A NEGAçãO DO AMOR ROMâNTICO, NO MUNDO MODERNO, ESTá ASSEGURADA APENAS PELA SUPERFíCIE DA CONSCIêNCIA

A negação do amor romântico, no mundo moderno, está assegurada apenas pela superfície da consciência

"Apesar de todas as asserções indignadas em contrário, a verdade é que o amor, com todos os seus problemas e conflitos, tem um significado fundamental na vida humana" (Jung)

 

 

O conceito de amor romântico é delegado ao movimento artístico, político e filosófico que surgiu na Europa nas últimas décadas do século XVIII e se firmou por boa parte do século XIX. O movimento romântico consolidou o amor entre homens e mulheres como forma de realização do próprio eu. Contudo, os casais aos moldes do amor romântico, já existiam bem antes do Romantismo.

Os mitos gregos já apresentavam algumas características do que seria posteriormente apresentado pelos Românticos. Por exemplo, a passionalidade do amor entre Eros e Psiquê, Hades e Persefone, dentre outros. Da mesma forma também é possível identificar casais românticos na Bíblia com, Isaque e Rebeca que se apaixonam à primeira vista, existe manifestação mais romântica do que amor à primeira vista? Com José e Maria, o amor que tudo aceita e perdoa:  José não apenas aceitou a história de Maria sobre a concepção divina, como assumiu a responsabilidade pelo filho, e a protegeu em todo o processo da gravidez. Juntos, o casal conseguiu transpor as barreiras sociais da época.

O amor cortês surgido na Idade Média ressalta a corte a mulher amada, a idolatria e por que não dizer a projeção? Ou seja, o conceito pode ter sido cunhado e consolidado pelos românticos, mas a verdade é que a representação do amor à primeira vista, do amor incondicional entre casais, do cortejar existe desde que o mundo é mundo e os papéis de homens e mulheres sempre foram complementares nessa representação.

O conceito surge da diferença, da complementaridade, busco em você o que não tenho em mim, a metade que me falta. Contudo, hoje, no mundo moderno o que se defende é que não preciso do outro para me sentir completo, o que não é de todo ruim, porque não posso querer me realizar no outro, mas essa é a grande confusão, o amor romântico não defende que eu me realize no outro, mas antes que ambos se realizem no uno e que sim, possam exercitar no outro o que nos é diferente, mas que já existe em nós.

Segundo Jung, arquétipos são conjuntos de imagens primordiais originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo, portanto não seria equivocado afirmar, diante do exposto, na citação abaixo, que o amor romântico é arquetípico, vem se repetindo mesmo antes de ser cunhado pelos românticos.

 "O que dizer dos eventos mais corriqueiros, das
realidades mais imediatas e mais próximas de nós, como o marido, a mulher, o
pai, a mãe, os filhos? Os fatos mais comuns da vida quotidiana, que se repetem
eternamente, produzem os arquétipos mais poderosos, cuja a atividade incessante
é imediatamente reconhecível em toda a parte, mesmo em nossa época
racionalista" (Energia da Psique p. 101).

  Veja que o amor romântico, tratado aqui, não tem relação direta com casamento, compromisso ou qualquer outra convenção, já que nesses estariam selados acordos e compromissos, o que iria contra ao preconizado pelo Romantismo que inclusive defende o amor idealizado, da admiração distante, e não necessariamente a consumação.

No mundo contemporâneo, tanto homens como mulheres vêm negando e desconstruindo o amor romântico, até mesmo ridicularizando os sentimentos relacionados ao tema, contudo esse negar e questionar vem apresentando o outro lado da moeda, a sombra, as relações vazias e sem sentido, as agressões e consequentemente o adoecimento individual e social do masculino e do feminino.

As mulheres feridas pelo patriarcado e desconfiadas passam a não crença, até mesmo a ridicularizar a necessidade do outro, contudo a sedução é inevitável e surge o que Neumann coloca como o sentimento de "a vergonha imperdoável de ter sido seduzida pelo masculino (...) Para essa mácula, no matriarcado só há uma resposta: matar e castrar o macho." ( p. 94, 2017) Por outro lado, o homem agora acuado e se sentindo ameaçado, assume o papel de ogro ressentido e abandona o papel de príncipe encantado, o que salva, cuida e ama para aquele que agride, explora e mata.

Ou seja, mulher ferida, mas ao mesmo tempo seduzida pelo animus o projeta em sua vida, entendendo que para ser bem-sucedida não pode ter sentimentos tolos, sensibilidade, ela se basta e não existem príncipes, ela não precisa da corte, de que ninguém puxe a cadeira para ela sentar. Por outro lado, o homem acuado e temeroso da perda do poder do patriarcado, reage, agride e nega a anima, não sente mais, não se sensibiliza, não ama o feminino em si, e a projeção se torna negativa.

Portanto, a negação da necessidade do amor romântico jogou fora a gentileza, a cortesia, o tratar bem, mas isso ocorre apenas na base da consciência, pois inconscientemente as artes estão aí para nos provar que não adianta fugir deste forte arquétipo.

Para provar isso basta elencar os filmes e livros que fazem sucesso e são vistos e revistos por décadas, tanto por homens, quanto por mulheres. O estrondoso sucesso de Titanic é um bom exemplo, a história do trágico naufrágio, filmada algumas vezes, só teve impacto e sensibilizou um público recorde, quando a discussão girou em torno da realização do amor romântico, trágico, mas realizado. Os sucessos de livros como Crepúsculo e 50 tons de cinza, não é possível desconsiderar um número tão grande de leitoras.

Sendo assim, não adianta negar que essa idealização de amor é fundamental para a vida plena e como afirma Jung (2005), "O amor aparece empiricamente como a força do destino par excellence, seja manifestando-se como baixa concupiscência ou como afeição espiritual. Ele é um dos mais poderosos motores das coisas humanas.".

 

Andréa Alencar

Membro analista em formação

Contato: andrea.alencar.mel@gmail.com

Referências

 

JUNG, C. G. Psicologia do inconsciente. Vozes, 2014

_________. Sobre o amor. Ideias e letras, 2005

NEUMANN, Eric. Eros e Psiquê. Cultrix, 2017


Andréa Alencar - 17/07/2019