A MANIFESTAÇÃO DA SOMBRA NO SONHO: UM RECORTE ANALÍTICO DE UM CASO.

A manifestação da sombra no sonho: um recorte analítico de um caso. Psicologia junguiana

Quantas vezes não deixamos as coisas simplesmente passar? Antes de continuar a ler esse texto, reflita por alguns minutos sobre aquelas coisas que fazem parte da sua vida e que você faz um esforço danado para manter. Talvez essa lista seja grande com muitos itens, talvez essa lista seja pequena, mas com itens tão complexos que, em qualquer um dos casos, nos sentimos presos e reféns àquilo que estamos apegados.

Essa temática se apresentou no sonho que uma pessoa trouxe certa vez. Gostaria de convidar a quem lê esse texto a passear pelo processo de ampliação de alguns aspectos deste sonho, mergulhando pontualmente em elementos teóricos da psicologia junguiana. Porém, antes de continuarmos, considero importante reforçar que diversos são os elementos simbólicos e infinitas as associações possíveis. Proponho um combinado no qual permitam-me, aqui, realizar um recorte a partir da ampliação realizada pela pessoa, respeitando e resguardando elementos pessoais. Trazendo, a partir desses recortes e associações, referências e estudos teóricos da psicologia analítica.

Outro aspecto que todo analista junguiano precisa respeitar é compromisso ético com a confidencialidade do processo de análise. O que acontece do setting analítico é da relação terapeuta – analisando e ali deve-se respeitar e estar resgaurdar. Para trazer nesse texto o sonho e o recorte do processo de ampliação, foi solicitada  à pessoa em análise autorização e temos sua aprovação para publicação deste artigo.

Vamos mergulhar na teoria da psicologia junguiana sobre os sonhos. Para Jung, os sonhos são uma das vias de manifestação do inconsciente.  Através dos sonhos, temos acesso de forma indireta aos conteúdos inconscientes. São como que mensagens dentro de uma garrafa, como aquelas jogadas antigamente ao mar. O que essas mensagens querem dizer? Na maior parte das vezes, os sonhos se apresentam utilizando-se de imagens conhecidas do sonhador, ou seja, conteúdos que fazem parte da sua história pessoal. Esse material que se origina da consciência, eventualmente, pode perder energia e fazer parte do inconsciente pessoal. Os sonhos como mensagens, não são diretas, são notícias trazidas à consciência para convidá-la a entrar em contato com algum conteúdo ainda inconsciente.

“A parte inconsciente do acontecimento psíquico alcança a consciência – se a alcança – apenas por via indireta. O acontecimento que revela a existência de seu lado inconsciente está marcado por sua emotividade ou por um interesse vital que não foram reconhecidos conscientemente. (...) Contudo, o acontecimento pode manifestar seu aspecto inconsciente – e este é em geral o caso – num sonho. Mas o sonho mostra o aspecto subliminar na forma de imagem simbólica e não como pensamento racional. Foi a compreensão dos sonhos que, pela primeira, vez, nos deu oportunidade de examinar o aspecto inconsciente de acontecimentos psíquicos conscientes e de pesquisar sua natureza” (JUNG, 2017, p.203)

Um ponto interessante dos sonhos é que eles possuem uma estrutura bem marcante e nos dá indícios sobre a dinâmica psíquica da pessoa que o sonhou. Esta estrutura marcante sugeri que exista no sonho uma ideia ou intensão, porém que não são acessíveis diretamente à compreensão da consciência (JUNG, 2017). Por isso, cabe a pergunta, o que será o que inconsciente quis dizer através desse sonho?

Os sonhos são ricos em simbolismo e segundo Jung (2017)

“Chamamos de símbolo um conceito, uma figura ou um nome que nos podem ser conhecidos em si, mas cujo conteúdo, emprego ou serventia são específicos ou estranhos, indicando um sentido oculto, obscuro e desconhecido" (p. 201).

Um conteúdo simbólico significa algo mais do que indica ou expressa. Ou seja, utilizamos a linguagem racional descritiva e discriminatória da consciência na tentativa de englobar um símbolo. Utilizamos associações, sejam de palavras ou imagens, na tentativa de explicar um símbolo, porém nele haverá sempre um aspecto inconsciente que nunca o deixará ser definido com exatidão. Algo que em si sempre trará consigo um aspecto desconhecido, não cabendo no logos a sua total compreensão.

