A PSICOLOGIA ANALÍTICA NO TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA.

A Psicologia Analítica no tratamento da Dependência Química. Dependência Química

O Relatório Mundial sobre Drogas (2020), divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), revelou que em 2018 cerca de 269 milhões de pessoas usaram drogas ilícitas no mundo, um aumento de 30% em comparação com 2009. Este estudo também mostrou que mais de 35 milhões de pessoas sofreram de transtornos associados ao uso de drogas. O estudo apontou os grupos mais vulneráveis e marginalizados, compostos de jovens, mulheres e as camadas mais pobres da sociedade, o que foi agravado pela pandemia da COVID-19 e pela retração econômica mundial, que afeta sobremaneira os sistemas de saúde, levando-os à beira do colapso. As sociedades lutam para lidar com esse problema, mas o progresso é pequeno, e o problema persiste e se amplia continuamente (UNDOC, 2020).

Não menos grave é o uso abusivo de álcool, uma droga lícita, tão ou mais danosa que as ilícitas. Relatório de 2018, divulgado pela World Health Organization – WHO (Organização Mundial da Saúde - OMS), apontou que mais de 3 milhões de pessoas morreram em todo o mundo em 2017, como resultado do consumo excessivo de álcool, e que cerca de 237 milhões de homens e 46 milhões de mulheres sofriam de transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool. Também foi descoberto que mais de um quarto de todos os jovens entre 15 e 19 anos são bebedores usuais. Somente no Brasil estima-se que cerca de 3% da população adulta acima de 15 anos faz uso crônico de álcool (WHO, 2018). Dados recentes publicados no jornal Folha de São Paulo, em 04 de agosto de 2021, apontaram o agravamento das consequências do alcoolismo devido à pandemia em nosso país: “A cidade de São Paulo registrou no primeiro ano de pandemia de Covid-19 um aumento de 156,3% de mortes por transtornos mentais ou comportamentais causados pelo uso de álcool. No Estado de São Paulo, o salto foi de 64,5% e no país, de 18,4%”.

O que é dependência química, também denominada adicção, palavra de origem latina (addictus - vinculado ao seu credor como devedor insolvável, submisso, escravizado)? Segundo a WHO, trata-se de um “estado físico/psíquico resultante da interação entre um organismo vivo e uma substância psicoativa, caracterizado por modificações de comportamento e outras reações que sempre incluem o impulso a utilizar a substância de modo contínuo ou periódico”. De acordo com a Classificação Internacional das Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID – 10), a Dependência Química de Substâncias Psicoativas é uma doença caracterizada por: a) Compulsão para o consumo; b) Dificuldade em controlar comportamento de consumo; c) Síndrome de abstinência quando o uso é interrompido; d) Aumento da tolerância ao uso; e) Abandono progressivo de prazeres ou interesses alternativos em favor do uso da substância psicoativa; f) Persistência no uso da substância, mesmo compreendendo que é nociva. A dependência química é uma síndrome, um conjunto de sintomas que definem um determinado estado clínico associado a problemas de saúde, que nem sempre tem as causas bem definidas. É uma doença multifatorial, complexa em sua essência, para a qual contribuem fatores biológicos, sociais, ambientais, psicológicos.

No epicentro desse drama, situa-se um personagem solitário, o dependente químico. Por que lhe é tão difícil abandonar esse caminho? Como se pode ajudá-lo? Não há respostas simples. Por ser uma doença complexa, os tratamentos mais efetivos, oferecidos pelos sistemas de saúde, atualmente, utilizam diversas abordagens, oferecendo apoio psiquiátrico, médico, social, legal, psicológico, pois entendem o dependente como um ser com múltiplas necessidades. Nesse contexto, a Psicologia performa um dos papeis centrais, sendo a terapia cognitivo-comportamental (TCC) a que mais tem sido utilizada. As TCCs ganharam força no final dos anos 60, principalmente devido ao aumento da insatisfação no meio médico e psicológico, com os resultados obtidos com o modelo psicanalítico. As terapias cognitivo-comportamentais têm sido apontadas como mais eficazes do que outras abordagens terapêuticas no tratamento de transtornos por uso de substâncias e se apoiam em três linhas teóricas: terapias de construção cognitiva, resolução de problemas e treinamento de habilidades. A premissa básica das TCCs é a de que os processos internos de pensamento (cognição) influenciam as emoções e comportamentos de uma pessoa. Um mesmo evento interpretado por diferentes indivíduos apresenta nuances diversas, podendo ser agradável, hostil ou ameaçador, o que leva a distintos comportamentos. O eixo central dessa linha terapêutica é que a atividade cognitiva pode ser identificada e acessada, mesmo que o indivíduo que a manifesta não esteja consciente dela. A mudança terapêutica ocorre por meio de mudança no modo de se pensar, sejam idiossincráticos, sejam disfuncionais, possibilitando mudanças na atividade cognitiva, influenciando sentimentos e comportamentos (ZANELATO e LARANJEIRA, 2013).

