A FUNÇÃO TRANSCENDENTE E O PAPEL DE SIMBOLO DO MEDIADOR DE CONFLITOS INTERPESSOAIS

A FUNÇÃO TRANSCENDENTE E O PAPEL DE SIMBOLO DO MEDIADOR DE CONFLITOS INTERPESSOAIS Psicologia Junguiana

A função psicológica e transcendente, segundo C.G. Jung, não se deve entender por algo de misterioso ou metafísico, mas essencialmente uma função matemática de números reais e fictícios, pois a função transcendente é o resultado da soma dos conteúdos da estrutura consciente e da estrutura inconsciente da psique do indivíduo.

Por função transcendente, entende-se pela união entre a capacidade de execução do pensar e do agir administrados pelo consciente e a criatividade disponível para o indivíduo pelas estruturas do inconsciente; em que, a permeabilidade do criativo determinada pelo inconsciente, que o consciente está suscetível, trará a uma não unilateralização da consciência.

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Segundo Carl Gustav Jung, o consciente e o inconsciente “raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências” (JUNG, 2012, v. 8/2, p. 13). Esse posicionamento das estruturas psíquicas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ao consciente, devido a várias razões expostas neste livro, porque os conteúdos do inconsciente permanecem nessa estrutura mantendo uma liminaridade; A consciência possui função dirigida, exercendo atuação inibitória sobre conteúdos incompatíveis, os quais ficam no inconsciente uma vez designados não harmoniosos com a consciência; A consciência está em constante adaptação, enquanto o inconsciente mantém armazenado além dos conteúdos esquecidos pessoais, os traços herdados da espécie humana; O inconsciente contém ainda conteúdos subliminares, percepções que não são suficientemente fortes a ponto de atingirem a consciência.

A natureza dirigida da consciência, que atua inibindo os conteúdos incompatíveis, traz aspectos benéficos além de sacrifícios para a vivência do homem. Isso porque, sem essa direção consciente do homem, a ciência, assim como a civilização, não seriam possíveis estabelecerem-se na humanidade, em vista de que esses serviços, pressupõem o emprego de elementos autênticos da direção determinada do processo psíquico, ou seja, a consciência persistente, regular e intencional para a competência científica fundar-se e a civilização constituir-se.

Se por um lado, exatamente a direção determinada do homem que viabiliza que  o mesmo concretize seus domínios, por outro, a exigência desse direcionamento consciente, atrai automaticamente a exclusão de elementos que possam parecer incompatíveis com a direção almejada pelo indivíduo (Cf. JUNG, 2012, v. 8/2, p.14).

Desta forma, os elementos que vão surgindo na vivência do homem que não compatibilizam com a sua direção consciente, são excluídos. Isso porque, são considerados capazes de modificar a direção preestabelecida, gerando um possível resultado indesejado. Durante essa movimentação de direção e exclusão de conteúdos, o homem que vive um processo contínuo adaptativo, tende a rever suas crenças, evoluindo e transformando-se.

Esses elementos são dados por incompatíveis, por meio de um julgamento realizado pelo ego, a partir de experiências já vividas, e assim, a consciência exclui possibilidades de enriquecimento do processo dirigido, por temer o desconhecido e, possivelmente, por estar identificada e presa a uma persona.   “Este julgamento é parcial e preconcebido, porque escolhe uma possibilidade particular, à custa de todas as outras” (JUNG, 2012, v. 8/2, p. 15). Esse julgamento, via de regra, não se baseia no novo, mas em fatos já experienciados.

Com essa atitude de julgamento, o processo dirigido da consciência torna-se essencialmente e necessariamente unilateralizado. Jung traz ainda que a unilateralidade é necessária para a veiculação do processo dirigido da consciência, em vista de que “direção implica unilateralidade” (JUNG, 2012, v. 8/2, p. 15).  Nesse aspecto, a unilateralidade é positiva, pois, viabiliza o processo. No entanto, o indivíduo unilateralizado em excesso, tenderá a tensionar a energia psíquica de oposição e os elementos então atribuídos de incompatibilidade, poderão romper a barreira entre consciente e inconsciente.

