(11) 5535-4695   

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros

Livro vermelho e contemporaneidade*

Que valor poderia ter um livro sobre experiências pessoais, escrito a quase cem anos atrás, para uma pessoa que hoje, tem entre 35 e 45 anos? Com essa pergunta início uma reflexão sobre o livro que veio esclarecer as bases da psicologia analítica. Jung aborda o conceito de metanóia, a qual ocorre por volta da metade da vida e representa, em palavras simples, uma transformação no curso que cada pessoa vinha seguindo em sua existência. Metanóia também pode ser vista como o tomar consciência de aspectos essenciais da vida. É um processo que ocorre em um determinado espaço de tempo, assim como a troca dos dentes, os ciclos dos hormônios, aprendizagens diversas ou a perda de força muscular. Algumas dessas transformações são vistas como positivas, talvez por estarem na primeira metade da vida, outras são consideradas grandes ameaças à forma de viver. Porém, as mudanças pelas quais passamos durante toda nossa existência são processos naturais que podemos acompanhar com maior ou menor compreensão e consciência. No caso de uma metanóia, se o trecho da existência percorrido até seu surgimento teve um mínimo de "olhar para dentro", um mínimo de viver consciente e afastada das grandes normoses da contemporaneidade, então, a metanóia pode ser uma porta para o processo de individuação. Ressalto que passamos por diversas metanóias durante uma existência. E, em todas elas, podemos obter um, maior ou menor, aprendizado, significativo, para a compreensão do dia a dia.

Voltando ao Livro Vermelho e sua possível função no cotidiano; ainda hoje as faculdades de formação de professores não ensinam como ensinar a si mesma, as da área de saúde não ensinam como usar a intuição nos diagnósticos, as de artes não ensinam como explorar os inconscientes pessoais e coletivos. Essas áreas não abordadas podem ser vistas como uma deficiência na formação acadêmica, uma vez que o ser humano não vem sendo preparado para o grande desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, e muito menos para seu próprio viver. Se olharmos para o conteúdo dos cursos oferecidos nas faculdades do ensino formal e buscarmos, em horas, a quantidade de tempo que é dedicado ao estudo do ser "humano", percebemos que os padrões do início do século passado ainda predominam. Nos últimos cem anos de sua existência a sociedade ampliou, significativamente, seus conhecimentos tecnológicos, infelizmente as áreas humanas parecem não terem acompanhado essa evolução. Talvez o interesse na área de humanas até mesmo tenha diminuído nas últimas cinco ou seis décadas, depois que a psicologia se aproximou da biologia, a economia da matemática, a educação e a medicina do comércio. Desconheço dados ou pesquisas a este respeito. Porém, o desequilíbrio entre o desenvolvimento tecnológico e o humano pode ser percebido "a olho nu". Para suprir tal deficiência, poderíamos buscar, em cada área de formação acadêmica, qual fatia dos currículos pode ser explorada para atingirmos uma formação integral do ser humano ou qual, ainda, está inexistente, e assim, inserirmos disciplinas que abordem aspectos da existência humana e unam as polaridades tão bem explicadas e valorizadas nos conceitos de Carl Gustav Jung. Procuro chegar a um questionamento: seria o Livro Vermelho, caso viesse a ser adotado como leitura complementar e orientação básica nos currículos das formações acadêmicas, capaz de fornecer uma base mais estruturada para diminuir, quiçá suprir, as dicotomias, mente- corpo, interior-exterior, consciente-inconsciente, entre muitas outras, existentes e enraizadas, principalmente, nas culturas ocidentais?

Não só na formação acadêmica, mas principalmente no processo de individuação de cada pessoa, as experiências vividas por Carl Jung e relatadas no Livro Vermelho, podem trazer para jovens adultos uma nova perspectiva do que pode vir a ser, "ser humano". Em contato com o inconsciente, reconhecendo e aceitando a sombra desde o início da vida adulta, as pessoas poderiam se (auto)transformar e direcionar, conscientemente, o rumo de sua caminhada; o que, certamente, as tornariam mais leves, mais conscientes e, consequentemente, com menos depressão, dores na coluna, hipertensão, bornout e tantas outras "mazelas" da contemporaneidade. Jung foi pioneiro no pensamento de que estaria chegando o tempo em que a humanidade passaria por uma mudança radical na sua forma de compreender a si mesma e a sua existência. A sociedade, no início do

século passado, primeiro aceitou a existência de um inconsciente e o colocou como algo que poderia ser buscado para ajudar a compreensão do ser humano. Porém, a grande transformação esperada por Jung é a aceitação de que esse inconsciente atua de forma ativa, buscando o diálogo com a consciência. Cada pessoa que toma consciência da inteireza de si mesma abre portas para uma vida consciente, plena e completa (com luz e sombra). Havendo abertura para o desconhecido trazido por nosso inconsciente, seja no nível individual ou coletivo, estaríamos iniciando, essa nova forma de humanidade.

