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O corpo como o lugar da Sombra

Desde a instauração dos sistemas religiosos monoteístas na maior parte do mundo, o corpo carrega o peso do pecado. A abominação ao corpo ganhou historicamente uma nova proporção na medida em que se tornou uma estratégia monoteísta de combate ao paganismo dominante A.C. (EISLER: 2008).

Pagão, aliás, era o homem que trabalhava diretamente com a terra, sendo “pagus” o pedação de terra que o homem preparava para o plantio, no qual ele escavava sulcos que receberiam as sementes. A raiz de “escavar” é a palavra “ghrebh-“, do indo-europeu, de onde vem a palavra “escrever”. Também “pagus” dá origem à palavra página; dessa forma, pagão era o que escrevia seus textos sagrados diretamente nas páginas da terra.

Os deuses que antes habitavam a terra e o que nela vive migram primeiramente para os céus, até que um deus único surja em sua plena imaterialidade, imperceptível aos sentidos, apenas acessado pela fé.

Essa perseguição ao paganismo ainda hoje se dá na desmoralização que a ciência cartesiana, aliada à monetização da vida, tenta impor às curandeiras, à medicina natural, à fitoterapia, ou seja, a toda sabedoria milenar herdada das tradições pagãs, como, aliás, a toda forma de sabedoria que não comungue de uma visão mecanicista de mundo (BERMAN: 2009). A divisão cartesiana entre corpo e alma representou, de certa forma, a intensificação da dissociação entre Ego e Sombra; o Ego do homem ocidental se volta para a imaterialidade do espírito, enquanto sua Sombra é depositada no corpo do mundo e nos próprios corpos dos homens.

Quem apresentou muito bem essa luta entre os sistemas sociais e de crenças do matriarcado pagão com o patriarcado monoteísta foi o ganhador do prêmio Nobel, o biólogo Humberto Maturana Romesín que, com G. Verden-Zöller, falou sobre o lugar central que o corpo e o mundo natural  ocupavam no paganismo, quando dizem que o patriarcado se caracterizou pela alteração das “relações com o mundo natural, que se transladou da confiança ativa na harmonia espontânea de toda existência à desconfiança ativa nesta mesma harmonia, em um desejo de dominação e controle” (p. 40: 2006)[1]. A partir de então o corpo e a terra sofreram todo tipo de ataques em nome da necessidade de controlar o que é então visto como ameaçador.

         A natureza, a terra, o corpo – feitos da mesma matéria de tempo e mortalidade. O corpo era tido como sagrado e nele residia sempre a verdade final sobre os mistérios dos deuses. Todo o ciclo mitológico da Grande Mãe trata dessa relação, como bem apontou E. Neumann no livro de mesmo nome.

         Mas eis que dois milênios depois, entramos no terceiro milênio ainda, e cada vez mais, atribuindo ao corpo toda a espécie de males. O percurso até aqui foi longo e muito se pode dizer sobre ele, mas o fato é que, hoje, o corpo não é mais sagrado, ele se  tornou o depositário de toda nossa projeção de Sombra, e é preciso entender que isso acontece na esfera pessoal porque há dois mil anos vêm acontecendo na esfera cultural.

         Apesar de sabermos que a criação da crença de que o corpo é o lugar do Mal e do abominável em nós tenha sido um processo histórico pautado por uma visão teológica e política específica de mundo, uma visão que encontrou no capitalismo um sistema ideológico e econômico que a sustentasse (M. Weber), é nos dramas individuais que o psicoterapeuta vê cotidianamente as mais trágicas consequências desse processo para o homem. Tragédias grandes também existem para a Biosfera, considerando as tragédias ecológicas que geramos, mas esse ponto requer outro enfoque mais demorado do que o que aqui pretendemos. Agora, vamos nos ater ao humano, e, dentre os humanos, peço licença para me ater às mulheres, e entre elas, quero me ater às meninas que tentam descobrir o caminho para se tornarem mulheres.

         Quando uma garota de 11 anos se suicida porque odeia o próprio corpo[2], porque acha que seu corpo contém tudo de detestável nela, que é impossível seguir com um corpo que não se adequa aos padrões impostos pela sociedade mediática, pergunto-me: como foi que deixamos isso chegar a esse ponto?

         Seria ainda menos trágico se estivéssemos falando apenas de Milly Tuomey, a garota irlandesa que se suicidou em 1º/12/2016, caso divulgado apenas recentemente. Mas os índices são alarmantes, sobretudo se avaliamos a rejeição do próprio corpo associada ao peso, às fantasias de inadequação do corpo em relação às imagens das mulheres que são padrões midiáticos de beleza.

