A GAMBIARRA COMO METÁFORA NO ENCONTRO COM A ESSÊNCIA DA ALMA BRASILEIRA

A Gambiarra como metáfora no encontro com a essência da alma brasileira Gambiarra Psicologia Junguiana

Gambiarra é um termo bem brasileiro e bastante ambíguo, que tanto pode ser bem-visto quanto malvisto, creio que a gambiarra pode servir bem como metáfora para entender as possibilidades da alma, quando os recursos para a mudança são precários e toscos. Momentos em que tudo paralisa, encalha.  Quando não conseguimos vislumbrar saídas para resolver conflitos internos, e o nível de exigência imposto pelo Ego provoca um grande sentimento de inferioridade, o novo, tão esperado, não acontece e somos invadidos pelo sentimento de incompetência e pobreza mental incapacitante.

 

Há um número grande de definições e significados para a palavra gambiarra:

 

extensão de luz; conjunto de lâmpadas montadas na ribalta (as luzes que estão localizadas, em fileira, na frente de um palco, com o intuito de iluminar o rosto dos atores, assegurar a iluminação frontal e reduzir sombras indesejáveis); improvisação; ligação fraudulenta; relação extraconjugal; precário; feio; tosco; mal-acabado. Usa-se o termo gambiarra para falar de solução improvisada, adaptações, adequações, ajustes, consertos, reparos, encaixes, emendas, remendos, inventos inteiros, engenhocas; procedimento necessário para a configuração de um objeto improvisado. Trata-se de intervenção alternativa, aquilo que é possível ser feito.

 

Pode-se falar em técnica de reapropriação material. Uma maneira de usar ou constituir artefatos através da improvisação, adaptação, ajuste, transformação ou adequação necessária, tendo em vista o recurso material disponível, com o objetivo de solucionar uma necessidade emergente e específica. Pode até ser entendida como uma forma alternativa de design: uma forma não convencional de desenvolver uma solução funcional aplicada. Na programação de computadores também o termo gambiarra é usado para definir forma paliativa e criativa de resolver um problema ou corrigir um sistema de forma ineficiente, deselegante ou incompreensível, mas que funciona.

 

Esse termo - gambiarra - pode nos ajudar a entender o campo sadio da inventividade e criatividade particular da alma brasileira. O nosso jeito de fazer alma levando em consideração a precariedade, de como nos enxergamos diante de nossas raízes e aquilo que é possível transformarmos.  Em momentos particulares da vida a gambiarra pode ser a expressão, por vezes tosca, de um pujante produto da inventividade em terreno pobre ou abandonado de nossa alma, podendo produzir protótipos que levam a novas e mais aperfeiçoadas compreensões sobre nós mesmos. É a carência gerando competência.

 

Em sua tese de doutorado com o título Fundamentos da Gambiarra, Boufler refere ser um recurso de preservação da individualidade e da recuperação de seu valor.

 

“A gambiarra ilustra a possibilidade que qualquer cidadão tem de conferir a si mesmo autonomia e independência diante de um sistema planificador “(Boufler, R. N. – Tese Doutorado: Fundamentos da Gambiarra: A improvisação utilitária contemporânea e seu contexto socio econômico FAU-USP – SP 2013)  

 

Clarice Lispector serve de inspiração quando diz: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” ... “E se me achar esquisita respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”

 

Entre nós persiste um certo mal hábito de nos compararmos com outros povos de forma negativa, achando que jamais chegaremos ao desenvolvimento na qualidade do que existe lá fora. A crença de que aquilo que vem do exterior é sempre superior ao que aqui produzimos.  

 

O analista junguiano Roberto Gambini lembra que José de Anchieta, o jesuíta catequizador, já dizia para o nossos ancestrais indígenas: "esqueça quem você é, tenha vergonha de si mesmo, largue tudo, olhe para mim e queira ser como eu".

 

Como as mulheres portuguesas não embarcaram nas caravelas que chegaram ao Brasil em 1500, os homens brancos que aqui aportaram começam a gerar filhos com as índias. A partir deste acasalamento nasce o primeiro híbrido que é o primeiro brasileiro. Esses mestiços obrigados a serem cristãos habitaram os arraiais criados pelos jesuítas e serão a proto-célula de nossa sociedade, o começo do nosso povo. O filho mestiço do branco colonizador não pode se identificar nem com o pai, nem com a mãe. Uma índia que se acasalou com um branco e foi batizada não é mais aceita em sua aldeia de origem. Nem sua língua poderá transmitir ao filho pois, independente da sua etnia, ela e seu filho falariam então o tupi, a língua geral, que se falava no Brasil, e o português. Ela não transmitiria sua religião ao filho, pois era obrigada a aceitar a do dominador. Um mestiço, mameluco e bastardo não tinha lugar na sociedade da Península Ibérica.

 

Os filhos que os portugueses geraram com as índias não poderiam seguir carreira militar, nem religiosa, nem acadêmica, nem civil, e muito menos casar-se com moças da mesma condição social de seu pai - esses filhos brasileiros seriam párias na terra paterna. Esses homens e mulheres, que não podem se identificar nem com pai nem com mãe, são nossos ancestrais. Nas palavras de Darcy Ribeiro, eles são os Zé Ninguém: “O brasilíndio como o afro-brasileiro existiam numa terra de ninguém, etnicamente falando, e é a partir dessa carência essencial, para livrar-se da ninguendade de não-índios, não-europeus e não-negros, que eles se veem forçados a criar sua própria identidade étnica: a brasileira.”

