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A arte de contar e ouvir história ...

 

Creio que a imaginação pode mais que o conhecimento.

Que o mito pode mais que a história.

Que os sonhos podem mais que os fatos.

 Que a esperança sempre vence a experiência.

Que só o riso cura a tristeza.

E creio que o amor pode mais que a morte.

Robert Fulghum

 

Os Contadores de Histórias sempre existiram na história da humanidade. O Contador é aquele que tem a capacidade de narrar um fato e transformá-lo em uma viagem que vai do mundo literário ao mundo da imaginação, sempre em busca de desenvolver a criatividade de quem atentamente o observa, escuta e compreende a história.

Os contadores têm o prazer de falar, de se expressar e de serem ouvidos. Ele passa a sua comunicação através das histórias, expressa a narração com a sua emoção. Contar histórias é um ato de amor. É deixar o coração falar uma linguagem muito antiga, diretamente ao coração do ouvinte. É pintar com a voz, o gestos, imagens que qualquer um entende. Contar histórias é "des-cobrir" um novo mundo,  um caminho que nos permite enxergar o que ficou encoberto e foi ocultado dentro de nós. A palavra é o que nos habilita e nos permite conexão com o outro, afinal o riso promove a reflexão e o choro promove a catarse (vê a dor). A verdade se veste de história para se aproximar do homem, a verdade da história é a fantasia que é a amalgama da realidade!  E é no nível do imaginário que se tem transformação e não no mundo da lógica, a inclusão é pelo simbólico, que nos permite significar ou resignificar algo...

Contar história é um momento de brincadeira, de entrar em outros papéis. O grande exercício é despertar compaixão em alguém, emoção (pathos) , sair do nosso umbigo e entrar no outro. É sair pelo mundo e escolher as flores colocando no cesto e depois oferecer isto a alguém... Está é a viagem da vida, o sentido do livro é estar vivo, o sentido da história é ser contada. A narrativa se tece com o desejo de saber o que vem depois, como vai continuar... A narrativa é a forma de dar sentido ao que aconteceu na nossa vida.

Ouvir histórias é essencial para nos nutrir em todos os aspectos/sentidos da vida. As histórias são espelhos e sempre agem quando nos tocam... Pois existe a possibilidade de mexer no externo e melhorar o interno, ou seja identifico fora o que esta dentro, assim consigo elaborar a cura através da história... No espelho do outro elaboramos a nossa própria história. Contar histórias mexe com as emoções, brinca com o tempo e descobre tesouros que a memória perdeu. A Arte de Contar Histórias, mostra que elas (as histórias) podem curar e transformar a vida das pessoas. É uma possibilidade de melhorar com a história e tirar o foco da dor/da doença e trabalhar a realidade com o contato. A idéia é levar para o mundo da fantasia e depois voltar para o real, afinal a arte de narrar é a ligação com o imaginário. As histórias são como os bálsamos medicinais, trás a transformação para a cura e é um mapa que nos orienta na construção da vida. As histórias nos ensinam a vivificar. A ficção-fabulação produz resiliência: torna o real suportável, transformando-o numa narrativa de aventura na qual a vítima pode se transformar em personagem. A fabulação é uma forma defensivo-criativa que se ergue, como imagem, contra a representação da morte inevitável (a estratégia de Sherazade). O conto de fadas, o mito, o romance falam de abandono, luto, incesto, violência e superação. Muitos autores narram para reparar seus traumas. A narrativa modela a tragédia em forma de narrativa. O devaneio e a fantasia transformam a subjetividade num abrigo contra os horrores do real. Quando a ficção consegue agir sobre os fatos, o real é poetizado. O devaneio é protetor e construtor da subjetividade. A narrativa oferece imagens que cooperam para construir o vaso da alma (emoção-imaginação-intuição...)

O contador de história é um artesão, pois Ele é o que faz o inteiro na sua arte, de forma a juntar tudo para depois ter o produto final, diferente da produção em série. A Contação de História é uma resposta ao tempo devorador, um contra feitiço que pretende quebrar o encanto maléfico da produtividade obsessiva, da rotina repetitiva e sem sentido, dos automatismos que nos deixam áridos e vazios. Caminhamos em um mundo de muitas transformações e estamos inventando e sendo reinventados a todo instante. A troca de hábitos, atitudes e comportamento têm marcado em muito a nova era e esta mudança tem sido a palavra de ordem neste novo contexto.

O contador de história é o mediador entre mundos é o guardião/guia da alma. Contar histórias é algo mágico, nos enche de esperança e enxergamos o mundo com os olhos do coração afinal quando a história começa, importa menos o lugar em que a pessoa está, mas para onde será transportada... importa mais o brilho no olhar da pessoa e a história que sai do coração... A experiência de ouvir e contar histórias é uma antiga arte ligada à essência do ser humano. As narrativas tradicionais expressam em imagens as verdades mais profundas da vida.  Daí serem eternas. Afinal ouvir e contar histórias é umas de nossas melhores tradições, como seres humanos. E o mundo precisa urgentemente resgatar aquelas tradições que trazem significado para nossa vida.