Então, se sonhos são ricos em símbolos que nos trazem mensagens do inconsciente, cabe a nós exercitarmos a reflexão, trazendo associações e conteúdos da história pessoal do sonhador, em um primeiro momento, para que possamos integrar esse conteúdo simbólico à consciência. Nas palavras de Jung (2017),

“é característico do comportamento dos sonhos preferir uma linguagem plástica e clara em contrapartida a expressões pálidas e prementemente racionais. Poderíamos chamar essa imagem onírica de simbólica, uma vez que apresenta a situação não diretamente, mas num rodeio sobre uma metáfora concreta e comum que, à primeira vista, não foi compreensível”. (p. 222)

Mas, como o próprio Jung sugere no processo de interpretação dos sonhos, precisamos nos ater ao conteúdo trazido no sonho e as associações do sonhador. Então... voltemos ao sonho.

Ao invés de fazer a referência como “a pessoa que sonhou” ou “o sujeito do sonho”, vamos chamá-la de Ana. Ana trouxe o seguinte sonho: sonhou que como rotina, corria todo dia do mesmo lado da rua e que toda vez era pega por um homem. Em um determinado momento do sonho, decidiu mudar de calçada e passou a fazer sua corrida do outro lado da rua. Nessa nova rotina, deixou de ser pega por aquele homem, porém, ao chegar em uma curva, era pega por um outro. A rotina se repete até que em um determinado momento do sonho, se questiona “e se eu parar de correr?”. Decidiu parar, um pouco antes da esquina onde era pega pelo segundo homem e, na repetição da rotina, parada, vê o homem passar e não é mais pega.

Existem diversos elementos interessantes a serem ampliados nesse sonho, porém, para discussão nesse artigo, vamos focar na repetição do elemento masculino (dois homens) e no movimento de parar e, a partir deles, conversaremos sobre a visão Junguiana do sonho, sombra e complexos afetivos.

Ana é uma mulher e, como contraponto, dois elementos masculinos se apresentam no sonho, pegando-a. Essas foram as palavras trazidas por Ana ao narrar o sonho e, novamente, reforçamos que aqui é apenas um pedaço de múltiplas possibilidades de ampliação e considerando, também, o recorte do processo terapêutico de Ana.

Na tentativa de testar hipóteses sobre esse elemento masculino, podemos considerar que “a psicologia onírica nos mostra, com toda a clareza, que os complexos aparecem em forma personificada, quando são reprimidos por uma consciência inibidora” (JUNG, 2018 p.45). O primeiro passo foi buscar com Ana quem seriam esses homens, se eles remeteriam alguém de sua história pessoal. Ana não trouxe nenhuma pessoa diretamente. No sonho, Ana não se recordava ou conseguia atribuir formas, como rosto ou outras características além de serem homens. A ausência de uma personificação no sonho, nos levou na direção de entendermos o elemento masculino em si e, ao refletir sobre o que representariam esses dois homens, Ana trouxe as palavras de ação, controle e poder. Para a psicologia analítica, uma das funções do sonho é trazer para a consciência elementos que estão na sombra. Considerando o processo terapêutico de Ana, parece que estamos diante de aspectos sombrios.

A sombra faz parte da estrutura psíquica de todos nós. Enquanto um aspecto encontra-se iluminado na consciência, inevitavelmente, seu par de oposto vive na sombria no inconsciente. James Hall (2007) traz uma explicação muito interessante sobre o par ego-sombra.

Falando primeiro sobre o ego, essa estrutura central da consciência tem sua identidade formada desde cedo na relação mãe-filho(a). Depois, à medida que a criança vai crescendo e ampliando suas relações dentro da família e expandindo-se para incluir-se na cultura e sociedade como um todo. Nesse processo de formação do ego, algumas tendências inatas são aceitas pela mãe, família e sociedade. Outras não, sendo negativamente valorizadas, portanto rejeitadas. Aqui nasce a constituição da sombra, a partir do ego. Nas palavras de Hall (2007)

“Como o conteúdo ou as qualidades da sombra eram potencialmente parte do ego em desenvolvimento, continuam comportando um sentido de identidade pessoal, mas de uma espécie rejeitada ou inaceitável e usualmente associada a sentimentos de culpa. (p. 20)

Interessante ressaltar alguns pontos trazidos por James Hall salienta, primeiro, a sombra é uma parte dissociada do ego. Poderíamos dizer que na sombra constam característica do ego que não vieram a ser parte integradas à consciência.

A dissociação dessas características do ego são potencialidades rejeitadas. Aqui tem um entendimento teórico diferente, por exemplo, entre Jung e Freud. Freud entende que o inconsciente em sua totalidade é constituído a partir da consciência e composto por conteúdos reprimidos, negativos e recalcados. Para Jung, existem conteúdos reprimidos de forma negativa, porém esses são apenas uma parte do aspecto da sombra que é uma parte da estrutura do inconsciente.