 

“Portanto a alma brasileira que se plasma a partir do contato entre duas grandes tradições é a alma do anônimo ninguém. Daquele que não sabe quem é e não pode ter uma raiz nem para o lado de cá, nem para o lado de lá, portanto um desarraigado ...A segunda matriz brasileira, aquela resultante da união entre branco e negra e todas as possíveis demais combinações - mantido evidentemente à parte o ventre branco - gerará os mestiços mulatos que sofrerão a mesma imposição existencial de não poderem saber quem são e de onde vêm. Mas de ventre branco também nasceram bastardos. À medida que negamos nossa origem ancestral, a alma ancestral brasileira se empobrece abandonando sua riqueza, importância, e profundidade advinda da síntese de duas maneiras de ser humano, a europeia e a ameríndia. É como se vivêssemos ainda na negação de um polo pela predominância de outro.” (GAMBINI, R ---)

 

Parece-me que ainda nos dias de hoje, a nossa produção intelectual, científica, cultural é contaminada pelo sentimento de ser Zé Ninguém descrito por Darcy Ribeiro. No seu livro, O povo brasileiro, ele resume a nossa formação como povo e cultura: “Eram todos filhos de ninguém. E dessa ninguendade nasceu um novo povo único sem precedentes no mundo”.

 

A gambiarra como metáfora, pode servir para representar essa síntese possível a partir da nossa visão ainda deturpada de nós mesmos. À medida que admitimos improvisar caminhos, estradas que possam integrar velhas raízes esquecidas, maltratadas, mas que trazem o vigor do que realmente somos, algo cria forma na alma. Mesmo que seja precário, tosco será o que dará força para a reapropriação do que somos de forma mais inteira e legítima.

 

Muitas vezes partes sadias da alma precisam de novos arranjos onde o antigo pode compor com o novo e propiciar uma síntese criativa.  O estilo dominante da consciência pode estar exigindo o perfeito, mas aquilo que é possível naquele exato momento da vida virá talvez pela improvisação, através das adaptações, adequações, ajustes possíveis, as gambiarras, os jeitinhos.

 

A individuação é um processo que envolve uma consciência crescente da nossa realidade psicológica única, incluindo as forças e as limitações pessoais e busca uma meta psíquica – a realização do daimon interior. Este processo depende, e muito, da relação do ego com o inconsciente e o objetivo não é a perfeição, mas a completude – considerando a capacidade e as limitações de acolhimento da consciência. Quanto mais o ego se coloca numa posição de humildade e disponibilidade às demandas inconscientes, mais contribui para o processo de individuação.

 

No livro A Prática da Psicoterapia Jung fala que na maioria dos pacientes quando lhe procuravam, ele identificava que os recursos do consciente estavam esgotados e que eles se explicavam dizendo: “Eu estou encalhado”. Este fato o obrigou a sair em busca de alternativas desconhecidas. Diz Jung: “Só sei de uma coisa: é que quando meu consciente encalha por não encontrar saídas viáveis minha alma inconsciente vai reagir a essa estagnação insuportável”. E continua dizendo: “Esse ficar estagnado é um processo psíquico. No decurso da evolução da humanidade esse fato repetiu-se incontáveis vezes, e até se tornou tema de inúmeros contos e mitos, como os que falam da chave mágica para abrir um portão trancado, ou então de um animal prestativo que vem ajudar alguém a encontrar o caminho oculto.”

 

Em outro trecho da mesma obra Jung refere que essas estagnações, que muitas vezes veem acompanhadas de desorientação, ocorrem quando a vida se tornou unilateral podendo acontecer na pessoa uma súbita perda da libido o que levaria a perda do interesse pelas suas atividades que se tornam sem sentido. Jung dá muita importância ao conteúdo dos sonhos em especial as pistas oferecidas pelos sonhos do início do processo terapêutico, sonhos esses que contêm intuições de coisas possíveis embora ainda pouco plausíveis. 

 

Fantasiar junto com o paciente é para Jung de uma importância capital. Para ele a fantasia é o poder criativo materno do espírito masculino. Diz Jung “Toda obra humana é fruto da fantasia criativa. Além disso, normalmente, a fantasia não erra, porque a sua ligação com a base instintual humana e animal é por demais profunda e íntima. Para Jung, o poder da imaginação, com sua atividade criativa, liberta o homem do “ser só isso” e o eleva ao estado lúdico. E, citando Friedrich Schiller, poeta, filósofo, médico e historiador alemão:  O homem só é totalmente homem, quando brinca”.

 

Sobre o processo terapêutico fala Jung: “O que viso é produzir algo de eficaz, é produzir um estado psíquico em que meu paciente comece a fazer experiências com o seu ser, um ser em que nada mais é definitivo nem irremediavelmente petrificado; é produzir um estado de fluidez, de transformação e de vir a ser.” Neste sentido, precisamos passar a reconhecer o povo brasileiro não como uma gambiarra advinda do processo de colonização e muito menos, dominados, negativamente, pelo complexo de vira-latas, que o saudoso Nelson Rodrigues popularizou. Porque, do ponto de vista da adaptação evolutiva e da criatividade, o vira-lata, de todas as raças de cães, é o mais saudável e inteligente.

 

Maria Celia Couto Mello, Analista em Formação do IJEP, Médica Psiquiatra.

Arkamatra - Saúde Integral  - SCLN 107, Bloco C, Sala 102 A
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Maria Celia Couto Mello - 15/09/2019