A SOCIEDADE DA GULA

A SOCIEDADE DA GULA Psicologia Junguiana

Pensando em como a grande maioria das pessoas hoje mantem padrões de comportamentos compulsivos direcionados às mais diferentes possibilidades que a sociedade contemporânea oferece para tal fim, o objetivo do presente artigo é propor uma discussão do que podemos entender nos dias atuais, tanto do ponto de vista literal, quanto do simbólico, como a sociedade da gula. Para isso, faz-se necessário uma pequena revisão daquilo que Jung diz sobre o funcionamento dos instintos e sua relação com a energia psíquica. Mesmo anteriormente ao seu contato com Freud, Jung já desenvolvia suas próprias ideias sobre o funcionamento da psique. Entre concordâncias e discordâncias, Jung afasta-se da teoria psicanalítica ortodoxa com relação à sua concepção de energia psíquica ou libido. Ele utiliza o instinto da fome como exemplo de uma pulsão que surge anteriormente à sexual e que não pode simplesmente ser confundida ou igualada à esta última. Diz Jung:

Na fase da lactância, pelo contrário, só conhecemos a função da nutrição e cujo caráter sexual só pode ser afirmado por via da petitio principii, porque os fatos nos mostram que o primeiro causador de prazer é o ato de nutrição e não a função sexual. A obtenção de prazer não é, de forma alguma, o mesmo que sexualidade. (JUNG, 2011a § 241)

            Nossa intenção nesse texto não é explorar com profundidade a diferença entre o que disseram Jung e Freud sobre a sexualidade como instinto mais básico, apenas concordamos com o primeiro quando aquele afirma que anterior à sexualidade, a pulsão pela nutrição parece surgir primeiro no desenvolvimento biológico do ser humano. E como ele deixa claro no parágrafo acima e em outros escritos, isso não quer dizer que o ato da nutrição não possa estar conectado com o prazer, na verdade o está, sendo talvez parte importante do erro que Freud comete quando confunde logo de início sexualidade com prazer sensual. Porém, mesmo o instinto da fome faz parte de uma ênfase que a vida coloca naquilo que é necessário para a adaptação, sobrevivência e propagação da espécie a que pertence o indivíduo. Nas palavras do próprio Jung: “É óbvio que na natureza não existe esta separação artificial. Nela só encontramos um instinto vital contínuo, uma vontade de conservação do indivíduo.” (JUNG 2011a. § 280)

            Essa concepção determina a maneira como Jung enxerga e define a libido como sendo a energia psíquica que se manifesta através de valor psicológico causador de determinados efeitos e comportamentos no indivíduo (JUNG, 2013 § 869) . Falando novamente sobre o desenvolvimento da criança, podemos resumir dizendo que a energia psíquica, que foi primeiramente direcionada para a saciação do instinto da fome, acaba sendo direcionada de maneira gradual para o instinto sexual  (JUNG, 2011a § 290). A partir dessas ideias podemos formular as seguintes perguntas: será a partir desse fato que a maneira como a fome foi tratada durante a fase mais básica de nutrição influencia na conversão da libido em outro tipo de pulsão? Poderíamos dizer que a libido carregaria uma memória energética de como foi tratada, empregada e saciada durante suas manifestações anteriores, antes de ser aplicada à sexualidade e mais tarde em outros tantos aspectos da vida?

            Parece razoável levantar a hipótese de que, seguindo o modelo proposto por Jung, algo como uma memória libidinal ou energética estaria envolvida na maneira como o desenvolvimento da energia psíquica acontece. Obviamente, tal memória não teria início na fase da nutrição, sendo essa apenas um momento da evolução energética que já acontecia anteriormente. Seria impossível determinar um marco inicial para essa história e devemos, inclusive, descartar a possibilidade de que isso ocorra no momento da concepção do indivíduo. Como qualquer outro órgão formador da psique, a energia deve estar carregada de memórias arquetípicas e transgeracionais. Da mesma maneira que ocorre a formação de um complexo afetivo, poderíamos dizer que a libido carregaria em sua memória uma quantidade de energia arquetípica que estaria revestida com conteúdos culturais e familiares, estes por sua vez seriam atualizados pelas experiências do próprio indivíduo. Essas ideias necessitam de aprofundamento e isso não é possível e nem é objetivo do presente artigo.