 As TCCs tratam o dependente químico a nível consciente, induzindo-o a mudanças de padrão comportamental, treinando suas respostas a situações cotidianas, relacionadas ao uso de substâncias, como é o caso da “terapia da prevenção de recaídas”: uma abordagem cognitivo-comportamental que visa manter a abstinência em dependentes químicos que estão comprometidos em alterar seus comportamentos, através do treinamento intensivo em mudanças de hábitos, evitando situações de risco, e buscando alternativas que sejam protetoras do uso de drogas, prevenindo, assim, lapsos e recaídas. Entretanto, apesar dos resultados relativamente favoráveis das abordagens TCCs, o percentual de recuperações estáveis ainda está longe de atender a maioria dos adictos, seja para álcool, seja para outras drogas, o que nos leva a um olhar preocupante para o problema. A grande maioria dos dependentes está intrinsecamente ligada às substâncias de preferência, que o acompanharão pela vida. Esse fato suscita considerar que o problema é maior do que simplesmente retreinar habilidades e comportamentos, pois as possíveis causas vêm do fundo da “alma”, não sendo, portanto, unicamente de origem consciente. Qual então, é o papel da psicologia profunda nesse contexto? Em uma carta de 1961 a William G. Wilson, fundador do movimento AA (Alcoólicos Anônimos), Jung deixou uma mensagem rica de significados sobre a abordagem analítica para os dependentes, baseado em suas experiências clínicas com pacientes usuários de drogas:

O que eu realmente concluí de seu caso (referindo-se a seu paciente alcoolista Roland H.) foi o resultado de minhas inúmeras experiências com casos semelhantes... Sua fixação ao álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela união com Deus...O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade, e ela só poderá lhe acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão numinosa. Estou firmemente convencido de que o princípio do mal que prevalece no mundo conduz às necessidades espirituais que, quando negadas, levam à perdição se ele não é contrabalanceado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras das comunidades humanas. “Alcohol” em latim significa “espírito”; no entanto, usamos a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos. A receita então é “spiritus” contra “spiritum”. (JUNG, 1961).

 

A obra junguina traz poucas menções sobre a adicção, mas percebe-se uma visão religiosa de Jung sobre a recuperação da dependência, na qual o caminho a ser seguido pelo adicto é o da espiritualização, a união com nossa “imago dei, a individuação que leva à totalidade de nosso ser. Sem essa religação o dependente avançará rumo a um progressivo encolhimento da consciência e deterioração de sua personalidade. O que necessita é uma experiencia religiosa real, transcendente, que amplie sua consciência e o aproxime do Self, semelhante ao êxtase numinoso de Paulo de Tarso em seu caminho a Damasco. Não é uma tarefa fácil de se fazer para a maioria das pessoas, muito menos para adictos, que têm dificuldades egóicas que limitam sua visão de mundo e de seus próprios problemas.

Apesar do respeito que tenho pela vertente cognitivo comportamental no tratamento da dependência, que pessoalmente utilizei como voluntário em comunidades terapêuticas, é a psicologia profunda que mostra o caminho para o Self, a busca da inteireza e a ampliação da consciência, que visam a reestruturação do ego fragmentado característico dos dependentes, imprescindível para a individuação e sua recuperação. Nesse contexto, um dos exemplos de uso da psicologia analítica no tratamento da dependência é o do Prof. Dartiu Xavier da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), analista junguiano e psiquiatra, autor de várias obras sobre o tema, que integra, em seu trabalho terapêutico, abordagens médicas e da psicologia profunda. Respeitosamente, me permito ir mais além, propondo que a terapia de recuperação deve usar uma abordagem transdisciplinar que reúna as diversas linhas de tratamento, porém, com uma coordenação integradora, abandonando o paradigma dominante das especializações estanques, possibilitando uma visão holística de mundo.