 

Para se evitar uma patologização com as unilateralidades das estruturas psíquicas, é necessário colocar em confronto com a consciência as matérias do inconsciente. A função transcendente surge, então, da soma da tendência dirigida da consciência com a tendência criativa do inconsciente, surge do próprio sistema autorregulador da psique, em que, no inconsciente é desenvolvida uma contrarreação reguladora. Para suprimir a separação entre as estruturas psíquicas, é necessário colocar em confronto com a consciência o material do inconsciente, reconhecendo-se a importância dos elementos do inconsciente para a necessária compensação da unilateralidade da consciência, possibilitando a passagem de uma atitude antiga tensionada, para uma nova atitude inclusiva, sem perda do inconsciente. A transcendência é a possibilidade orgânica dessa passagem, de forma natural e equilibrada.

No dia a dia, a vida civil exige, de uma certa forma, uma atividade mais concentrada e dirigida, o que pode levar o indivíduo a afastar-se dos conteúdos de seu inconsciente. E, quanto mais afastado o indivíduo estiver dos elementos psíquicos inconscientes, maior será a possibilidade do surgimento das tensões opostas rompendo o paradigma consciente (Cf. JUNG, 2012, v. 8/2, p. 16). A unilateralidade da consciência é o que capacita o indivíduo para que o direcione a executar com foco as ações e tarefas do dia a dia, de ordem pessoal e social. Em contrapartida a essa atividade dirigida, ocorre a criatividade, que surge da permeabilidade dos conteúdos da inconsciência para a consciência. O homem, para estar são, precisa equilibrar a criatividade e a execução focada em sua vida, não se unilateralizando pela consciência e não se deixando invadir demasiadamente por conteúdos inconscientes.  

O Poder Judiciário Brasileiro utiliza o sistema multiportas de solução de litígios, com várias possibilidades disponíveis e mais adequadas para a resolução de disputas, para que o processo judicial não seja a única porta. A importância desta construção é além da economia processual e temporal, mas o incentivo à autocomposição, à autonomia da vontade dos indivíduos, ao empoderamento pessoal, aprendizagem e também à transcendência social.

O “Operador de Conflitos” é o sujeito central dos vários sistemas adequados de resolução de dissensos, que participará, como um facilitador no diálogo entre as partes, promovendo uma organização e uma mudança das relações sociais. Este movimento de desjudicialização na solução dos conflitos organiza-se em dois sistemas: o sistema endógeno, em que as partes tratam diretamente entre si sobre as formas de solução do conflito, como nas negociações; e o sistema exógeno, em que as partes são auxiliadas por um terceiro na condução da solução dos conflitos, como acontece na mediação, na conciliação e no próprio Poder Judiciário. Nestes sistemas, os métodos de tratamento de conflitos podem ser ainda autocompositivos, em que as partes resolvem diretamente o conflito (negociação, mediação, conciliação) ou heterocompositivos em que a solução do conflito é outorgada a um terceiro (arbitragem, Poder Judiciário).

Os meios autocompositivos de conflitos retiram a adjudicação do Estado sobre o poder de decidir e fortalecem a autonomia das partes na construção da melhor solução para suas diferenças.

A mediação, então, trata-se de um processo exógeno, não adversarial e autocompositivo, em que um terceiro, não interessado, viabiliza a conversação entre duas ou mais pessoas, visando a recuperação do diálogo.

Geralmente, as pessoas não conseguem por si só atuar nas relações entre si, com essa conotação de legitimação das razões do outro, daí a necessária intervenção de um terceiro imparcial para promover essa percepção – o gestor de conflitos interpessoais.

“É espantoso constatar o quão diminuta é a capacidade das pessoas em admitir a validade do argumento dos outros, embora esta capacidade seja uma das premissas fundamentais e indispensáveis de qualquer comunidade humana. Todos os que têm em vista uma confrontação consigo próprios devem contar sempre com esta dificuldade geral.” (JUNG, 2012, v. 8/2, p. 35)

Assim, da mesma forma que ocorre a exclusão dos conteúdos inconscientes incompatíveis, pelo consciente dirigido do indivíduo, os indivíduos em suas relações, comportam-se da mesma forma. O que o homem faz com sua psique, ele também faz com o outro. Com o intuito de evitar resultados indesejados nas suas relações sociais, o indivíduo, por vezes, não valida a perspectiva do outro, por não conhecer, por receio do novo e por receio de que a sua própria razão seja incompatível ou desqualificada. Com essa atitude de julgamento, a pessoa investe-se em uma personalidade movida por uma unilateralidade de razão, surgindo conflitos em suas relações interpessoais.