Considero o Livro Vermelho de significativa importância para a contemporaneidade. A profundidade de alguns aspectos relevantes dessa obra ainda não aflorou com a devida intensidade, principalmente fora da área das terapias alternativas. Note-se que Sonu Shamdasani escreveu, no início da introdução de sua tradução dos manuscritos, que o Livro Vermelho é o resultado de um trabalho que foi elaborado sem influência das dualidades cartesianas. E, até mesmo, as especializações e separação do conhecimento em disciplinas não fazem parte do conteúdo dessa obra, ele considera o Livro Vermelho uma obra de psicologia em formato literário. Em suas próprias palavras Sonu Shamdasani diz que "considerar o Liber Novus é encarar um trabalho que somente pode ter emergido antes que essa separação houvesse sido firmemente estabelecida" (JUNG, 2015 p. 3).

Não se pode deixar de perceber e aceitar a grande influência de Carl Gustav Jung na psicoterapia do século passado. Afastando-se da linha de tratamento que vigorava no início do século XX, Jung trouxe uma nova forma de compreender o sofrimento e inadequação de suas(seus) pacientes. Sua própria necessidade, desde a infância, de buscar explicações para seus sonhos e questionamentos permitiu que Jung desbravasse, em primeiro lugar, seu próprio inconsciente e, progressivamente, fosse introduzindo e ampliando suas experiências com os inconscientes pessoal e coletivo no tratamento de suas(seus) pacientes. O Livro Vermelho representa uma tentativa de compreender a si mesmo, de integrar componentes da personalidade, de compreender a estrutura do ser humano e de suas relações com outros e com a sociedade e uma tentativa de compreender o aspecto da transcendência presente nos indivíduos. Certamente, uma obra de enorme valor para todas as pessoas que queiram compreender melhor sua própria existência. É por demais conhecido que Carl Jung preferia trabalhar com pessoas na segunda metade da vida. Isso não só porque essas pessoas já somariam a metade de suas experiências pessoais, mas, principalmente, porque elas, nessa fase da vida, normalmente, se colocam abertas para seus inconscientes e olham para suas próprias sombras com maior facilidade.

Jung iniciou suas pesquisas e observações com o inconsciente ainda estudante; por exemplo, no início de seus estudos entrou em contato com aspectos do espiritismo, os quais o remeteram à sua própria infância, o levaram a ler inúmeras obras ligadas a essa temática (JAFFÉ, 1984, p. 107) e a definir o tema de seu trabalho final de curso que foi sobre psicologia e patologia de fenômenos ocultos. Hoje, mais de um século após o início de suas experiências com o inconsciente, podemos acompanhar parte desse processo, que durou algumas décadas, através da leitura do Livro Vermelho. Vivendo sob a massiva influência do paradigma cartesiano, o ser humano do início do século passado. Carl Gustav Jung também vivenciava essa tensão emoção-corpo físico.  Me reporto a  isso  refletindo  sobre  a  grande  influência  que  esses  aspectos  da  transcendência  humana exerceram em Jung, não só por ter crescido em um ambiente religioso, nem por ter vivenciado diferentes linhas de abordagem do transpessoal; mas principalmente por ter percebido que não só ele, mas a sociedade na qual vivia passavam por questionamentos gerais e por ele ter conseguido, através do processo de elaboração do Livro Vermelho, lidar com suas polaridades. Jung, enquanto realizava suas pesquisas com o inconsciente, vivenciou o período de maior tensão e questionamentos de sua existência.