As culturas sociais dominantes, que enaltecem a chamada “normalidade”, nos levam a esquecer que dependentes também são seres humanos, com as mesmas necessidades da espécie, desde as fisiológicas até a autorrealização, mas que por combinações de distintas razões, familiares, biológicas, sociais e psicológicas, que lhes dificultaram e dificultam a adaptação ao mundo, encontraram nas substâncias psicoativas um caminho alternativo, que lhes propicia felicidade instantânea, embora efêmera. São geralmente pessoas inábeis em enfrentar as dificuldades, dominadas por medos e complexos geralmente acumulados desde a infância, frequentemente oriundos de ambientes familiares desajustados, disfuncionais e inadequados ao desenvolvimento psíquico saudável de uma criança. Muitos iniciaram seu caminho rumo à dependência na fase da infância ou adolescência, tendo como referência familiares ou pessoas próximas. Escutei inúmeras dessas histórias e o prazer que as drogas propiciavam, retirando-os momentaneamente de seus dramas pessoais, através de fluxos torrenciais de dopamina, o neurotransmissor do prazer. Confesso que algumas vezes senti inveja dos dependentes ao ouvir a descrição desses momentos prazerosos, tão rápidos de serem atingidos, mas que também cobram um alto preço, levando-os rapidamente do paraíso ao inferno, num movimento pendular ininterrupto. O dependente personifica diariamente o mito de Prometeu, com suas entranhas comidas pelo abutre do álcool e das drogas, conseguindo alguns momentos de “paz”, mas o drama volta a se repetir, indefinidamente. Só terá fim quando conseguir romper as correntes do Cáucaso psíquico e se lançar como no mito do herói, em busca de seu Self, através da individuação, tornando-se inteiro e não mais dividido.  

O que sabemos da psique de um dependente, que o leva a viver uma vida sem vida, uma existência de pouco sentido e “invisível”?  O dependente tem dificuldade de se adaptar à realidade, evitando dores e desconfortos existenciais, e o efeito das drogas altera o que sente, tornando-o insensível à realidade, permitindo-lhe conviver com esta de forma tolerável. Egos desestruturados estão no epicentro desse comportamento, resultante de vivências inadequadas dos arquétipos materno e paterno, cujo dinamismo está diretamente relacionado com a estruturação egóica, nas fases iniciais da vida. O dinamismo matriarcal é regido pelo Arquétipo da Grande Mãe, que se exerce através do desempenho de uma atitude de carinho, cuidado e proteção. O dinamismo patriarcal é regido pelo Arquétipo do pai, tendo como atributos básicos a organização e a orientação. Volta-se para o estabelecimento de regras, normas e leis no seu sentido abstrato. Os arquétipos têm estrutura bipolar, havendo uma permanente relação dialética entre seus polos. Polaridades não vivenciadas de forma estruturante, levam o indivíduo a ficar preso a estes padrões arquetípicos, não conseguindo estruturar outros níveis de consciência.  Fracassos e frustrações durante o desenvolvimento da criança são essenciais para propiciar o amadurecimento estruturante, caso contrário tenderá a procurar algo que o proteja do sofrimento resultante. Este algo pode ser a droga, e seu caminho pode ser o da adicção (SILVEIRA FILHO, 2002).

 Para o dependente, seus sentimentos são moldados pela presença ou não de drogas em seu organismo, que se tornam o centro de sua vida, ocupando sua consciência, escravizando seu ego, já fragilizado, forçando-o a abandonar valores pessoais e sociais, rompendo vínculos que o ligavam ao mundo e levando-o, frequentemente, a um gradual autoisolamento social e à marginalização. A dependência química não é uma doença simples, ao contrário, é complexa e seu tratamento também deve ser, o que me leva a reiterar a defesa de uma abordagem em que as diversas linhas terapêuticas “conversem entre si”, integradas por um pensamento organizador, em um contexto transdisciplinar, no qual a psicologia analítica deve ser utilizada efetivamente, pois possibilita ao dependente, inicialmente, reestruturar seu ego, que se encontra fragilizado, para então retomar a individuação, o que não é fácil mas necessário para o processo de transformação que deve acompanhar o dependente ao longo de sua vida (BENZECRY, 2014).  Nesse processo, Eros, o amor aglutinador, deve estar sempre presente, evitando-se posturas acusatórias e sombrias, que nada contribuem para o processo da recuperação.

Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença (MAGALDI, 2021, pág.2)

Deve-se enfatizar que terapias de base junguiana já vêm sendo utilizadas no campo da dependência química. Já mencionamos as contribuições do Prof. Dartiu Xavier, e citaremos outras duas de analistas contemporâneos, a do italiano Luigi Zoja, que lecionou no instituto C. G. Jung, de Zurique, e a do americano John E. Burns, criador de uma rede de clínicas brasileiras voltadas ao tratamento das dependências.