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O mediador de conflitos realiza o trabalho de trazer à consciência dos indivíduos que as percepções alheias também são válidas e que proposições deslegitimadas em uma relação social, podem ser compostas por unilateralidade de razão, podendo encetar perpetuamente um conflito. O trabalho do mediador vai além da facilitação do diálogo, ele busca complexar as relações para que os indivíduos possam trazer à tona o não dito. O mediador busca trazer à consciência do indivíduo os aspectos sombrios integrados e projetados no outro, dirigindo o diálogo para que cada sujeito possa olhar para dentro de si, reconhecendo seu próprio aspecto projetado fora de si mesmo, interrompendo a projeção de sua sombra no outro. Fazendo o reconhecimento de que o outro na realidade era a representação de sua própria sombra.

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O mediador busca oportunizar a confrontação das ideias dos indivíduos, de forma que possam distinguir claramente seus pontos de vista, potencializando a compreensão de seus argumentos pelo outro, ampliando a capacidade de admitirem a validade das ideias reciprocamente, diante de novas percepções, em um ambiente em que além de suas falas, participam com suas escutas atenciosas. O papel do mediador é a facilitação da escuta das narrativas de cada parte, através de uma conversa minuciosa e exaustiva, para que possam, autonomamente e com uma atitude mais aberta racionalmente, aceitar como válido o que o outro narra e vice-versa, transformando a visão ilusória, unilateral e subjetiva inicial de cada um, em visões integradas e responsáveis.

Assim como a função transcendente surge através do papel autorregulador da psique com a soma da tendência da consciência com a tendência do inconsciente; a mediação de conflitos interpessoais, resulta na soma das versões opostas iniciais trazidas pelos indivíduos, para uma vez somadas, gerar um novo caminho dessa integração de pensamentos. A função transcendente em uma linguagem analógica jurídica, seria a reunião dos interesses das partes, suas posições e suas necessidades, materializados em um acordo com força de título executivo.

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O mediador de conflitos assume um papel simbólico para as partes, em que através dele, conseguem ouvir uma a outra, conseguem validar as proposições até então opostas, conseguem relativizar e integrar as suas ideias e condutas dentro de suas relações com o outro. O mediador de conflitos, assume uma posição em que representa simbolicamente a integridade das ideias das partes em conflito, reunindo as oposições e integrando o que estava separado.

O símbolo tem um caráter de transdução para a psique humana, associado a um instrumento utilizado para mudar a forma de expressão de qualquer tipo de energia, como se o símbolo refletisse a completude dessas energias opostas de forma relativizada. “A máquina psicológica, que transforma energia, é o símbolo.” (JUNG, 2013, v. 8/1, p. 58). O símbolo, por um lado, traz uma parte acessível à razão e, por outro, as faces ocultas do inconsciente (Cf. JUNG, 2013, v. 18/1, p.201).

Lidar com os opostos é transcender sistematicamente, é a capacidade de mudar a atitude, harmonizando com a que se opõem, diminuindo a intensidade extrema e antagônica de uma atitude com relação à outra. Transcender é integrar situações ambivalentes. O mediador é simbolizado pelas partes como aquele que relativiza e integra, aquele que une os polos. O mediador reflete a completude dessas energias opostas de forma relativizada, atua como um transdutor das energias psíquicas opostas reunindo-as, mudando a sua forma de expressão.

O mediador age simbolicamente autorregulando as relações, relativizando as histórias, legitimando os sentimentos e necessidades individuais de cada parte envolvida, validando as identidades e personalidades de cada mediando, trazendo reconhecimento da importância de cada fala e de cada postura, possibilitando a passagem de uma atitude antiga tensionada, para uma nova atitude inclusiva. Desta forma, o mediador pode despertar a função transcendente das partes envolvidas possibilitando de forma orgânica que elas passem a integrar um novo caminho, porque tiveram a possibilidade de exercitar tanto a empatia quanto a alteridade, função semelhante no processo de análise.

Tatiana Penna – Analista Junguiana em Formação pelo IJEP

Waldemar Magaldi – Analista Didata

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. A energia psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obra completa, v. 8/1).

_______. Aion Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obra completa, v. 9/2).

_______. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obra completa, v. 8/2).

_______. A vida simbólica. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obra completa, v. 18/1).

_______. O desenvolvimento da personalidade. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obra completa, v. 17).

_______. O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obra completa, v. 7/2).

_______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obra completa, v. 9/1).

_______. Psicologia do inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obra completa, v. 7/1).

LEDERACH, Jean Paul. Transformação de conflitos: teoria e prática. Tradução: Tônia Van Acker. 3. ed. São Paulo: Palas Athena, 2012.


Tatiana Penna - 10/12/2021