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Relacionamentos Abusivos e a Violência contra Mulheres

Quando Deus expulsou Eva do Paraíso, ele a amaldiçoou: "Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será o seu marido, e ele te dominará. " (GENESIS, 3:16).


Os analgésicos livram a mulher dessa primeira parte da maldição, todavia, a segunda parte incutiu nela uma pré-disposição psíquica ao domínio do patriarcado, tornando-a, assim, presa certa de um predador chamado homem.

A fala religiosa lança a mulher a uma condição de necessária aceitação da dor, como castigo por seu pecado de induzir o homem a comer do fruto proibido, pecando, como consequência e indução. Eva foi amaldiçoada e castigada por um Deus justo e correto, que buscava a disciplina, personalidade autônoma, portanto, um complexo que não pode ser evitado, agindo de forma independente sobre a vontade feminina. Assim, seguindo os dogmas religiosos, se o mal ou o castigo nos é aplicado, pensamos que isto ocorreu por nossa culpa, logo, somos merecedoras.

Apesar da Lei Maria da Penha, que configura qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial da mulher, nos dias atuais ainda a violência contra a mulher se faz muito presente, com abusos não apenas em forma de agressões físicas, mas também emocionais, sendo, esse segundo caso, o mais difícil de ser percebido, de se libertar. Por outro lado, para que esses abusos ganhem voz e possam ser notados e denunciados, esse assunto tem sido destaque nas mídias, por meio de movimentos sociais que lutam para combater a violência contra a mulher.

O relacionamento abusivo se caracteriza quando, em benefício próprio, uma pessoa subjuga a outra, exercendo poder e controle sobre ela, desde formas sutis até violentas. Para se tornar presa ainda mais fácil e minimizar a possibilidade de denúncias, a vítima é levada a se afastar de amigos e familiares, tem sua autoestima rebaixada, vendo-se uma situação de dependência emocional do abusador.

Ciúme, possessividade, controle das decisões do parceiro, promoção do isolamento do outro, abuso sexual, violência verbal e ou física, monitoramento do celular, acesso a senhas para controle das mídias sociais, discriminações, dentre outros comportamentos, denunciam a existência de um relacionamento abusivo. O abusador recorre ao abuso como forma de eliminar problemas e irritações e, uma vez que enfraquecendo o outro, tem suas demandas supridas. Normalmente causam dor emocional e ou física às suas vítimas, se desculpam e voltam a fazer infinitas vezes mais. Os abusadores podem se mostrar descontrolados em seus impulsos, exigentes de obediência, punitivos, hostis, antissociais, agressivos, com frequente mudança de humor, agradáveis externamente, dependentes do outro, manipuladores etc.

Nesses quadros é comum as vítimas serem culpadas, pelo abusador, de merecem os castigos que lhe são aplicados e, embora sintam sua liberdade tirada, sem conseguirem enfrentar esta situação, internalizam a culpa e se sentem de fato merecedoras da punição que lhes é atribuída. Os abusadores comumente não se dão conta de seus abusos, diferente disso, colocam-se como vítimas ao invés algozes. Outros abusadores sabem que maltratam o parceiro e que são agressivos, mas não sabem porque fazem isso.

O fator cultural interfere significativamente na promoção da violência contra a mulher, inclusive, validando visível diferença no tratamento entre homens e mulheres, além de desigualdades históricas em diversos setores. O patriarcado, trazendo consigo o comportamento machista, reforça o abuso, pois faz como que muitos homens se sintam superiores às mulheres, tratando-as com inferioridade, desrespeito e subjugação.

A psique humana é superlativamente real, de forma que se ela acreditar que algo está acontecendo, tudo o que acontecer somente provará que é verdade, por exemplo, se uma pessoa acredita ser merecedora de algo ruim, tudo o que lhe acontecer de ruim somente provará que ela mereceu.

Há ainda que se considerar a influência na mulher de um complexo paterno ou animus negativo (personificação da energia masculina na psique da mulher), o que pode ser devastador para a psique, agindo com um aniquilador dos aspectos saudáveis na busca dos homens que permearão sua vida. O Animus é formado na relação mãe-filha, através do inconsciente da mãe com as imagens múltiplas do masculino ao longo da vida. Segundo Jung (2013, § 328 e 331, p. 96 e 97), "na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino e pode ser designada pelo nome de animus (...). As opiniões do animus apresentam muitas vezes o caráter de sólidas convicções, difíceis de comover, ou de princípios cuja validez é aparentemente intangível".

Uma mulher prisioneira de um animus negativo, terá em seus relacionamentos grande sofrimento, verdades absolutas, lógicas distorcidas, obstinações, exigências desmedidas, destrutividades diversas. A energia desse animus negativo, se voltada para o mundo externo, fará com que os homens fujam dessa mulher, mas, se voltada para o mundo interno, trará para elas um forte sentimento de desqualificação, aprisionando-as em angústia, insegurança, culpa e raiva. Inúmeras vezes, sem consciência do abuso ou movidas por um impulso nocivo, essas mulheres agem destrutivamente em relação a si mesmas, permitindo-se permanecer nessa situação.

Muitas mulheres se mantem numa relação abusiva, com a autoestima e a autoconfiança destruídas, sem conseguirem se libertar e isso, não raras vezes, ocorre devido sua história de vida, aprendizagens, modelos, cultura, valores aprendidos etc. A dependência emocional e financeira, é também fator de manutenção da vítima nesse modelo de relacionamento, permitindo-se ser abusada já que não se sente em condições de viver longe do abusador. Outras tantas mulheres, pela religião que seguem, tornam-se ainda reféns de casamentos abusivos, já que não é permitido a separação.

É comum encontrarmos sintomas semelhantes em mulheres que possuem relacionamentos abusivos, tais como: insônia, pesadelos, pânico, depressão, ansiedade, dentre outros. Grande é a dificuldade em denunciarem as agressões que sofrem e, quando o fazem, é porque chegaram a exaustão, sentem vergonha diante das pessoas, especialmente no ambiente familiar e medo de que as investidas se agravem mais, chegando mesmo ao extremo de mata-las.

Felizmente há alguns caminhos para a libertação de relacionamentos abusivos, uma vez que o animus de uma mulher também contém seu lado positivo, representado pelo raciocínio objetivo e discriminatório, autoafirmação, percepção e capacidade de julgamento imparcial. O Animus Positivo faz com que a mulher vá para a vida, tome decisões, utilize da razão. Quando esses conteúdos positivos são acessados e vem a à consciência, o ego se fortalece e, juntos, animus e ego, reagem contra aspectos violentos e destrutivos que permeiam aquela vida. Conhecendo-se melhor e com uma autoestima positiva, ancorada no Self, a mulher pode então integrar seu animus e interagir com um masculino positivo e saudável e, a psicoterapia junguiana pode auxiliar nesse processo, já que sua essência é a individuação - processo de criar e ampliar a consciência (propiciando que o indivíduo conheça sua Persona, reconheça sua Sombra, seus Complexos, interaja com seus Animus/Anima, etc.). Jung chama o processo de individuação como "O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial". (JUNG, 2014, § 186, p. 123).


Andreia Araujo - Analista Junguiana em Formação, Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática e Especializanda em Arteterapia pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com.


 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

_______________. Civilização em Transição. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. O Eu e o Inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

________________. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_______________. Psicologia do Inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

________________. Tipos Psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

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