            Retornando para o foco principal do presente texto, vamos lembrar que Jung, citando Agostinho, afirma que a libido é um appetitus, e que a a volúpia é a expressão de um desejo que se sente na própria carne, um apetite por ela mesma (JUNG, 2018). Do ponto de vista simbólico, nos parece que esse é o mesmo mecanismo da gula: uma fome insaciável que o indivíduo sente, autonoma e compulsoriamente, e que aumenta conforme a busca torna-se cada vez mais voltada para o mundo exterior ao invés de ser direcionada para o mundo interior, o si-mesmo. Sabemos bem que de acordo com a teoria junguiana esse vazio nunca poderá ser preenchido através da projeção de conteúdos que são, na verdade,  pertencentes às camadas mais profundas da psique do indivíduo. O centro (self), que se prova empiricamente uma verdade psicológica, aparece projetado em diferentes objetos, mas somente porque a pessoa está afastada de seu mundo interior (BONAVENTURE, 1975). A busca pela nutrição da alma acaba tomando forma de compulsões literais que crescem à medida que são alimentadas.

            O filósofo Vilém Flusser faz um resgate interessante do pensamento oriental com relação às compulsões quando afirma que “(…) enquanto nós ocidentais matamos a fome comendo, os sábios orientais ensinariam que quanto mais se come, tanto mais faminto se estará, pois a fome é um desejo e os desejos crescem quando são satisfeitos.” (BAITELLO JR, 2010, p.14). Em suas reflexões, Flusser preocupa-se em abarcar esse fenômeno de vários pontos de vista, levando em conta como esse comportamento compulsivo pode se manifestar nas diferentes áreas da vida humana. Essa ideia parece concordar diretamente com Jung, quando este já apontava:

O estado físico de excitação chamado fome pode ser inconfundível, mas as consequência psíquicas dele resultantes podem ser múltiplas e variadas. Não somente as reações à fome ordinária podem ser as mais variadas possíveis, como a própria fome pode ser “desnaturada"e mesmo parecer como algo metafórico. Podemos não somente usar a palavra “fome” nos seus mais diversos sentidos, mas a própria fome pode assumir os mais diversos aspectos, em combinação com outros fatores. A determinante, originalmente simples e unívoca, pode se manifestar como cobiça pura e simples ou sob as mais variadas formas, tais como a de um desejo e uma insaciabilidade incontroláveis, como, por exemplo, a cupidez do lucro ou a ambição sem freios. (JUNG, 2011b § 236)

            Nos parágrafos acima estão as chaves para o entendimento da nossa reflexão. Jung deixa claro que o resultante psíquico de um estado fisiológico pode tomar as mais diferentes formas; em sua relação, ambas dimensões do fenômeno se retroalimentam e agem diretamente e mutuamente sobre suas transformações, um influenciando o outro e vice versa. O desenvolvimento psicológico caminha lado a lado com o biológico; não existe aqui uma ordem determinada de como as coisas acontecem. Um biólogo de visão limitada poderia argumentar que a fome, do ponto de vista fisiológico, estaria na base desse processo. No outro extremo, um psicólogo poderia adotar a mesma atitude unilateralizada e afirmar que tudo teria origem na psique sendo a fome originalmente uma pulsão. Porém, se observarmos o fenômeno com verdadeira atitude científica, não é possível afirmar que tal coisa acontece dessa maneira: a expressão psicológica da fome surge no mesmo exato momento em que sua forma física aparece no corpo do indivíduo. E, mesmo levando essas duas dimensões em consideração, estariam faltando outros elementos, como por exemplo a atitude social perante a fome. Falamos aqui, portanto, de recortes possíveis que podemos fazer com relação ao fenômeno que na verdade se prova hipercomplexo.

            Jung usa a expressão “desejo e insaciabilidade incontroláveis” para mostrar como pode ocorrer a conversão da pulsão instintiva em comportamentos compulsivos. Nossa intenção não é reduzir a compulsão que aparece de forma clara nos mais diversos comportamentos contemporâneos, como por exemplo na necessidade incessante de produzir e consumir, marca do capitalismo predatório, à uma conversão patológica do instinto da fome. Queremos somente indicar que esse é um dos fatores formadores desse fenômeno. Podemos afirmar então que, entres outras denominações possíveis, vivemos a sociedade da gula. Além disso, não podemos deixar de levar em conta o outro extremo dessa balança patológica, porque se de um lado encontramos grupos que possuem condições suficientes para alimentar indiscriminadamente e exageradamente sua fome, transformando-a em gula, do outro, iremos encontrar pessoas morrendo de fome, literalmente lutando por sua mera sobrevivência biológica.

