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A Morte Cotidiana

“Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte”.

C. G. Jung

 

O historiador francês Philippe Ariès (1982), ao estudar a atitude do homem diante da morte desde a Idade Média até nossos dias, observou que a morte deixou de ser familiar, próxima, percebida, compartilhada, pressentida, ritualizada e pública, atitude que chamou de “a morte domada” e passou a ser distante, solitária, isolada, medicalizada, escondida dentro de um hospital, com funerais e lutos bem mais discretos. Essas mudanças, que começaram na 2ª. metade do século XIX e se seguiram durante o século XX quando a sociedade expulsou a morte do cotidiano, nos falam sobre uma sociedade que não pode parar, “o desaparecimento de um indivíduo não mais lhe afeta a continuidade [...] tudo se passa na cidade como se ninguém morresse mais” (ARIÈS, 1982, p. 613), dada a correria em busca do capital nas grandes aglomerações urbanas ocidentais, atitude esta chamada de pelo historiador de “morte invertida”. Por outro ângulo, a morte deixa de ser um fenômeno natural e passa a ser um fracasso médico. Todo morrer é vivido no silêncio, na ignorância de cada um. A sociedade de massa passa a ter vergonha da morte, o que gera sua interdição.

Percebo que, atualmente, os temas do envelhecimento, da finitude, da morte estão fora das rodas de conversas, mesmo nos encontros e atividades desenvolvidos pela equipe assistencial para idosos – probabilisticamente aqueles que deverão se encontrar com a morte antes dos mais jovens, se a ordem natural da vida for seguida. Na minha meninice convivi com bisavó, avós, avôs e tias velhas, sendo aqueles assuntos recorrentes junto às crianças e aos jovens. Negamos a morte de forma cotidiana, não a reconhecemos ao nosso lado, nas transformações de nossa vida diária. Não a percebemos quando fazemos aniversários, quando mudamos de ano no colégio, quando entramos para a faculdade, quando mudamos para outro país, quando casamos. Não a percebemos quando dizemos SIM para uma coisa e, portanto, estamos dizendo NÃO para várias outras; não a percebemos quando entramos num processo de transformação onde, tendo o conflito como força motriz, algo novo transcendente surge e algo antigo é deixado para trás. A inconsciência destes fenômenos deixa a morte como sendo algo exterior, distante, perverso e mal. O estudo do mito grego de Deméter-Perséfone, pode contribuir tanto para a conscientização da presença da morte cotidiana e como para a ampliação do processo de autoconhecimento.

Kerényi (2015) relata uma das versões do mito. Perséfone, filha de Deméter, que era também chamada de Core, a Donzela, foi raptada por Hades, irmão de Zeus, deus do Mundo do Subterrâneo, deus dos mortos, dos invisíveis. A donzela brincava colhendo flores e, quando pegou um narciso, a terra se abriu dando passagem ao carro de ouro de Hades, puxado pelos corcéis imortais. Ele a colocou no carro, apesar de seus lamentos e gritos. “Do ponto de vista matriarcal, todo casamento é um rapto de Core, a flor virginal, consumado por Hades, o lado simbólico masculino, terreno, hostil e violador.” (NEUMANN, 2017, p. 78). A perda da virgindade, a “defloração”, é também o começo da vida de uma mulher. O início de um casamento marca a separação e saída da casa dos pais; na convivência prazerosa de um relacionamento a dois, há a morte da vida de solteiro, da liberdade e o surgimento de uma série de compromissos. O casamento é sempre um mistério, uma intimidade diferente. O tornar-se mulher traz a possibilidade da maternidade, uma experiência ímpar que desperta emoções das mais variadas naturezas entre mulheres e homens.

