A PRÁTICA DA PSICOLOGIA ANALÍTICA E O SACRAMENTO DA CONFISSÃO

A prática da psicologia analítica e o sacramento da confissão psicologia analítica confissão

A ideia inicial deste artigo surgiu em um atendimento na clínica, quando uma paciente, que havia iniciado o processo de análise há poucos meses, fez um comentário de que tinha dificuldades para se lembrar do meu primeiro nome.  Conversamos sobre esta dificuldade, sobre os nossos encontros nas sessões de terapia e a paciente os relacionou a experiencia de entrar em um confessionário. Entrar no consultório nas sessões iniciais a remetia a experiência de ir à Igreja se confessar.  Este comentário me fez refletir sobre o processo de análise, o papel do analista e se, em fase inicial do processo, podem remeter a mesma experiência de estar frente a frente com um sacerdote em seu ofício de ouvir a confissão.

 Quando se chega a uma igreja para o sacramento da confissão, a identidade do padre está oculta e apenas sua sombra aparece através das treliças do confessionário. Seu nome não é importante neste momento, mas sim o papel que lhe foi confiado, o de escutar a consciência culpada, deixar o “ego pecador” se expressar em busca da absolvição, do perdão dos pecados. Através da penitência que será imposta pelo sacerdote os pecados serão perdoados, a culpa será aplacada, a consciência se sentirá aliviada. Já no processo psicoterapêutico, quando a porta do consultório é fechada e a comunicação entre o paciente e o analista se inicia, através de palavras ou qualquer outra forma de expressão, uma análise tem seu início em outros termos. Há um convite para a confissão do paciente, para a expressão de tudo aquilo que até então estava guardado apenas para si, que poderá ser compartilhado com o analista. Mas ao contrário do sacerdote que está concentrado nas declarações conscientes do pecador, o analista procura ouvir também as manifestações do inconsciente: os sonhos, as imagens, os silêncios. Além disso, diferentemente do papel do sacerdote, o do analista não é absolver, nem curar, mas sim implicar o paciente na relação com seus sintomas e sofrimento.

Estas reflexões foram o ponto de partida para este artigo, que tem como objetivo entender como se dá a fase da confissão na análise, descrita por Jung como a primeira etapa do processo analítico (JUNG 2013, pg. 68).

É importante ressaltar, no entanto, que Jung, ao nomear esta primeira fase como confissão, estabelece apenas uma analogia, uma metáfora para explicar o que se passa no processo analítico, ampliando os sentidos dados à confissão numa perspectiva psicológica. Uma segunda ressalva que deve ser feita é que Jung não deixou em sua obra um método ou técnica, no sentido estrito desses termos, a serem seguidos no processo da análise, mas etapas que se sobrepõem e que descrevem como o processo de análise transcorre, psicodinamicamente. Ele compartilhou os fundamentos e princípios que o orientavam em sua prática, não como um manual a ser seguido, mas sim como direcionador do que chamou de ““the crucial experience” de qualquer análise razoavelmente completa” (JUNG, 2013 pg. 8).

Na Prática da Psicoterapia, Jung (idem, pg.68) coloca que “as origens de qualquer tratamento analítico da alma estão no modelo do Sacramento da Confissão”. Isso ocorre porque a ideia de pecado fala de um segredo, de algo não dito, talvez oculto, inclusive, da própria pessoa que o possui.

Von Franz (1997, pg.59) explica que o” primeiro estágio, a confissão, tem como princípio as práticas confessionais de quase todas as religiões de mistério da Antiguidade.”  Continua, dizendo que através deste estágio o paciente toma consciência de tudo o que está oculto, reprimido, carregado de culpa.  (Idem, pg. 59).