Segundo Zoja, as drogas produzem uma ação hipertrófica no ego, alterando sua relação com o inconsciente, ou seja, o ego fica inflado, é tomado por um complexo, e perde sua conexão com o Self. Nesse estado o indivíduo tem uma capacidade limitada de refletir e de controle, pois é levado por conteúdos inconscientes, e é tomado por uma sensação de transcendência e poder, que o tira momentaneamente de sua vida comum, mas que é perdida após cessar seu efeito. Permanece, entretanto, a sensação de uma experiência numinosa, que continua então a ser perseguida, levando o indivíduo a buscá-la novamente, através do uso continuado. Zoja entende que a entrada do indivíduo no universo das drogas é o resultado de uma busca espiritual, como também afirmado por Jung, para transcender a condição usual de sua vida, ativada pelo arquétipo da iniciação, caracterizado pela morte e renascimento. Há um desejo de sair da “mesmice” da condição humana em que se vive, sem ter que passar pelas dores, perdas e sofrimentos, inerentes à própria vida, pois o dependente é inábil para se adaptar a ela, pois seu ego não está apto para essa tarefa. Zoja enfatiza que o uso preocupante de drogas pode ser em grande parte atribuído à necessidade inconsciente e coletiva por ritos de iniciação; uma herança ancestral de nossos antepassados primitivos, que os usavam de forma proeminente e não profana, pois os ritos eram necessários para o crescimento psíquico e espiritual de seus membros, durante os quais o indivíduo “morria” em sua atual condição psíquica para “renascer” em uma nova. Essa busca do sagrado pelos povos primitivos, que permeava os ritos de iniciação, persiste de forma subjacente em nossa cultura, mas agora é orientada ao consumo excessivo e hedonista. Apesar de não serem mais praticados em sua forma tradicional, os adictos ainda reagem aos ritos, de forma inconsciente, procurando satisfação por uma necessidade interior de “participation mystique” no que Zoja entende como a religião dominante de nossos tempos, o consumismo. Ele critica os processos de tratamento fundamentados na desintoxicação e afirma que o trabalho analítico deve ser considerado no tratamento, pois é ao mesmo tempo, um processo de esclarecimento e um processo afetivo. O processo analítico, se bem conduzido, pode se revelar como um rito de iniciação e passagem, uma espécie de renascimento, integrando adequadamente conteúdos inconscientes, incentivando o dependente à autodisciplina, e levando-o a sentir e praticar Eros, o amor que integra o “Self”. Nesse sentido, a análise pode contribuir para um renascimento psíquico do dependente, no qual a reestruturação de seu ego fragilizado é uma etapa imprescindível (ZOJA, 2000).

John Burns, ex-capelão da marinha inglesa, alcoolista em recuperação, e simpatizante das ideias de Carl G. Jung e James Hillman, se dedicou ao tratamento da dependência química utilizando o método de tratamento americano “Minnesota”, um tratamento multidisciplinar que integra várias técnicas psicológicas com os 12 passos do A.A. (Alcoólicos Anônimos). Trata-se de um processo de tratamento centrado no conceito de que a dependência química é um fenômeno bio/psico/sócio/espiritual, e que deve ser conduzido através de reuniões em grupo, onde os dependentes compartilham suas histórias de vida, dificuldades e aprendem a reconhecer que não estão sozinhos em suas jornadas. Posteriormente, Burns percebeu que trabalhos rotineiros e intensivos produziam uma rejeição crescente entre os residentes das clínicas, o que o levou a buscar novas perspectivas para o tratamento. Entendeu que, apesar do fato de que as histórias contadas produziam resultados razoáveis na busca da recuperação, faltava-lhes uma base filosófica de sustentação. Assim, chegou à psicologia arquetípica de James Hillman, cujos conceitos levou ao processo terapêutico.  Hillman, discípulo de Jung, se rebelou contra a forma como os conceitos junguianos vinham sendo utilizados, e propôs a psicologia arquetípica como uma abordagem integral da herança junguiana e não como uma nova escola, tendo como base a compreensão de que a psique se manifesta nas imagens, através de processos imagéticos, e é construída através de uma multiplicidade de arquétipos. Defendia que a fonte do conhecimento humano não é o eu, que exerce um controle ilusório sobre nossa vida, mas sim o mundo cheio de imagens que esse eu habita (BURNS, 1999).  

