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A projeção do Self nos gurus religiosos


"Já o sentido e a finalidade da religião consistem na relação do indivíduo com Deus (cristianismo, judaísmo, islamismo) ou no caminho da redenção (budismo). Esta é a base fundamental de suas respectivas éticas que, sem a responsabilidade individual perante Deus, não passariam de moral e convenção."  C. G. Jung


            Em seus escritos, Carl G. Jung sempre prezou muito a relação do Homem com o sagrado, discutindo a diferença entre os ritos dentro das casas religiosas e a ligação com seus líderes e a relação direta do indivíduo com Deus. Esse Deus não é uma imagem antropomórfica que tem vida própria e externa, mas consiste em uma vivência psicoafetiva. As imagens são sempre aproximações e diferentes em cada um de nós. Deus contem algo misterioso que faz com que acessemos a transcendência, uma certa entrega, uma certa liberação do controle.

            "Designa-se a fé como a autêntica experiência religiosa, mas não se leva em conta que ela é, mais propriamente, um fenômeno secundário (destaque da autora) que depende de um acontecimento primeiro, em que algo nos atinge e inspira a pístis, isto é, lealdade e confiança." (JUNG, 2013, § 521). E esse acontecimento primeiro é que nos liga a Deus, esse acontecimento é interior e está em nossa psique. Quanto mais a vivência da fé é ligada a um sentido de uma doutrina confessional, maiores são as possibilidades de conflito com o saber e todo este constructo leva à restrição da "liberdade do homem perante Deus, (...) cavando a sepultura do indivíduo" (JUNG, 2013, § 522).

O discurso religioso por não querer trabalhar no simbolismo e no mitológico, como por exemplo a ressurreição de Cristo, que ainda é entendida no cristianismo de forma literal, como um reviver na carne, faz com que no mundo atual a fé fique em oposição radical com o saber. Ao criar a necessidade de intermediários a uma relação que psiquicamente é direta, surge a necessidade de um ser humano, que é visto como uma "imagem de Deus", o que dá a ele poder e que o coloca acima da capacidade de discriminação do indivíduo que o procura. Mas este homem "imagem de Deus" é humano e como tal suscetível a todos os males da caixa de Pandora.

Dentre as figuras arquetípicas que foram percebidas por Jung na composição da psique, ao Ego cabe se relacionar com todos os conteúdos conscientes incluindo a base somática. Mas, como a personalidade global não se resume à consciência, Jung propôs a existência de uma totalidade na qual o Ego sente sua estabilidade, um sentido num senso mais completo e amplo de humanidade e de transcendência, que ele chamou de Si-mesmo - expressa uma intencionalidade e uma direção. Esse arquétipo também é denominado de Self, de Deus-Interior, de imago Dei. Essa ideia é dotada de grande poder psíquico, é a imagem do sagrado imanente dentro de todos nós. Esse arquétipo pode ser projetado em vários símbolos e imagens - o Jardim do Éden, a Era Dourada do Olimpo, o Ovo Cósmico. Todas os objetos que recebem a imagem projetada do Si-mesmo adquirem grande poder.

Com este arquétipo endeusamos teorias, sistemas religiosos e políticos, pessoas como professores, médicos, analistas, mulheres, desportistas, cantores, artistas, políticos e gurus, bem como, o poder, máquinas, carros, dinheiro, entre outros conceitos e objetos. "Cabe à liberdade do homem decidir se ‘Deus é um ‘espírito ou um fenômeno da natureza, como o apego de um viciado à morfina" (JUNG, 1987, §142). Se a relação entre o arquétipo do Si-mesmo e Deus estiver inconsciente, o indivíduo corre o risco de identificar-se com o poder divino, sendo um dos conteúdos mais frequentes do delírio dizer-se que é Deus, ou Napoleão. As pessoas ligadas a profissões de ajuda, como médicos, analistas, professores, padres precisam estar atentos às projeções que outros podem fazer sobre elas, ao exigirem delas os poderes curadores "de um Deus". E é assim que podem ser compreendidas as idolatrias e idealizações como as que recentemente foram trazidas à mídia nas pessoas de João de Deus, em Abadiânia/Goiás e de Prem Baba em São Paulo.

"O lugar de origem da fé verdadeira não é a consciência e sim a experiência religiosa espontânea que estabelece um elo direto entre o sentimento da fé e sua relação com Deus" (JUNG, 2013, § 562). Na confissão religiosa em geral, o credo religioso traz uma convicção coletiva, implica numa questão social, algumas pessoas têm nesta prática um hábito rotinizado sendo mesmo indiferentes à religião. Esse aspecto coletivo, esse sujeito massificado, se fragiliza perante suas próprias idiossincrasias e especificidades, ou seja, perante ao turbilhão de forças que, em conflito, fazem nosso caminho, e, "por outro lado, aqueles que apenas recebem nunca amadurecem, tornam-se extremamente humildes e crédulos, continuando permanentemente dependentes, podendo chegar até a atitudes de submissão fanática." (MAGALDI FILHO, 2009, p.75).

A busca do autoconhecimento nos ajuda a lidar um pouco melhor como este turbilhão. Esse autoconhecimento não abrange somente o nível da consciência do eu como geralmente se entende na sociedade, mas abrange o vasto campo do inconsciente, aberto desprotegido, cheio de incertezas, do tempo de Kairós, das plenitudes que nos assaltam, bem como dos complexos que nos tomam. No entanto "as religiões quando voltadas para seu verdadeiro propósito, que é o da religação do indivíduo com o Si-mesmo, se tornam grandes sistemas de ajuda para a conquista de plenitude humana." (MAGALDI FILHO, 2009, p.95). Religião, neste sentido para Jung é "a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso" (JUNG, 1987, §9) e somente esta experiência individual é que pode nos proteger da massificação enquanto indivíduos e das mistificações e idolatrias.

 

Dra. Maura Selvaggi Soares, Médica, Especialista em Psicologia Junguiana e Analista em Formação no IJEP; mauraselva@gmail.com.

 

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. Petrópolis: Vozes, 1987.

_____ Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 2007.

_____ Presente e Futuro. Petrópolis: Vozes, 2013.

MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, Saúde e Sagrado. 2. ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2009.



 

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