Jung (2013, pg.71) diz que “qualquer segredo pessoal atua como pecado ou culpa, independentemente de ser considerado assim ou não, do ponto de vista da moral convencional.”  Continua, dizendo que “outra forma de ocultar é conter. E o que geralmente é contido é aquilo que afeta (os afetos).” Para Jung, “segredo e contenção são danos aos quais a natureza reage, finalmente, por meio da doença”. (idem, pg. 71, parágrafo 132). É como uma punição para aqueles que não confessam sua falibilidade enquanto seres humanos.

Podemos entender, então, que esta fase não se confunde com os sentidos da confissão no sentido religioso. Trata-se de fazer contato com o que está guardado, aprisionado, com tudo que está contido, mas não para ter uma absolvição externa vinda de uma autoridade espiritual, e sim, para estabelecer um diálogo metafórico orientado para uma postura ética do paciente. Nesta fase deve-se deixar emergir pensamentos e sentimentos, de modo que o paciente possa expressar para o analista e para si mesmo o que até então estava oculto até dele próprio.

O processo da análise permite, através da confissão, a catarse, a purificação, na qual o doente é “transferido ao fundo mais profundo de sua consciência” (Jung, idem, pg.72). Jung complementa, ainda, dizendo que:

“o método catártico visa a confissão completa, isto é, não só à constatação intelectual dos fatos pela mente, mas também à liberação dos afetos contidos: à constatação dos fatos pelo coração.” (JUNG, 2013, pg. 73)

Jung resume esta etapa com um ditado trazido dos mistérios antigos: “soltas o que tem e será acolhido”. (JUNG, 2013, pg. 72). É como se guardar um segredo criasse um abismo que separa o paciente dos seus semelhantes e que, ao confessá-lo, uma ponte é criada para trazê-lo de volta ao seu convívio. Entregar-se a confissão, tomar contato com o que emerge do inconsciente é uma primeira etapa para a mudança da atitude consciente.

Na psicologia analítica isso se dá porque

“a cura não ocorre por sugestão ou influência positiva do terapeuta, mas por uma solução dinâmica dos conflitos inconscientes, que se dá trazendo à consciência sentimentos, pensamentos e impulsos que ficaram afastados da consciência” (HOPCKE, 2012, pg. 67).

A escuta e o acolhimento são fundamentais para o analista nesta primeira etapa, onde se inicia o contato do paciente com a sua sombra. O analista deve lidar com esta etapa com a mesma reverência que o sacerdote aplica o Sacramento da confissão. O contato com o sombrio pode ser amedrontador para o paciente e a resistência pode aparecer, levando o paciente a interromper o processo. O papel do analista é acompanhá-lo nesta jornada, implicá-lo em relação a sua responsabilidade e participação na análise.

Porém, conforme explica Jung, apenas a catarse não cura. Diferente da confissão na Igreja, que estabelece o perdão dos pecados, a confissão na análise abre caminho para que as próximas etapas do processo, que são entendimento, educação e transformação, se iniciem.

Muito importante nesta etapa é não cair na armadilha de ficar preso nas lembranças, de utilizá-las como justificativas para todo sofrimento. As reminiscências são importantes, mas a ênfase do processo deve estar na mudança de atitude consciente a partir de uma implicação ética em relação aos sintomas.

Está implícito que o setting terapêutico deve ser encarado metaforicamente como um lugar sagrado, onde os segredos podem ser ditos em voz alta e estão protegidos pelo sigilo de um pacto terapêutico. Esta condição estabelece uma relação de confiança com o paciente e fortalece o vínculo para que as próximas etapas da análise possam ocorrer, o que será tema de um artigo subsequente a este.

 

Leila Cristina Montanha

Analista Junguiana em Formação

Telefone: 98596-8335 (SP. Aclimação)

 

Referências

FRANZ, Marie-Louise. C.G. Jung, Seu Mito em Nossa Época. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997

HOPCKE, Robert H. Guia para a Obra Completa de C.G. Jung. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012

JUNG, C. G., A Prática da Psicoterapia, Petrópolis, ed. Vozes, 2013

SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-Junguianos, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1989

http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1420-1532_po.html

 


Leila Cristina Montanha - 30/01/2020