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Relacionamento de casal e a sombra conjugal.


A motivação para o início de uma relação de par parece vir, num primeiro momento, da inter-relação e interação entre as personas dos envolvidos que se sentem atraídos mutuamente pela aparência e papéis com que cada um se apresenta. A espontaneidade, a inteligência, um olhar profundo, sedutor ou angelical, a aparência física, a proatividade, uma expressão segura ou um tímido sorriso, crenças e valores que consideram irreparáveis e imutáveis, tudo isso pode agir como um convite à aproximação inicial e ser entendido apenas como atitudes da consciência. No entanto, permeados a essas atitudes estão os conteúdos que compõem o inconsciente de cada um, formado tanto do material reprimido como do material psíquico que ainda não alcançou o limiar da consciência. Conforme comenta Jung, (2013, p. 211) a relação de par principia a partir de uma atração mútua originada pelo caráter numinoso dos arquétipos anima e animus que exercem uma forte influência na escolha do parceiro, caracterizando uma relação na esfera do inconsciente. De modo geral, os indivíduos chegam a uma união íntima sem reconhecer nem tomar para si as influências desse material psíquico e por isso olham para o parceiro como uma tábua de salvação, acreditando que poderão encontrar-se através do outro.

A relação conjugal pressupõe a convivência com opostos onde o contato diário com os conteúdos afetivos dos pares são ingredientes da dinâmica conjugal. O desconhecimento desses conteúdos, da força de atuação dos arquétipos, da sombra individual e da influência destes aspectos no processo de envolvimento do par, estabelece a condição favorável ao surgimento de uma relação simbiótica que ocorre por meio das mútuas projeções. Nesta dinâmica, os parceiros, por não conseguirem reconhecer essas expressões psíquicas como suas, dirigem-nas ao outro como se fosse do parceiro a responsabilidade em tomá-las para si. A pessoa que está dentro desse processo encontra dificuldade em manter uma relação que preze pela sua individualidade e permanece interagindo sob a influência dessas projeções. Este é um movimento mútuo e contribui para constituir a sombra conjugal.

Os conceitos de envolvente e envolvido trazidos por Jung (2013, p. 208) exemplificam muito claramente a influência dos conteúdos da sombra individual na formação da sombra conjugal, por meio das projeções. Como exemplo, podemos citar um casal que conviveu simbioticamente durante 10 anos, estando a mulher no papel de envolvente e o homem, no de envolvido. Ela não queria uma vida voltada somente para o casamento e para a família. Precisava ir mais além, expandir horizontes profissionais, sociais e culturais. Como não conseguia fazer isso por si mesma, incitava e exigia do marido atitudes mais aguerridas tanto profissional quanto socialmente. "O envolvente sempre procura espiar para fora da janela, no início talvez inconscientemente", diz Jung (2013, p. 208). O marido, tomando para si essa responsabilidade, esforçava-se, mas não conseguia realizá-la satisfatoriamente por se encontrar totalmente preso ao casamento, voltado inteiramente para o vínculo afetivo daquela união, bastante dependente, atitude que contribuía para o afastamento do envolvente. Quando a mulher percebeu, ao longo do tempo, suas projeções sobre o marido, entendeu que não poderia mais delegar ao companheiro a responsabilidade sobre si mesma. O mesmo aconteceu com o marido que, desincumbido de uma carga que não era sua, pode também reconhecer suas projeções. A partir de então ambos passaram a trilhar seu próprio caminho, reconhecendo, encarando e integrando suas próprias sombras, identificando seus núcleos afetivos, compreendendo seu funcionamento, ressignificando-os.

A sombra conjugal desse relacionamento formou-se, pois, das constantes projeções que envolveram este casal ao longo desses anos. Afirma Jung (2013, p.211), que a projeção auxilia o casal a passar de um relacionamento coletivo para um relacionamento pessoal quando mostra ao indivíduo o que existe em seu inconsciente que precisa tornar-se consciente e integrado. No caso acima, assim que os parceiros perceberam as oportunidades de integração dos opostos que projetavam no outro, conseguiram manter-se na relação sem sucumbir, puderam encontrar-se a si mesmos e desenvolver a consciência de um bom relacionamento conjugal.

O casal que aprende a compartilhar alegrias e dificuldades pode perceber com mais clareza quando ambos têm conflitos a serem compreendidos e resolvidos. Como na maioria das vezes não é isso o que acontece, os parceiros passam a reivindicar um do outro a participação na solução de seus próprios conflitos. O sofrimento gerado a partir do esforço que cada um faz em atender necessidades que não são suas é causa de angústia nos relacionamentos conjugais.

A experiência do relacionamento íntimo também possibilita a cura da cisão dos princípios masculino e feminino em cada parceiro, por meio da própria percepção dos elementos sombrios projetados. Esse processo permite a compreensão de que esses conteúdos são parte da própria psique e não da psique do outro, condição necessária à reintegração dessas partes sombreadas e projetadas, e que fará com que cada parceiro se sinta mais livre e possa estar mais pleno na relação conjugal.

As projeções das sombras individuais sempre ocorrerão, alimentando e formando a sombra conjugal, mas o importante é que cada um perceba, por meio da sua participação consciente na dinâmica do casal, a atuação de seus aspectos sombrios neste contexto. Este é um passo importante na realização da união dos opostos dentro deles próprios, porque a união do masculino com o feminino não pode se realizar enquanto, inconscientemente, projetarem uma parte de si no parceiro. É necessário que haja o casamento interno para existir o ser humano completo. Cria-se, daí, a condição para uma união conjugal mais harmônica e satisfatória.


Anisia Alencar - Psicóloga,

 Especialista em Psicologia Analítica e Psicossomática pelo IJEP. Analista em formação pelo IJEP

Contato: (61) 999880288



REFERÊNCIAS


JUNG, C.G.O desenvolvimento da personalidade.14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.


 

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