Milly escreveu em seu diário, antes de morrer: “meninas bonitas não comem”, como amplamente divulgado pela mídia. Meninas bonitas, para a sociedade atual, “não comem”, “não riem”, “não saem às ruas”, aliás, desejavelmente são apenas fantasmas midiáticos que ocupam todas as telas dos celulares e das TVs com suas imagens. Não por acaso a cantora Melanie Martinez, que divulga uma estética depressiva e suicida faz tanto sucesso entre adolescentes mulheres no mundo todo.

Segundo uma pesquisa realizada em 2012 (LAUS), 77% das pessoas no Brasil se dizem insatisfeitas com o corpo, sobretudo com o peso, mas só 17% seriam consideradas de fato com sobrepeso ou obesas, pelos índices oficiais de IMC. Não importa, qualquer carne é ruim para a fabricação de imagens.

Nossa sociedade faz a apologia das imagens mediáticas, mas não se enganem, não são as imagens simbólicas, aquelas que nos conduzem para a alma e para o encontro com o Self.  Imagem, não corpo, o que nossa sociedade quer é a imago, palavra que originalmente significa “retrato do morto”. A cultura que idolatra a imagem mediática é a mesma cultura na qual “o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos”[3].

Certamente que a questão do suicídio é uma questão complexa e que entre os que compõem as estatísticas haverá suicidas de fato, mas minha hipótese é de que a grande maioria está apenas travando uma luta literal contra a própria Sombra e contra as Sombras culturais. E é no corpo que elas moram; o corpo, sempre o corpo, visto como coisa, dissociado, recebendo toda a projeção da Sombra.

A raiz do pensamento de C. G. Jung que inspira a psicossomática é justamente a impossibilidade de separar o corpo da alma, como se fossem duas instâncias diferentes. Mas seguimos agindo como se fosse possível salvar a alma, enquanto mortificamos o corpo, que pode ser martirizado, como sempre, seja por meio de sessões de flagelação, como na Idade Média, seja pelo ataque diário frente aos espelhos e às telas midiáticas, seja pelos tratamentos estéticos invasivos que mais se aproximam a automutilações do que a gestos de amor próprio. Sempre podemos contar também com a indústria alimentícia para envenená-lo, ou com a indústria farmacêutica para sedá-lo e impedir que ele se revolte, que se liberte desse incômodo lugar de depositário das sombras do mundo. E depois nos horrorizamos quando essas mesmas meninas cortam a si mesmas, vomitam compulsivamente, entopem-se de sanduíches. É o corpo que está na mira, o corpo que foi transformado em coisa, que não acolhe o Self.

Enquanto não compreendermos que o corpo tem carregado a Sombra por tanto tempo, a ponto de o considerarmos o grande inimigo natural, não conseguiremos integrar os conteúdos e a vida que expulsamos com ele.

Se quisermos que nossas meninas parem de se cortar, de se matar, de chorarem sozinhas nos quartos escuros porque são “gordas” ou “feias”, inaceitáveis como imagem-mercadoria da sociedade do consumo, precisamos começar pelo resgate do feminino perdido: da Terra, do tempo dos ciclos naturais, das presenças, de tudo aquilo que perdemos ao projetarmos no corpo a sombra do mundo.

         Quisemos apagar os traços naturais de nossa mortalidade e com isso perdemos a vida toda. Queremos as imagens à custa dos corpos, e ficamos apenas com a fantasmagoria que nos assombra no vazio dos corpos apáticos.

         Precisamos olhar para esse corpo que negamos, nos abrirmos para os abraços e tirarmos as meninas de 11 anos para dançar.

 Dra. Malena Segura Contrera, Analista Junguiana em Formação pelo IJEP.

Referências:

BERMAN, M. El reencantamiento del mundo. Cuatro Vientos: Chile, 2010.

EISLER, R. O cálice e a espada. Palas Athena: S. Paulo, 2008.

LAUS, Maria Fernanda “Influência do padrão de beleza veiculado pela mídia na satisfação corporal e escolha alimentar de adultos”. Tese de doutorado da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto, 2012.

MATURANA ROMESIN, H. Amor y Juego. JCSAEZ Ed.: Chile, 2003.

NEUMANN, E. A grande mãe. Cultrix: S. Paulo, 1996.

https://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2017/12/04/suicidio-de-menina-de-11-anos-faz-alerta-sobre-pressoes-e-choca-a-irlanda.htm

 

IMAGEM:

Produção de Rook Floro, um artista de Bangkok que mora na Inglaterra. Suas esculturas, inspiradas na teoria psicológica de Carl Jung sobre a sombra . Uma projeção líquida / sólida de si mesmo como uma revelação de uma consciência reclusa; "Metamorfose do Fluxo".



[1] No original: “relaciones con el mundo natural que se han desplazado desde la confianza activa en la armonía espontánea de toda existencia, a la desconfianza activa en aquella armonía, y un deseo por la dominación y el control”.

[3] https://estilo.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/redacao/2017/12/04/suicidio-de-menina-de-11-anos-faz-alerta-sobre-pressoes-e-choca-a-irlanda.htm

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