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FALANDO DE ENANTIODROMIA

"A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito"


Assim nos fala uma conhecida música pop sobre o incessante movimento que acontece ao longo da  vida, oscilações como ondas que vão e vem sem parar.


No que se refere à energia psíquica, esse movimento infinito faz com que a gente esteja sujeito a ir de um extremo a outro sem perceber. Isso me faz lembrar quando noticiaram o suicídio do ator Robin Williams. Um ator sempre envolvido em trabalhos de humor e que acabou tirando sua própria vida. Temos a sensação de que a imagem que víamos não corresponde aos fatos.


Assim como o movimento das ondas que vem e vão, fatos como este explicam-se através da Enantiodromia, termo cunhado por Heráclito, que diz que uma grande força em uma direção gera uma força no sentido oposto, advertindo que um dia tudo se reverte em seu contrário.


Jung aplicou o termo ao processo de compensação energético da psique, processo inconsciente de mudança de perspectiva, onde o oposto negado, emerge do inconsciente se impondo a atitude vigente na consciência.


Como uma atitude se transforma em outra oposta "de repente"? Quando há uma concentração energética em certa atitude, a energia naturalmente busca o oposto visando o equilíbrio.


 "[...] a tendência a renegar todos os valores anteriores para favorecer o seu contrário é tão exagerada quanto a unilateralidade anterior" (Jung, 2011,§ 115)


Foi assim com Nietzche que, por toda a vida, admirou Wagner e sua obra, de repente passou a odiá-la. Foi assim também com Santo Agostinho que se dedicou quase dez anos em pesquisas e produção de obras voltadas para a doutrina maniqueísta, no entanto, após se converter definitivamente ao cristianismo, tornou-se um dos principais opositores da filosofia que tanto defendia.


Podemos pensar nessa dinâmica também ao analisar detentos que  se voltam à religião de forma tão intensa, indo do crime à religiosidade fanática. Porém nem sempre essa transição de atitude significa a integração daquilo que estava inconsciente, ou seja, a mudança radical, reprimindo a crença passada, produz um estado de desequilíbrio tão grande quanto o anterior.


Por conta do próprio instinto de sobrevivência há uma tendência da consciência à unilateralidade, porém,  quanto mais focada em um só ponto, mais o inconsciente usando da força contrária busca destruir essa falsa ideia. A razão faz com que nos apeguemos a essa unilateralidade, mas não somos apenas racionais.


"O irracional não deve e não pode ser extirpado." (JUNG, 2011 §111)


Jung dizia que todo inconsciente quer se tornar consciente, afinal, o Self sendo o arquétipo da totalidade e imago da divindade interior, impõe que, o que não está desenvolvido seja integrado na personalidade consciente levando o sujeito a tornar-se mais completo.


A enantiodromia também se dá coletivamente produzindo fenômenos de massa. Jung cita por exemplo que a desorientação espiritual do mundo romano foi compensada pela irrupção do cristianismo. (JUNG, 2011, §444).


Podemos pensar nesse movimento compensatório por exemplo no que se refere à sexualidade aonde em tempos de tanta liberdade sexual e pornografia, crescem o número de jovens que defendem a castidade.


É possível relacionar o tema com o princípio feminino, que por séculos tem sido subjugado pelo patriarcado e que começa a buscar sua identidade perdida de modo que desponta um movimento enantiodrômico cujo objetivo final é a integração das polaridades.


O ponto é conservar os antigos valores na medida em que se acresce o seu contrário. Refletir, se questionar do por quê e para quê está tomando esta ou aquela atitude de forma unilateral é importante pois é o caminho do meio e a flexibilidade que promovem uma atitude psíquica mais saudável e dessa forma deixamos de ficar tão à mercê de marolas e ressacas nesse indo e vindo infinito.


Já dizia Jung: "A única pessoa que escapa da lei implacável de enantiodromia é o homem que sabe separar-se do inconsciente, não reprimindo-o, pois assim ele simplesmente o ataca por trás, mas colocando-se claramente diante dele como aquilo que ele é."  (JUNG, 2011, §112)

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JUNG, C. G. Psicologia do inconsciente. vol 7/1,  § 111, 112, 115 - ed. Petropolis, Vozes, 2011

_______ Os símbolos da transformação na missa. vol 11/3, § 444- ed. Petropolis, Vozes, 2011


Ingrid Hermann

Especialista em Psicologia Junguiana e Arteterapia

Membro Analista em Formação

Fone: (11)983526118 Vila Madalena e Santana 

 

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