            Nesse sentido acreditamos que nosso papel como pensadores de uma psicologia transformadora seja não só o de refletir sobre o assunto, mas também agir para que seja possível uma distribuição mais igualitária de recursos. Isso passa por uma etapa de autocrítica, quando é necessário que observemos para onde encontram-se direcionadas as nossas próprias compulsões, a nossa própria gula. O quê, em nosso cotidiano, fazemos em exagero? Somos ávidos por livros, viagens, bebidas, comida, festas, clientes, aulas, dinheiro? A fome é do estômago, da alma, ou do estômago da alma?

            A partir da nossa reflexão individual, mudando hábitos compulsivos, conseguimos dar espaço para que aqueles que estão à nossa volta também atuem com mais liberdade. Se agimos assim, as pessoas que nos cercam também têm chance de escapar de uma dinâmica onde as relações são normalizadas e reduzidas à disputas que espelham uma vida restrita às nossas necessidades reptilianas de sobrevivência: Quem come mais? Quem ganha mais? Quem chega na frente? Quem sabe mais? Presos nessa dimensão da vida, não sobra espaço e tempo para que os indivíduos possam procurar e estar abertos para o estabelecimento de vínculos verdadeiros e amorosos; muito menos para exercer sua capacidade simbólica que pode permitir o acesso à transformação espiritual necessária para uma ampliação de consciência.

            Jung afirma muitas vezes que o primeiro passo precisa ser dado por cada um de nós e, uma vez que estejamos traçando esse caminho de autoconhecimento, torna-se responsabilidade moral e ética agir para que aqueles que nos cercam possam também se manifestar em relações que promulguem trocas verdadeiras entre os indivíduos. Portanto, nossa mudança de comportamento pode levar não só ao nosso desenvolvimento individual, mas também ao social e cultural. Precisamos encarar o problema da gula de diferentes pontos de vista: o físico e o psicológico; o literal e o simbólico; o individual e o social.

            Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto perguntaram em sua música entitulada Comida: “Você tem fome de quê?” Essa mesma pergunta me foi feita um dia pelo meu analista logo no início de uma sessão. Cheguei em sua sala e já sentado em frente a ele comento “estou com fome” enquanto levo a mão à barriga para reforçar a literalidade do ato. Ele, sem poder contentar-se apenas com o literal, me pergunta: “Você está com fome de quê? Será de Eros? Ou será de Logos?”

            Talvez o ideal seja que consigamos viver a pluralidade da fome e não apenas uma. Se alimentarmos apenas uma delas, estaremos unilateralizados e agindo compulsivamente em busca de uma coisa só, deixando de lado a potencialidade da multiplicidade daquilo que podemos viver e experienciar enquanto indivíduos e coletividade. Numa tentativa de ampliar o que disse Vilém Flusser, deixo a seguinte questão: será a gula então, a fome alimentada de uma coisa só? Os três compositores respondem à essa questão, mesmo que apenas em parte, noutros versos da mesma música citada anteriormente:

A gente não quer só comer

A gente quer comer e quer fazer amor

A gente não quer só comer

A gente quer prazer pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro

A gente quer dinheiro e felicidade

A gente não quer só dinheiro

A gente quer inteiro e não pela metade

 

José Balestrini - Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP

Analista Didata Responsável - Waldemar Magaldi

 

Imagem: Sin Esperanza, Frida Kahlo, 1945 - permitido o uso para fins educacionais e de pesquisa. Disponível em https://www.wikiart.org/en/frida-kahlo/without-hope-1945

Referências

BAITELLO JR, N. A serpente, a maçã e o holograma. São Paulo: Paulus, 2010.

BONAVENTURE, L. Psicologia e vida mística: contribuição para uma psicologia cristã.  Editora Vozes, 1975.

JUNG, C. G. Freud e a psicanálise.  Editora Vozes Limitada, 2011a.

JUNG, C. G. A natureza da psique.  Editora Vozes Limitada, 2011b.

JUNG, C. G. Tipos psicológicos. Tipos psicológicos, p. 1-633, 2013.

JUNG, C. G. Símbolos da transformação vol. 5.  Editora Vozes Limitada, 2018.


José Balestrini - 04/03/2022