Burns, que via os dependentes químicos não como doentes mentais, mas como pessoas tenazes e criativas, buscando um sentido existencial no mundo, compreendeu que a psicologia de Hillman se coadunava com suas percepções e provocou uma mudança de linha terapêutica, passando a considerar o tratamento da dependência sob o aspecto poético, intuitivo, estético, holístico, em contraposição a um aspecto literal, analítico, científico ou acadêmico. Adotou a Regra de Ouro proposta por Hillman para a terapia: “aderir à imagem”, que consiste, não em tentar mudar ou interpretar a imagem, mas em aprofundar-se nela para alcançar outras perspectivas a partir de uma apreciação metafórica, em que se combinam significados e percepções. Considerou, também, aplicável uma observação de Hillman sobre os processos terapêuticos, em cujo contexto, as adaptações sociais e construção de uma individualidade que são buscadas, deveriam integrar um trabalho a serviço da restauração da realidade imaginal do paciente o que, no caso dos dependentes, passa pela recuperação de uma personalidade saudável, pelo autoconhecimento da situação ambígua e dramaticamente mascarada em que vive, lhe possibilita uma nova percepção da vida e o convida a aceitar a necessidade de retomar a individuação. Nada disso é alcançável, se o ego continuar fragilizado, condição decorrente de uma personalidade não saudável desenvolvida através de vivências inadequadas dos arquétipos materno e paterno, sendo sua reestruturação, uma das tarefas principais do analista, o que se constitui um grande e complexo desafio. Jung dizia que o processo analítico se equipara a juntar pedras para construí um edifício, partindo do inconsciente e terminando com a reconstrução da personalidade total.  

O terapeuta deve, primeiramente, tomar o lugar da própria droga e estabelecer com o toxicômano uma relação verdadeiramente simbiótica, da mesma intensidade daquela anteriormente estabelecida com o produto. Na simbiose, o terapeuta “empresta” seu ego ao paciente por meio de uma relação fusional. E, provendo o paciente desse “gesso egóico”, vai poder trabalhar os elementos essenciais de sua personalidade. (SILVEIRA FILHO, 2002, p.62).

Com estas reflexões procurei enfatizar que a dependência química, que representa um drama global cuja abrangência e consequências ainda não são amplamente conhecidas, aborda, atualmente, diversas linhas de tratamento, mas que não apresentam a eficiência que se precisa, o que nos encoraja a buscar novos olhares terapêuticos, lembrando que se trata de um problema complexo. Nesse sentido, uma abordagem transdisciplinar pode representar um novo caminho para o tratamento da adicção, e este não deve prescindir da psicologia analítica, que ainda não ocupou o lugar devido. Espero com essas reflexões, ter contribuído não somente para ressaltar a importância da inclusão da psicologia analítica no tratamento da dependência, como enfatizar a relevância de se desenvolver, cada vez mais, uma visão transdisciplinar para a vida, para a humanidade, e para o mundo. 

 

Homero Jorge Mazzola – Membro Analista em formação do IJEP.
hjmazzola@uol.com.br
Santina Rodrigues – Membro didata do IJEP.

 

 

Referências

BENZECRY, Daniela. Psicopatologia da Síndrome de Dependência de Drogas e Tratamento. Cadernos Junguianos, no 10, 2014. p. 51-62.

BURNS, John. Psicologia Arquetípica e o Tratamento da Adicção, 1999

Disponível em: http://vilaserenafort.com.br/fundamentos_docs_into.htm

Acesso em 14 de agosto de 2021.

UNODOC Carl Gustav. Carta de C. G. Jung ao fundador dos Alcóolicos Anônimos, 1961

Disponível em:

https://www.psicologiamsn.com/2015/05/carta-de-c-g-jung-ao-fundador-dos-alcoolicos-anonimos.html

Acesso em 22 de julho de 2021.

MAGALDI, Waldemar. Dependência Química e Alcoolismo, 2021

Disponível em: https://www.ijep.com.br/artigos/show/dependencia-quimica-e-alcoolismo

Acesso em 07 de agosto de 2021.

SILVEIRA FILHO, Dartiu Xavier. DROGAS, Uma compreensão psicodinâmica das farmacodependências. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

UNODC. World Drug Report, 2020.  

Disponível em: https://wdr.unodc.org/wdr2020/field/WDR20_BOOKLET_1.pdf

Acesso em 20 de julho de 2021.

ZANELATO, Neide A. e LARANJEIRA, Ronaldo. O Tratamento da Dependência Química e as Teorias Cognitivo-Comportamentais. São Paulo, SP: Artmed, 2013.

ZOJA, Luigi. Drugs, Addiction and Initiation: The Modern Search for Ritual. Am Klosterplatz, Suiça: Daimon, 2000.

WHO. Global status report on alcohol and health, 2018 – World Health Organization.  Disponível em:

https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/274603/9789241565639-eng.pdf?ua=1

Acesso em 20 de julho de 2021.


Homero Jorge Mazzola - 20/10/2021