A CONSTELAÇÃO DE COMPLEXOS DIANTE DA FOLHA DE PAPEL EM BRANCO

A constelação de complexos diante da folha de papel em branco texto

 

Estou aqui hoje, diante do papel em branco, pensando no que escrever sobre a teoria dos complexos de Carl G. Jung, afinal tenho que entregar um artigo para o IJEP. O que me vem de imediato é tudo que constelo diante desta folha em branco, primeiro as aspirações do Ego que firmemente me impõe que eu seja objetiva e acadêmica; que lembre de fundamentar as minhas questões, em no mínimo umas duas ou três citações que confirmem o que eu quero escrever; que fique atenta a gramática padrão da língua etc. Mas como o Ego não é o único complexo que me habita, os meus outros eus começam uma discussão interminável e a folha em branco vai virando um monstro épico de muitas cabeças.

Para atender ao Ego que, de acordo com a psicologia junguiana, representa o centro da consciência e é aquele que organiza nossos pensamentos, sentimentos, sentidos, intuição e controla a nossa memória, decidindo o que fica na consciência e o que deve ir para o inconsciente, é preciso fundamentar o que são complexos, então aí vai: “A constelação é um processo automático que ninguém pode deter por própria vontade. Esses conteúdos constelados são determinados complexos que possuem energia específica própria.” (JUNG 2013 p. 41) Portanto, nem mesmo o Ego pode deter uma constelação de complexo, sendo assim, diante desta folha em branco, os meus medos, ansiedades, inseguranças surgem independentes da minha vontade e se instalam.

Gosto muito da fala de Jung (2013, p. 44) quando compara os complexos a “diabretes cartesianos”, pois concordo totalmente! São diabretes, que assumem o controle e infernizam a nossa produção. Não posso negar que diante da folha em branco os meus diabretes entram em combustão, aquela lembrança da cobrança dos pais, da cobrança da professora, da falha diante da turma do colégio, da nota baixa depois de muito esforço, tudo parece confirmar a necessidade do pânico. Muitas vezes, esses conteúdos realmente nos adoecem, nos impedem de nos colocar e acabam por fazer com que a nossa escrita não exprima tudo o que realmente gostaríamos de dizer.

 Para acrescentar apresento aqui um pouquinho de um conceito da Sociolinguística, o preconceito linguístico, que é a crença de que existe uma superioridade de alguns falares em detrimento de outros e que o conhecimento e domínio da gramática padrão da Língua é sinônimo de inteligência (BAGNO p. 13 e 14), preconceito este que a meu ver interfere muito nesse nosso complexo, nessa imagem arquetípica, da divinação da palavra escrita. Afinal, ainda hoje, esta não é acessível a todos e se faz diferente da oralidade, que venhamos e convenhamos, é muito mais simples (desde que não precisemos apresentar nada, porque aí já é outro problema, outro texto e muitos outros complexos). Novamente o Ego me alerta, “você não está sendo muito acadêmica!” Ele se sente ameaçado pelos outros de mim que estão mais próximos de um desejo de passar a mensagem de que “estamos todos no mesmo barco”, não estão muito preocupados com o preciosismo, mas antes com a necessidade de expor e deixar vir à tona a mensagem, o texto livre.

Como disse acima, o texto escrito, especialmente o acadêmico, possui uma aura, uma coisa que nos retira do lugar comum e nos alça a elite dos que escrevem para transmitir conhecimentos científicos, pode algo ser mais agradável ao nosso Ego? E é exatamente por isso que nos aflige, porque muito polarizado, pensando em ser o máximo e atender as expectativas de uma sociedade que valoriza o erudito, o Ego se sente ameaçado. Pois, outras vozes se pronunciam dizendo que: ele não possui competência suficiente para isso, não domina adequadamente a norma padrão da Língua ou também de que tudo isso é uma falácia, que o que importa é passar a mensagem e o ego ameaçado contra-argumenta, “mas, e a nota? E o respeito dos seus pares acadêmicos?” Contra isso não há o que contestar, alguns trabalhos acadêmicos resultarão na aprovação, ou não, em um determinado curso que exigiu, muitas vezes, um esforço quase hercúleo para ser realizado ou proporcionará reconhecimento no ambiente de trabalho. E, é exatamente aí que o pânico é instaurado e, para se defender, o Ego congela e afirma, “não sei escrever” e opta pela zona de conforto e segurança e envia para a sombra esse “conteúdo perigoso”.

 

Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e exilados na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. De acordo com a analista junguiana Liliane Frey-Rohn, esse escuro tesouro inclui a nossa porção infantil, nossos apegos emocionais e sintomas neuróticos bem como nossos talentos e dons não-desenvolvidos. A sombra, diz ela, "mantém contato com as profundezas perdidas da alma, com a vida e a vitalidade — o superior, o universalmente humano, sim, mesmo o criativo pode ser percebido ali. (ZWEIG & ABRAMS, 2008, pág. 6)

 

Não são poucos os alunos que desistem de um curso, pois terão que apresentar trabalhos escritos, deixando assim de contribuir com o seu conhecimento, enviam para sombra a possibilidade de criação, a partir da palavra escrita. Seria possível me prolongar aqui citando os vários exemplos que nos levam a constelar complexos diante da folha em branco, mas a pergunta principal é, como superar? Como enfrentar os nossos “diabretes”? Certamente, não existe mágica. Mas, analisar nossos medos, dialogar com os complexos que nos constituem e fortalecer o Ego para que ele não tema esses diálogos, penso serem um bom caminho. Foi exatamente o que fiz aqui, para finalmente preencher esta folha em branco.

 

Andréa Alencar

Membro analista em formação pelo IJEP

Centro – Rio de Janeiro

Whatsapp – 21-98198-1942

e-mail: andrea.alencar.mel@gmail.com

 

 

Referências:

 

JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Ed 10. Petrópolis, Vozes, 2013

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico. Ed. 22. Edições Loyola, São Paulo, 1999

 

 

 

 


Andréa Alencar - 10/12/2019