A ÁRVORE: SÍMBOLO DO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO

A árvore: símbolo do processo de desenvolvimento psicológico Individuação

Na história do símbolo, a árvore é descrita como o caminho e o crescimento para o imutável e eterno, gerada pela união dos opostos e possibilitando a mesma através do seu eterno já existir. (JUNG, 2000)

 

A árvore é um grande símbolo para a humanidade. Chevalier (2016) diz que se fôssemos analisar a importância da árvore na esfera simbólica, precisaríamos de um livro só para isso. Além das simbologias da árvore em algumas tradições e do valor especial de algumas espécies para alguns povos e religiões, a árvore em si pode ser vista como símbolo do desenvolvimento psicológico e do processo de individuação.

 

Antes de falar do símbolo que a árvore é, importante lembrar que em várias culturas a árvore é símbolo sagrado, não por ser uma árvore no sentido literal, mas por representar algo que a transcende, como um deus ou algo ligado à estrutura do mundo e do universo (CIRLOT, 1984; CHEVALIER, 2016). Este artigo não tem a intenção de explorar a simbologia da árvore, ou seja, a aparição da árvore como símbolo, mitologema ou manifestação do divino, mas propor uma reflexão de como a árvore, como ser vivo, independente da espécie, é símbolo do ciclo da vida, das relações entre consciente e inconsciente e da função transcendente. Podemos dizer isso de qualquer planta na verdade, mas a árvore, por ser a que naturalmente “busca os céus” é mais simbólica nesse sentido.

 

Desde a semente, a árvore guarda em si todo o potencial do vir-a-ser. Algumas sementes, inclusive, somente “despertam” se passarem por condições como seca, fogo e até o trato digestivo de alguns animais. A árvore, nesse contexto, só começa a se tornar árvore se passar pelo processo de despertar e aquela que não encontra condições para despertar, pode nunca vir a ser, apesar de seu potencial ter sempre existido.

 

Após a germinação, a planta precisa de esforço para sair do fundo da terra, precisa sair desse inconsciente que é o solo e emergir para o ar e para a luz e, a partir daí, sua resposta ao ambiente passa a reger seu desenvolvimento. A presença de sol, de nutrientes, a competição entre as plantas, predadores e vários outros fatores influem no caminho que a árvore irá seguir rumo ao seu destino teleológico: o céu e nas formas que terá durante esse caminho.

 

Durante esse processo, será necessário que a planta desenvolva resiliência ao ambiente para poder desempenhar um papel num sistema maior. Poucas são as árvores que sobrevivem sozinhas, muitas precisam estar incluídas em um ambiente com outras árvores, inclusive de outras espécies, para que possam viver, e, em alguns casos auxiliar o ambiente ao seu redor a se tornar propício para si mesma e para os outros. Ao se livrar de folhas e de partes mortas, a árvore oferece alimento ao solo e à sua microfauna, que, por sua vez, tornam o descarte um alimento para a própria árvore e suas circunvizinhas.

 

Desde seu nascimento até a sua morte, a árvore realiza o processo de fotossíntese como processo primordial para sua vida. A partir da fotossíntese, a árvore se alimenta, transformando luz solar e sais minerais extraídos do solo em alimento para sua manutenção e crescimento. Dessa forma, ela se torna um elo entre o céu e a terra, fazendo com que elementos da natureza se combinem, gerando vida.

 

A subida das árvores ao céu é acompanhada por outro fenômeno: o aprofundamento de suas raízes. Árvores muito grandes, sem raízes profundas, estão fadadas à morte prematura. A busca das raízes por solos profundos tem duas principais razões: primeiro, a fixação da árvore ao solo, para que sua copa, mais alta e frondosa, consiga resistir às intempéries; segundo, a busca por água e alimentos em áreas mais profundas. Neste processo, as raízes muitas vezes tornam-se “espelhos” da copa, assumindo mesmos tamanho e formato ou, em alguns casos, podem ser maiores que a parte aérea da planta, o que permite que algumas espécies sobrevivam até ao fogo.

 

Outro aspecto interessante e profundamente simbólico da árvore é que sua história não é esquecida. Os anéis de crescimento do tronco registram tudo pelo que a árvore passou e, mais importante, mostram que, muitas vezes, a planta precisou se recuperar de feridas, cresceu menos em anos de seca, cresceu demais em anos de muita chuva, entre outras dificuldades.

