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MORTE: O ESPELHO DA VIDA*

Emaranhada em pensamentos sobre o caos que se instala no país, na minha cidade, e o impacto disso na vida de alguns pacientes e na minha, abro aleatoriamente um livro de Clarice Lispector e meus olhos se direcionam ao conto "A geleia viva como placenta".  A inspiração que ele me causou foi tamanha que resolvi compartilhar aqui essa reflexão sobre a impermanência, a morte, a vida, e a importância do renascimento.  O conto é assim:

"Este sonho foi de uma assombração triste. Começa como pelo meio. Havia uma geleia que estava viva. Quais eram os sentimentos da geleia. O silencio. Viva e silenciosa, a geleia arrastava-se com dificuldade pela mesa, descendo, subindo, vagarosa, sem se esparramar. Quem pegava nela? Ninguém tinha coragem. Quando a olhei, nela vi espelhado meu próprio rosto mexendo-se lento na sua vida. Minha deformação essencial. Deformada sem me derramar. Também eu apenas viva. Lançada no horror, quis fugir da minha semelhante ? da geleia primaria ? e fui ao terraço, pronta a me lançar daquele meu ultimo andar. Era noite fechada, e isso eu via do terraço, e eu estava tão perdida de medo que o fim se aproximava: tudo o que e forte demais parece estar perto de um fim. Mas antes de saltar do terraço, eu resolvia pintar os lábios. Pareceu-me que o batom estava curiosamente mole. Percebi então: o batom também era de geleia viva. E ali estava eu no terraço escuro com a boca úmida da coisa viva. Quando já estava com as pernas para fora do balcão, foi que vi os olhos do escuro. Não "olhos no escuro": mas os olhos do escuro. O escuro me espiava com dois olhos grandes, separados. A escuridão, pois, também era viva. Aonde encontraria eu a morte? A morte era geleia viva, eu sabia. Vivo estava tudo. Tudo e vivo, primário, lento, tudo e primariamente imortal. Com uma dificuldade quase insuperável consegui acordar-me a mim mesma, como se eu me puxasse pelos cabelos para sair daquele atolado vivo. Abri os olhos. O quarto estava escuro, mas era um escuro reconhecível, não o profundo escuro do qual eu me arrancara. Senti-me mais tranqüila. Tudo não passara de um sonho. Mas percebi que um dos meus braços estava para fora do lençol. Como um sobressalto, recolhi-o: nada meu deveria estar exposto, se é que eu ainda queria me salvar. Eu queria me salvar? Acho que sim: pois acendi a luz da cabeceira para me acordar inteiramente. E vi o quarto de contornos firmes. Havíamos ? continuava eu em atmosfera de sonho ? havíamos endurecido a geleia viva em parede, havíamos endurecido a geleia viva em teto; havíamos matado tudo o que se podia matar, tentando restaurar a paz da morte em torno de nos, fugindo ao que era pior que a morte: a vida pura, a geleia viva. Fechei a luz. De repente um galo cantou. Num edifício de apartamentos, um galo? Um galo rouco. No edifício caiado de branco, um galo vivo. Por fora a casa limpa, e por dentro o grito? Assim falava o Livro. Por fora a morte conseguida, limpa, definitiva ? mas por dentro a geleia elementarmente viva. Disso eu soube, no primário da noite." (Clarice Lispector) 

Nesse conto de Clarice deparamos com o maior de todos os medos: o da morte, seja ela física ou projetada em qualquer instância relacional ou material como a separação de um casamento, a perda de um cargo ou da autonomia provocada por uma patologia, a despedida da jovialidade, da virilidade... E por trás de todos estes existe o medo de perder o controle sobre si diante do desconhecido ou inesperado, de trazer à tona todas as fraquezas diluídas e disfarçadas na geleia de Clarice, nessa sombra úmida que se move silenciosamente e ainda assim prenuncia o fim.  A vida é nada provável mesmo que esta idéia seja rejeitada pela maioria de nós que insiste na ilusão de um determinismo, tentando impor mecanismos de controle que excluam o tom improvável da existência. Parafraseando Jung, a lógica e a organização cabem na vida, mas a vida não cabe em nenhuma estrutura, ela é essencialmente caótica e por isso traz a possibilidade de muitas mortes e renascimentos, sem os quais o processo de individuação não seria possível.   

Trago o conto de Clarice por ele abordar duas vertentes interessantes a serem refletidas: a questão da morte e a importância do sonho como fator compensatório de algo que é desconhecido.

A vida atrapalha qualquer tentativa de vivência unilateral, o inconsciente regula desregulando e a partir daí os complexos vão tomando conta, incomodando com sintomas físicos e relacionais garantindo que o assustador "Sr. Caos" jamais seja esquecido. Mas se por um lado o inconsciente perturba bagunçando a ordem desejada, por outro nos oferece o sonho como possibilidade de uma conversa profunda e libertadora, ainda que não sejamos capazes de alcançá-la em sua totalidade. Certamente o sonho de Clarice, e qualquer outro, não nos cabe interpretar pois isso seria reduzi-lo demais e retiraria dele seu caráter pessoal, ignorando sua importância na função transcendente. Contudo, considerar a linguagem simbólica desta vivência onírica narrada neste conto, nos traz a possibilidade de expandir em nossa consciência aspectos de um tema - a morte - tão importante e paradoxalmente mal compreendido e acolhido no indivíduo.

O medo de morrer precisa ser confrontado para que uma nova disposição com a vida surja, mas este enfrentamento pressupõe o encontro com a deformação essencial espelhada pela geleia, a assustadora natureza da morte na vida e da vida na morte. Isso nos traz a idéia de que a vida é algo que precisa ser conquistada todos os dias, como os relacionamentos amorosos, o espaço profissional, a saúde que precisa ser cuidada... É preciso seduzir a vida, ousar com o batom vermelho! E essa idéia nos remete ao desconhecido novamente, aos olhos do enigmático escuro encontrado por Clarice que precisa salvar a si própria, encontrar a força capaz de depreender se e empreender esforços a serviço de uma causa nobre.    Há que descer às fantasiosas trevas da morte para romper as barreiras que impedem a vida de ser vivida, que impelem um modelo idealizado e ilusório de existência onde se busca a estabilidade, a segurança, a permanência. Tudo o que há é a impermanência!  E ela é a grande empreendedora que nos cerca com seus serviços, que investe em diferentes projetos e negócios voltados ao turismo da existência. É possível adquirir um romântico passeio em belos jardins ensolarados degustando saborosas geleias, mas também oferece serviço de entrega aos que preferem fazer suas refeições em suas hospedarias, com diferentes tipos de geleia inclusive as que conversam sobre a morte e ensinam a arte de nutrir o feto da renovação, como a placentária de Clarice. Fato é, que de uma forma ou de outra, a impermanência nos visita e para que a vida fique mais leve a pergunta que devemos fazer é: o que / quem em mim precisa morrer para que a vida e eu sejamos mais nutridoras e enamoradas? Se não soubermos responder a esta pergunta a morte em vida nos rouba para o altar do sacrifício, tão insuportável que o inconsciente envia pombos correios, disfarçados de sintomas, para nos lembrar que sempre é tempo de rever a tarefa da individuação. 

*Alessandra Melo, Psicoterapeuta, Analista Junguiana em formação pelo IJEP no Rio de Janeiro

 Referencias:

LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a Viver. Rocco

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