Era uma vez... histórias de heróis, santos, príncipes e princesas, bruxas e dragões mexem com a fantasia, com os sonhos e ajudam crianças e adultos a superarem, com simplicidade e beleza, muitos  conflitos. É um convite  para o sonhar e sonhando formar o próprio caminho, pontes para jornada da vida.  O que nos movem a ser diferente são as histórias, pois elas nos arrancam do aqui agora. As histórias nos ensinam a vivificar, elas tem um significado muito especial para nós, pois nos ajudam a nos entender e nos curar...

As imagens internas é uma comunicação de inconsciente para inconsciente através das imagens, nos permitindo um entendimento maior. Na nossa cabeça não tem palavra e sim imagens, por isso é importante o exercício de construir imagens e plasmar isto com palavras para o outro conseguir imaginar. A palavra é luz que ilumina as histórias e seus benefícios. A fala do paciente é uma narração da sua própria história. Contamos histórias para tocar o ouvinte. Para convidá-lo a conhecer o mundo. Podemos ir a tantos lugares conhecer tantas pessoas e coisas diferentes, descobrir tantos sentimentos. Mas o que queremos mesmo é conduzir o ouvinte a conhecer o seu próprio mundo, o mundo interno.

A história de uma pessoa não está relacionada apenas a um fato ou acontecimento. Ela é construída e reconstruída o tempo todo. Uns se detêm aos fatos familiares, outros a vida conjugal, e assim todos têm uma história própria. Porém, a história não é construída isoladamente. Uma  pessoa, por exemplo, tem várias histórias para contar, seja ela relacionada à escola, à família, ao amor, ao trabalho, à comunidade, à igreja...  Simultaneamente, sua história é sua cara. Ela conta de onde você veio, para onde vai, como e com quem vai fazer esse percurso. A sua história é a sua identidade. Ter identidade é você saber quem é você. É você compreender-se e aceitar-se como é para, então, procurar ir transformando-se naquilo que quer ser. A história não deve ser pensada apenas como resgate do passado, mas sim utilizada como marco referencial, a partir do qual as pessoas re-descobrem valores e experiências, reforçam vínculos presentes, criam empatia com a trajetória e podem refletir sobre as expectativas dos planos futuros. Partindo deste principio, a história não é algo acabado, concluído ou lacrado, mas um grande alicerce para compreender, aceitar e respeitar as diferenças. Nossa identidade também é formada por memória inclusive familiar, cultural e ancestral .... Enfim contamos as histórias e somos as histórias que contamos, permeadas pelos complexos que nos mantém vivos na dinâmica transformadora dos fios e linhas do tempo...

Então é bom saber que uma história bem contada surpreende as pessoas, tem o poder de quebrar a rotina e trazer a magia à tona; estimula a criatividade, rompe barreiras, desvenda mistérios, abre portas e pode ser tão especial e marcante para o ouvinte que chega a influenciar na sua maneira de pensar e agir.  Além disso, as histórias nos convidam a entrarmos num mundo que só a leitura nos proporciona, um mundo de conhecimento, de informação, de curiosidades...

Qualquer semelhança com o processo terapêutico é mera coincidência...

 


Alice Arruda,  Psicóloga Clínica especialista em: Psicologia Junguiana, Arteterapia, Psicosomática e  Dependência, Abusos e Compulsões pelo IJEP

Membro Analista em formação e Professora IJEP

Contadora de História

 

REFERÊNCIAS:

  • Abramovich, Fanny - Literatura Infantil - Gostosuras e Bobices - Editora Scipione - 5a. Edição - São Paulo - 2002
  • Alves, Rubem - Por Uma Educação Romântica - Papirus - 4ª. Edição - Campinas - 2002
  • Autobiografia de um Espantalho - Histórias de Resiliência: o retorno à vida. Boris Cyrulnik
  • Bettelheim, Bruno - A Psicanálise do Conto de Fadas - Editora Paz e Terra - 3ª. Edição - Rio de Janeiro - 1979
  • O Código do Ser - James Hillman
  • Charles Simpkinson, Histórias Sagradas - Uma Exaltação do Poder de Cura e Transformação.
  • Clarissa P. Estes, Mulheres que correm com lobos
  • JUNG, C.G. Fundamentos de Psicologia Analítica, Rio de Janeiro: Vozes, 1989.
  • _________Tipos Psicológicos, Rio de Janeiro: Vozes, 1991.
  • _________A Dinâmica do inconsciente, Rio de Janeiro: Vozes, 1984.
  • _________A Natureza da Psique, Rio de Janeiro: Vozes, 2011.
  • BRANDÃO, Junito de Souza, Rio de Janeiro: Vozes, 1993.
  • MACHADO, Regina - Acordais: fundamentos teórico-poéticos da arte de contar histórias / Regina Machado - São Paulo: DCL, 2004.
  • Margot Sunderland, O valor terapêutico de contar histórias para crianças.
  • MATOS, Gislayne Avelar Matos - A Palavra do Contador de Histórias - São Paulo: WMF Martins Fontes, 2005.
  • Marie-Louise Von Franz, A interpretação dos Contos de Fada
  • _________, A individuação nos Contos de Fada
  • _________, A sombra e o mal nos Contos de Fada
  • Jette Bonauventure, O que conta o conto
  • Vladimir Propp, Morfologia do Conto Maravilhoso

 

 

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