Outra personagem muito afetada neste mito foi Deméter, a mãe de Perséfone, que após o rapto de Coré se sentiu completamente perdida, desesperada, com muita dor e começou a vagar, em andrajos e de luto. Com a perda da filha, criança no seu olhar materno, Deméter também havia perdido a criatividade e, como uma velha, assumiu o papel de ama para Demófon, o filho ainda bebê do rei da cidade de Elêusis, onde foi parar em suas andanças. Neste papel de ama, ela tentou imortalizar o filho da rainha Metaneira, através da exposição dele, todas as noites, ao fogo sagrado. Até que em certa noite, Metaneira vê o que Deméter estava fazendo, e sem entender, entra no aposento aos gritos estridentes. Tal situação fez com que Deméter se relevasse em sua glória e, mesmo furiosa com a interrupção, deixou Metaneira sobreviver e tornou-a sacerdotisa dos ritos, após supervisionar a construção na cidade de um templo em sua homenagem. Depois disso Deméter continuou à procura da filha e foi ter com Hécate, para se aconselhar, e esta indicou que falasse com Hélio, deus sol, que finalmente deu indicações sobre o destino de Coré – ela tinha sido arrastada para a terra dos mortos. A ira de Deméter fez com que a Terra ficasse infértil, trazendo doenças e morte a tudo que crescia. Foi um ano desolador para os homens, com a fome grassando na terra, e para os deuses que não recebiam adorações e sacrifícios dos homens. Até que Zeus interveio junto a Hades ordenando a devolução da rainha Perséfone, pois era nisso que Coré havia se transformado. Apesar de avisada, Coré não resistiu a suculenta romã e experimentou a sexualidade com Hades. Assim que Deméter soube, entendeu que Perséfone teria de retornar.

Jane Prétat (1997) estudou este mito no sentido de mostrar a importância da criatividade e da renovação após as perdas inevitáveis que ocorrerem.

[...] nos anos de aposentadoria e mudança, muitos de nós nos sentimos perseguidos, despojados e estuprados pelos eventos da vida e pelo tumulto interior. Quando a perda de um emprego ou de pessoas importantes para nós nos fazem mergulhar no desespero, penetramos na imagem de Deméter, vivenciando sua angústia. Sendo ao mesmo tempo a perda e o perdedor, ansiamos pelo que desapareceu, mas temos pouca esperança de recuperá-lo sem ajuda. O mundo está secando à nossa volta, e só podemos lamentar, confusos. Nossa mente vaga por estranhos lugares enquanto procuramos respostas. (PRÉTAT, 1997, p.156)

 

Empreendemos outros projetos, mas não em substituição ao que se foi. e assim vamos experimentando as “mortes cotidianas” das quais poucos se apercebem. Esses processos que acontecem várias vezes durante um ciclo de vida e atinge vários aspectos da existência, podem ir nos preparando para o processo da morte ao final da jornada. Mas não existe fórmula mágica, continuamos buscando uma resposta, uma intervenção, até que descobrimos a verdade: perdemos nossa juventude e não há como recuperá-la! A semelhança de Deméter, a situação não volta à condição anterior, Perséfone passa uma parte do ano com ela, e na outra parte ela volta para o mundo de Hades, onde agora é rainha.

Após vivenciarmos estes vários ciclos, podemos tomar consciência de que as mudanças e transformações, vividas dentro de um processo criativo, são uma constante em nossas vidas. E quanto mais cedo nos dermos conta disso, mais facilmente e com mais resiliência e calma passaremos pelos embates cotidianos, tanto daqueles considerados “bons” como daqueles considerados “ruins” pelo nosso julgamento de “meros mortais” e pelo nosso olhar subjetivo dos acontecimentos. Talvez caiba nos entregarmos ao processo de individuação e “aos deuses” com um pouco mais de confiança, vivenciando com mais leveza cada uma das pequenas mortes e nascimentos diários.

Somente ao nos aproximarmos do fim do ciclo da vida é que conseguiremos ver nossa marca, nosso caráter. Ele (...) “vem formando nosso rosto, nossos hábitos, nossas amizades, nossas peculiaridades, o nível de nossa ambição com a carreira e nossos defeitos. O caráter influencia o modo como damos e recebemos” (HILLMAN, 2001, p.13). Colocando-nos como exploradores de nós mesmos e numa visão criativa, amalgamando a parte que já conhecemos com o desconhecido que nos amedronta e que ao mesmo tempo nos atrai, é que poderemos enxergar nos tempos da velhice e da morte, o fim heroico de uma trajetória percorrida.

 

Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação do IJEP. mauraselva@gmail.com

REFERÊNCIAS

 

ARIÈS, Philippe. O Homem diante da Morte. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982. v. 2.

HILLMAN, James. A Força do Caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 1984.

KERÉNYI, Karl. A mitologia dos gregos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, v. 1, cap. XIV.

NEUMANN, Erich. Eros e Psiquê: Amor, Alma e Individuação no Desenvolvimento do Feminino. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.

 

PRÉTAT, Jane R. Envelhecer: os anos de declínio e a transformação da última fase da vida. São Paulo: Paulus, 1997.

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