente, esses questionamentos levarão o aluno a se deparar com algum parasita psíquico que inibe a criatividade e a continuidade do trabalho. Ele pode aparecer personificado em pelo menos três formas corriqueiras: na preguiça ou procrastinação, no esquecimento, na falta de tempo (que, como sabemos, não existe em si mesmo e precisa ser criado em função daquilo que tem mais importância, conforme a deusa "necessidade" indicar e estabelecer no rol de atividades da vida cotidiana).

Nesse sentido, a experiência da monografia pode ganhar uma dimensão de investigação psicológica pessoal. Se o aluno/pesquisador, ao invés de se queixar e "largar" o trabalho de lado, insistir e como propõe Jung, suportar as dificuldades e dialogar com a sombra, talvez possa finalmente tentar se entender com ela, com suas acusações, cobranças e trapaças. Possa tentar entender onde ela sofre ou que sofrimento ela constela no drama psicológico de sua vida estudantil. Talvez as travas anunciem dores, sentimentos de inadequação que aludem, por associação inconsciente, a outras situações em que a escrita foi sofrida. A escrita pode ser uma amante indócil ou apaixonante, e a boa notícia é que entre essas duas polaridades, há tantas quantas cada pesquisador se arriscar a descobrir e criar, desde que ele próprio seja capaz de amar o que estuda, e de se entregar ao exercício frequente de ler, sentir, pensar e escrever. De modo que, para além da produção de um trabalho escrito ao final de um curso, vemos que a monografia propõe desafios mais amplos, que incluem aspectos da personalidade do próprio aluno/pesquisador, presentes no processo como um todo. Para vivê-lo, há que se invocar a força, a coragem e a persistência de um Hércules, já que se trata de um trabalho "hercúleo", como se diz, em referência à natureza mítica desse herói que cumpriu uma tarefa após a outra, sofrendo os reveses de cada uma, mas seguindo em frente, até chegar ao final.


O Encontro de Hércules com Parsifal...

Precisamos de Hércules, mas também podemos nos reconhecer em Parsifal na realização do trabalho monográfico, o herói "tolo" imbuído da busca do Santo Graal, que falha e volta a refazer todo o caminho, para amadurecer e ser finalmente capaz de cumprir aquilo que se lhe impôs a iniciar a jornada. Possivelmente, as experiências negativas no exercício da escrita, além dos sentidos inconscientes do tema "escolhido", engendrem medo e rejeição em relação ao que se estuda, exatamente como o aluno pode ter se sentido rejeitado ao falhar em alguma fase do seu processo estudantil. Entretanto, não rejeitemos o encantamento e a ingenuidade de Parsifal, conhecido no mito como um "inocente casto", conforme a etimologia de seu nome. Tal qual Parsifal, é necessário relativizar expectativas, críticas e medos, se considerarmos que é possível ter outras chances no percurso da monografia, de ler, reler e reescrever as ideias para retomar a inspiração e seguir adiante.

No drama de Parsifal, diante de todas as perguntas que os cavaleiros lhe faziam, ele respondia dizendo não saber nada, nem ao menos seu nome. Portanto, vemos que este herói não personifica um estilo arquetípico inflado, e justamente por isso, tem seu valor na experiência monográfica. Esse estilo de consciência - expressão usada por James Hillman (2011) para falar de um atravessamento ou aparição arquetípica de um deus ao ego -, permite ao aluno/pesquisador suportar, como Parsifal, os momentos de "não saber nada". Momentos em que pode se sentir perdido, momentos em que olhares desdenhosos internos ou externos, que ironizam traços de incapacidade, podem paralisar o trabalho monográfico e o desejo de continuar.


"(Parsifal) Continuou cavalgando e, ao anoitecer, avistou à distância uma  árvore mágica, na qual havia muitas luzes acesas. Lá encontrou um caçador, que lhe disse que finalmente ele estava perto do Castelo do Graal. Por fim, chegou ao castelo. Os criados o conduziram ao Rei do Graal, que estava sentado num sofá púrpura. Desta vez, Parsifal olhou para o rei enfermo com compaixão, condoendo-se do sofrimento dele e entristecendo-se com a longa tristeza do rei. Ao ser perguntado, fez ao rei um humilde relato de suas longas aventuras e falou com franqueza de seus fracassos. Em seguida, finalmente perguntou de que sofria o rei e, mais importante, o que era o Graal e a quem ele servia. Diante dessas palavras, o rei doente ergueu-se do leito, curado, e abraçou Parsifal." (THYNUS, 2018 - grifo meu)


Paradoxalmente, Parsifal é uma imagem que ajuda a persistir, pois permite admitir fracassos e retrocessos, contribuindo para humanizar a relação do aluno/pesquisador com os anseios idealizados de seu objeto de estudo e do trabalho a ser entregue. Pois, conforme narra o mito, somente ele estava predestinado a fazer a pergunta ao Rei ferido sobre o Graal. Assim como somente o próprio aluno pode se responsabilizar por sua busca e pelos afetos e vicissitudes que ela desperta ao se lançar num curso de especialização, e a responder aos requisitos de avaliação que esse locus iniciático convoca e propõe, do início ao fim. Quem sabe, para muitos alunos/pesquisadores, a inspiração na imagem de Parsifal permita o que o próprio herói conseguiu no mito, quando decidiu, pela segunda vez, retornar ao ponto em que fracassou e resgatar o sentido que lhe fez iniciar a jornada: fazer a pergunta esperada que curou o rei ferido, assim como seu reino, que se encontrava estéril. O prazer pela finalização de um trabalho monográfico pode, então, ajudar a curar feridas da história do aluno/pesquisador. Suportar as próprias faltas e falhas, como o Rei ferido, ver-se capaz de discorrer sobre ideias próprias e de articulá-las com as de outros autores estudados anteriormente, relativizar cobranças e expectativas, fazer as pazes com as exigências apresentadas por Senex no contexto institucional de uma pós-graduação. Tudo isso, metaforicamente, pode ser vivido como um encontro mais significativo com o tema inicial, que deu inicio à jornada do trabalho monográfico, e permitir chegar ao encerramento do curso, agora mais amadurecido, não só em termos teóricos, mas principalmente em termos pessoais.

Profa. Santina Rodrigues

santina.rodrigues.oliveira@gmail.com

( Professora do IJEP, Janeiro 2018)



REFERÊNCIAS:


HILLMAN, J. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung, e Adler. Campinas: Editora Verus, 2011.


JUNG, C.G & JAFFÉ, A. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1963/1975.

 

THYNUS. PARSIFAL. (Disponível em http://divagacoesligeiras.blogspot.com.br/2015/11/parsifal-descoberta-do-graal.html. Acesso em 21/01/2018)


OLIVEIRA, Santina Rodrigues. Reflexões sobre a materialidade numa abordagem imagético-apresentativa: narrativa de um percurso teórico e prático à luz da psicologia analítica. Dissertação (mestrado) - Universidade de São Paulo. São Paulo, 2006. (Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-15022007-220155/es.php)

 

 

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