 

A busca da árvore pelo céu é a busca da alma humana pela individuação. Não se trata de um processo com um fim em si, pois nenhuma árvore jamais encontrará o céu, mas uma teleologia. O objetivo da árvore é ascender, assim como a alma e a psique buscam a individuação. Cada árvore e cada alma fazem isso à sua maneira, no seu tempo e com as ferramentas que lhe foram oferecidas em sua concepção e encarnação. Assim como a consciência precisa emergir do inconsciente e criar um ego para seguir em frente, a planta precisa emergir, criar uma estrutura e iniciar sua busca pelo céu.

 

Chevalier (2016) descreve que a árvore é um símbolo da relação entre terra e céu. Adicionaria que a árvore (assim como a maioria das plantas) é um grande símbolo da transformação da energia em obra. Ela absorve os nutrientes da terra, ao mesmo tempo em que absorve a luz solar e os transforma em madeira, folhas, flores e frutos, unindo material e imaterial e lhes transformando em substância. Ela retira gás carbônico do ambiente e devolve oxigênio. A árvore é veículo de vida, que possibilita a existência de si mesma e de outros ao seu redor.

 

Vejo o desenvolvimento das árvores como grande símbolo do desenvolvimento psicológico. Para que a árvore possa crescer, ela precisa desenvolver-se para cima, para baixo, para dentro e para fora. A árvore não nega sua história, mas registra e se forma a partir dela. Estude os anéis de crescimento de uma árvore e você saberá por tudo que ela passou. Ela entende que precisa da sua parte subterrânea para que sua parte aérea sobreviva.

 

A psique tem desenvolvimento semelhante: busca os céus em elevação e auto realização condicionadas pelo Self desde sempre. A consciência precisa brotar do inconsciente e, ao longo de toda sua existência, crescer e buscar o céu, mas não pode deixar de enterrar seus pés na terra, sob o risco de se perder. O ego que se infla demais na superfície, sem ter raízes fortes na sua sombra, corre grande risco de colapsar sob os ventos da vida.

 

O ego saudável deve ter raízes profundas no inconsciente e ter contato com as emoções e nutrientes mais profundos. Precisa absorver conteúdos, transformando-os em alimento e crescimento da alma, sem esquecer de sua história, crescendo a partir dela.  Jung (2000) cita que a alquimia viu na árvore um símbolo da união dos opostos, Chevalier (2016) também nos traz que a árvore contém os 4 elementos (terra, água, ar e fogo); nesse sentido, a psique precisa buscar unir esses opostos e criar algo a partir deles para se realizar. Adiciona-se à esta reflexão, o fato de que a árvore também invoca o símbolo do “Y” e da cruz, em que dois se tornam um, ou ainda, que a partir da união dos opostos se cria algo novo, como na função transcendente.

 

A árvore nos traz uma simbologia muito forte da vida, dos ciclos, da obra, da relação com o meio e dos diferentes momentos pelo qual passamos. Precisamos, como a árvore, buscar sempre  nosso eu sagrado nos céus, sem esquecer de aprofundar nossas raízes e buscar nosso eu que está no inconsciente, lembrar da nossa história e das marcas que ela faz sobre nós e, a partir dela, construir novos significados. Precisamos viver a vida em suas fases como as árvores vivem as quatro estações. Há épocas que crescemos, florimos, frutificamos e repousamos, mas sempre devemos buscar crescer, aprender com o ambiente e ser este veículo de constante troca entre céu e terra, que propicia a verdadeira ampliação de consciência.

 

Mauro Angelo Soave Junior

Membro Analista em Formação pelo IJEP

Brasília  [email protected]

 

 

Referências bibliográficas

CHEVALIER, Jean G. A. Dicionário de Símbolos. José Olympio; Edição: 24ª (2016)

CIRLOT, J. E. Dicionário de Simbolos. Tradução de Rubens Eduardo Ferreira Frias. Moraes, São Paulo, 1984.

JUNG, Carl Gustav. Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (2000). Petrópolis - Ed. Vozes.

 

 

 


Mauro Angelo Soave Junior - 27/01/2020