É a esse aspecto que me reporto quando levanto o questionamento de que através das experiências com o inconsciente as pessoas podem aliviar parte das tensões comuns dos dias de hoje. Grande parte das desarmonias atuais, tidas como "doenças físicas", que atingem grande número de pessoas de forma muito similar, são o resultado do desequilíbrio entre interior e exterior, entre o corpo e as emoções. Esse desequilíbrio atinge as pessoas na dicotomia das polaridades e Carl Jung quando diz que a psicoterapia não pode ser trabalhada da mesma forma se incluímos a imaginação ativa no processo de individuação está se referindo a uma psicoterapia, não só para atender as necessidades diante de psicopatologias, mas para suprir uma outra demanda do ser humano, ou seja, a necessidade de integrar seus opostos e de compreender-se enquanto ser integral. A inclusão da imaginação ativa em uma sessão de psicoterapia é olhar para um indivíduo sem a dualidade inconsciente-consciente. É buscar integrar esses opostos que compõem o ser humano.

Jung vivenciou, com maior intensidade, entre 1913 e 1930, suas experiências pessoais com o inconsciente, época em que estava com 38-55 anos. Foram experiências extremas que de um lado o assustavam e o deixavam com dúvidas quanto à sua própria sanidade, de outro, entretanto, permitiram que ele superasse momentos de grandes mudanças em sua existência, tanto pessoal como coletiva. Cito apenas dois dos grandes episódios na vida de Carl Jung que ocorreram durante esse período a primeira guerra mundial e sua ruptura com Sigmund Freud. As imaginações ativas e a análise de seus sonhos o ajudaram a manter-se "equilibrado" e adaptado à sociedade na qual vivia. Porém, somente anos depois ele pode compreender melhor o que vivenciou. Talvez, hoje, possamos dar um passo mais a adiante para nos aproximarmos do equilíbrio necessário ao ser "humano". Não se trata de reproduzir as mesmas experiências de Jung, apenas de aceitar a existência de uma parte de nós, nossos inconscientes pessoal e coletivo. Conhecendo o conteúdo das experiências com o inconsciente, exposto na obra de Jung, durante as formações acadêmicas, a consciência individual de cada indivíduo certamente terá outro embasamento para conduzir conflitos e tensões 10 ou 20 anos depois.

Retornando ao processo de individuação de cada pessoa, ressalto que o contato com o inconsciente pode trazer para pessoas jovens uma nova perspectiva do ser "humano" e de si mesmas.  No início da vida adulta, normalmente, as pessoas ainda estão muito focadas em pertencer à sociedade, em serem aceitas pelos grupos nos quais convivem.  Jung cita em Memórias, sonhos e reflexões que sua decisão de se especializar em psiquiatria ao mesmo tempo que o levou, mais uma vez em sua existência, ao sentimento de estar isolado e ser "estranho" (na época, a psiquiatria era pouco valorizada dentro da medicina), também trouxe a certeza de estar unindo dois lados de sua existência. Essa união de opostos surge da aceitação do inconsciente. Em contato com o inconsciente, reconhecendo e aceitando a sombra desde o início da vida adulta, as pessoas poderiam se (auto)transformar e direcionar, conscientemente, o rumo de sua caminhada; o que, certamente, as tornariam mais leves, mais ativas e, significativamente, com menos depressão, dores na coluna, hipertensão, bornout e tantas outras "mazelas" da contemporaneidade.

O livro Vermelho "esperou" quase um século para ser publicado, e essa publicação só ocorreu mais de 50 anos após a morte de seu autor. O despertar do ser humano para o diálogo entre as vozes do inconsciente e do consciente ainda espera para ser aceito no cotidiano e, em grande parte, na prática de psicoterapia. Esse livro sobre as experiências pessoais de Carl Gustav Jung, a meu ver, tem grande valor para a contemporaneidade, se for estudado e refletido, permite que a humanidade reveja sua normoses, aceite suas polaridades e integre os diferentes aspectos de sua existência.

*Juçara Soares Schweigler, Analista Junguiana em formação pelo IJEP - BSB

Referencias

ARZT, Thomas (org.). Das Rote Buch - "C. G. Jungs Reise zum anderen Pol der Welt". Würzburg: Königshausen & Neumann, 2015

JAFFÉ, Aniela. Memórias, Sonhos e Reflexões. Freiburg. Walter Verlag Olten, 1984. JUNG, Carl Gustav. O Livro Vermelho. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2015

JUNG, Carl Gustav. Das rote Buch. 3 ed. Mannheim: Patmus, 2013


 

Newsletter

Receba as nossas notícias e novidades em seu e-mail:

Parceiros