Pensa comigo... imagina se os pais de Mozart tivessem falado para ele algo do tipo “menino, larga esse piano, isso não dá futuro para ninguém não! Vai vender bananas no mercado da cidade que isso sim é digno e faz você sobreviver na vida!”. Grande chance de Mozart, culpado por não estar vendendo bananas, deixaria de praticar piano e toda a sua potencialidade artística e criativa não teriam agraciado ao mundo. A potencialidade de ser pianista estaria na sombra de Mozart e, provavelmente, ele dedicaria um esforço de vontade muito grande para vir a ser um comerciante. Aproveito e te convido para refletir: quais potencialidades foram ativamente rejeitadas à sombra e você continua vendendo bananas?! Talvez você não tenha se dado conta do esforço que é ser você por ativamente rejeitar qualidades que nunca puderam vir a ser do seu ego.

E James Hall ainda lembra que a função da sombra é reivindicar por ser vivida. Você acha mesmo que um conteúdo rejeitado com forte carga emocional não iria convidar a consciência para se haver com ela? Assim, Hall (2007) sugere uma forma de ir ao encontro da sombra quando fala que

“Uma vez que a sombra foi dinamicamente dissociada da identidade do ego dominante no decorrer do desenvolvimento inicial, seu possível retorno para reclamar uma parcela de vida consciente provoca ansiedade. Grande parte do trabalho da rotina da psicoterapia e da análise consiste em criar um lugar onde seja seguro reexaminar o conteúdo da sombra e possivelmente integrar muito do que antes fora descartado pela divisão (splitting) inicial, na formação do ego.” (HALL, 2007, p. 20)

A manifestação da sombra através do sonho de Ana, nos permite mergulhar ainda mais em sua dinâmica psíquica e, no processo terapêutico, percebermos que estamos diante de um complexo. Os elementos masculinos no sonho de Ana despertam um desconforto e fica evidente o caráter perturbador de um complexo à consciência. Para Jung (2018), descrevendo o conceito de complexos afetivos a partir do ponto de vista da consciência, sinaliza sobre a carga perturbadora de um complexo para a consciência e como esta busca resistir às manifestações dos complexos devido ao desconforto e temor que esta carga psíquica causa no valor da vontade e intenção da consciência.

Podemos identificar, através das associações feitas por Ana, a manifestação de um completo com princípio masculino negativo, que a leva para uma rigidez, excesso de controle e, principalmente, uma expressão de agressividade, principalmente, no modo de se comunicar e se colocar no mundo.

Resgatando o sonho, existem tomadas de decisões e escolhas da sonhadora que as tiram dessa repetição de ser pega pelo masculino. Trazendo um pouco de contexto, Ana vinha por um processo de revisitar sua persona e o sonho indica um caminho que traduz de forma muito clara a dinâmica psíquica daquele momento. Ana para. A partir da tomada de consciência daquelas manifestações negativas do aspecto masculino, através de um processo de projeção pela forma de comunicação de outras pessoas, ela consegue trazer para si e identificar nela mesma essa forma. É a partir dessa apropriação que ela para e começa a ressignificar esses aspectos.

E aqui retomamos a ideia inicial do texto. Onde estamos dedicando energia? O que estamos repetindo e ativamente nos esforçando para manter a estrutura do ego rígida a de forma ilusória e onipresente da dinâmica psíquica? No caso desse sonho, para Ana, parar e deixar passar era o momento que o inconsciente sinalizava como a saída do conflito psíquico. Movimento que ativamente o ego se esforçava ao contrário.

Pode até parecer um contrassenso, mas a não ação é uma ação de espera. No caso desta sonhadora, o conteúdo do sonho parece simples e claro: pare e deixe passar. O uso da palavra simples é uma ironia porque considerando a dinâmica psíquica a partir da psicologia análitica, dialogar com o conteúdo oferecido pelo inconsciente é um exercício duro de conscientização do ego e aceitação das diversas vozes que falam em nós. Mas essa já é outra história, ou melhor, outro sonho.

 

Bia Mello - Analista em Formação pelo IJEP

Didata Responsável: Maria Cristina Mariante Guarnieri

 

Bibliografia

HALL, J. A., 2007, Jung e a Interpretação dos Sonhos. São Paulo: Cultrix.

JUNG, C.G. 2007, A Vida Simbólica. Petrópolis: Editora Vozes.

JUNG, C.G., 2018, A Natureza da Psique. Petrópolis: Editora Vozes.


Bia Mello - 30/06/2021